Publicado em 10/06/2019 às 00h41.

The Intercept: Moro orientou investigações da Lava Jato

Nas conversas, trocadas ao longo de dois anos, o então juiz de Curitiba sugeriu que o MP trocasse a ordem de fases das ações, para não ficar "muito tempo sem operação"

Redação
Foto: Agência Brasil
Foto: Agência Brasil

 

O site ‘The Intercept Brasil’ publicou na noite de domingo (9) uma série de reportagens afirmando que o ex-juiz federal e atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, orientou as investigações da operação Lava Jato em Curitiba por meio de mensagens trocadas pelo aplicativo Telegram com o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa.

Intercept afirma que recebeu de ‘uma fonte anônima um grande volume de mensagens trocadas no aplicativo entre membros da Lava Jato e entre o procurador Dallagnol e Moro’. Um dos autores das reportagens é o fundador do portal, o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, mundialmente conhecido por ajudar o ex-analista de sistemas Edward Snowden a revelar informações secretas obtidas pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos.

Nas conversas, trocadas ao longo de dois anos, o então chefe da Lava Jato em Curitiba sugeriu que Dallagnol trocasse a ordem de fases das ações, para não ficar “muito tempo sem operação”; deu conselhos e pistas informais de investigação e antecipou uma decisão que ele ainda não havia tornado pública. As mensagens, de acordo com The Intercept, também mostram que Moro criticou e sugeriu recursos ao Ministério Público.

O Ministério Público Federal do Paraná confirmou em nota no portal UOL que houve ‘vazamento de mensagens de procuradores após um ataque hacker’. Segundo o órgão, ‘as mensagens não mostram nenhuma ilegalidade’.

Também por meio de nota, o ministro Sérgio Moro afirmou que as mensagens não revelam “qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado”. O ministro também criticou o site por não tê-lo procurado antes da publicação da reportagem e disse que as conversas foram retiradas de contexto.

A Constituição de 1988, lembra o UOL, determina que não haja vínculos entre o juiz e as partes em um processo judicial. Para que haja isenção, o juiz e a parte acusadora –neste caso, o Ministério Público– não devem trocar informações nem atuar fora de audiências.

Moro e Dallagnol discutiram vazar áudio de Dilma

Três dias depois, quando Dilma tentou nomear Lula para a Casa Civil, Moro divulgou uma conversa gravada entre os petistas. A estratégia de divulgação dos áudios foi discutida entre procurador e juiz. “A decisão de abrir está mantida, mesmo com a nomeação, confirma?”, questionou Dallagnol. Moro rebateu, perguntando qual era a posição do Ministério Público Federal, ao que o coordenador da Lava Jato em Curitiba respondeu que era “abrir” e levar a público.

Seis dias depois, com fortes críticas ao vazamento dos áudios, os dois ainda discutiam o assunto. Dallagnol defendeu a liberação dos grampos telefônicos e chamou a ação de “ato de defesa”. “Não me arrependo do levantamento do sigilo. Era a melhor decisão. Mas a reação está ruim”, escreveu Moro. Uma semana depois da conversa, o atual ministro veio a público pedir desculpas pela decisão.

‘Ataque criminoso’

Em nota, a força-tarefa da Lava Jato falou em “ataque criminoso” aos membros do MPF-PR, e lembrou o ataque de hackers ao celular do ministro Sérgio Moro, na semana passada. Segundo o documento, os procuradores “mantiveram, ao longo dos últimos cinco anos, discussões em grupos de mensagens, sobre diversos temas, alguns complexos, em paralelo a reuniões pessoais que lhes dão contexto”.

Esses procuradores seriam amigos próximos e, “nesse ambiente, são comuns desabafos e brincadeiras”. “Muitas conversas, sem o devido contexto, podem dar margem para interpretações equivocadas”, disse a nota. A força-tarefa “lamenta profundamente pelo desconforto daqueles que eventualmente tenham se sentido atingidos”, mas reitera que nenhum pedido de esclarecimento ocorreu antes das publicações, “o que surpreende e contraria as melhores práticas jornalísticas”.

“De todo modo, eventuais críticas feitas pela opinião pública sobre as mensagens trocadas por seus integrantes serão recebidas como uma oportunidade para a reflexão e o aperfeiçoamento dos trabalhos da força-tarefa”, completou a nota.

The Intercept argumenta que não entrou em contato com procuradores e outros envolvidos nas reportagens “para evitar que eles atuassem para impedir sua publicação, e porque os documentos falam por si”. “Entramos em contato com as partes mencionadas imediatamente após publicarmos as matérias”, disse o veículo. O site também afirma que recebeu o material há algumas semanas, bem antes da notícia sobre a invasão do celular de Moro.

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