Publicado em 17/11/2015 às 11h20.

Quem chora por Dulcineide?

Mulher, negra, policial militar, Dulcineide Bernardes de Souza trabalhava defendendo a sociedade. Pagou com a vida.

Carlos Melo

dulcineide

Dulcineide Bernardes de Souza, era mulher e negra, e como tal sofria as discriminações e violências que no nosso país parecem ser naturais, onde segundo IBGE ganham 40,5 % menos que os homens mesmo com nível de instrução maior, que possui a quinta maior taxa de homicídios contra mulheres do mundo e por ser negra 50% mais violência do que as mulheres brancas segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mesmo assim decidiu proteger o cidadão, decidiu ser Policial Militar, mesmo tendo consciência de que sofreria mais discriminações e violências.

Mulher negra e PM, enfrentar tudo isto para defender a sociedade é realmente uma inspiração divina, teve um leque de opções mas escolheu ser PM, justamente para defender o cidadão a despeito do seu credo cor gênero e posição social.

Esta mulher negra policial militar, nesta segunda-feira (16) pela manhã, quando trabalhava no posto de saúde de Pituacu teve a vida ceifada por um bandido, que, junto com outros, levou sua arma e a do seu parceiro. Recebeu um tiro na testa. Socorrida, não resistiu, veio a óbito. Morreu defendendo a sociedade, morreu defendendo esta sociedade que aparenta pouco se importar com sua morte, prefere centrar suas preocupações com o número de bandidos mortos em confronto com os policiais, prefere atacar violentamente os policiais restringindo e negando seus direitos, acusando-os de assassinos.

Na época de formação demorei a entender o conceito da “violência legítima” de Weber como legitimar a violência? Mas compreendi. Com o tempo, conheci também a “banalização da violência” de Hannah Arendt. E, com estes dois autores, compreendi que a vida de um Policial Militar nada significa para a imprensa e para a população.

 

h meloCarlos Henrique Ferreira Melo é tenente-coronel da Polícia Militar da Bahia. Especializado lato sensu em Gestão Estratégica em Segurança Pública (Cegesp-Ufba), em Defesa Social e Cidadania – UFPA. Mestrando em Direitos Humanos (Ufba). Comandante do 12º Batalhão da PM (Camaçari).

PUBLICIDADE