‘Cala a boca, seu viado’: professor relata tortura e homofobia por PMs no Carnaval; leia
João Vitor Dias detalha agressões sofridas no circuito Ondina durante o Carnaval

O professor João Vitor Dias da Cruz, de 27 anos, detalhou ao Jornal da Manhã, da TV Bahia, os momentos de violência que viveu ao lado do esposo e de amigos no circuito Dodô (Barra-Ondina). O episódio aconteceu no último sábado (14), no Morro do Gato, quando o casal ia atrás de um bloco. Uma das vítimas agredidas, que também é policial, teve que passar por cirurgia para reconstrução do maxilar e segue internado no Hospital Geral do Estado (HGE).
Segundo João Vitor, o que começou como uma defesa contra um folião homofóbico terminou em espancamento por parte de quem deveria proteger.
Confira o relato na íntegra:
“A situação toda ocorre no dia 14 de fevereiro, por volta das 23h40, na altura do Morro do Gato, no circuito da Ondina. Quando estávamos dançando atrás do trio de Papazoni, eu e meu esposo abraçados, fomos delimitados com diversas ofensas homofóbicas por conta de um folião que estava atrás da gente. Estávamos acompanhados por um casal de amigos, que também é policial militar. A esposa desse policial ouve essas ofensas e dá o dedo para esse rapaz. Ele prontamente a chama de ‘puta’, e o marido dela pergunta por que ele a chamou assim, sem procurar problema. Mais três pessoas que estavam com esse folião quiseram resolver a situação. Meu esposo vê a situação e eu vou atrás para evitar que eles entrem em uma briga de fato.”
O professor explica que a chegada da patrulha 1007 da Bepatamo foi imediata e violenta. “Fui surpreendido pela polícia que já chega com truculência disparando quatro golpes de cacetete em cima de mim: uma nas minhas costas, dois no meu tórax e uma ao lado do meu peito. Como eu abri o caminho da porrada, fui o primeiro a ser acertado. Meu esposo e o colega avisaram que eram ‘da casa’, mas o colega foi agredido com dois golpes no rosto, o que causou um ferimento na testa, levando seis pontos, e precisou de cirurgia no maxilar no HGE [Hospital Geral do Estado].”
João Vitor ainda denuncia o tratamento recebido pela segunda guarnição (1425) durante a condução ao módulo.
“Eu sou imobilizado pelo aluno-soldado Cris Amon. Ele me imobiliza botando meu braço para trás com muita força, sem eu sequer oferecer resistência alguma. Nesse momento eu falo: ‘Senhor, meu braço está doendo, afrouxa por favor’. Ele olha para mim e fala: ‘Cale a boca, seu viado, você ainda não viu o que é violência’. Eu fico extremamente nervoso e começo a mexer no cabelo, e ele diz: ‘Ainda fica mexendo nessa desgraça do cabelo’.”
A vítima afirma que tentou gravar a ação, mas teve o celular tomado por uma aluna-soldada. O casal só foi liberado na porta do módulo policial após a intervenção de um capitão.
Justiça
A Justiça baiana determinou o afastamento cautelar de quatro policiais militares e a investigação de todos os integrantes de duas patrulhas envolvidos no caso. A Corregedoria da Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) com prazo improrrogável de 60 dias para apurar a conduta dos agentes das guarnições 1007 (Bepatamo) e 1425.
Em nota, Polícia Civil informou que a 7ª Delegacia Territorial (DT) do Rio Vermelho investiga o caso como lesão corporal dolosa.
Procurada pela reportagem do bahia.ba, a Polícia Militar não respondeu aos questionamentos. O espaço segue aberto.
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