Publicado em 26/05/2020 às 17h00.

Dívida pública do Brasil deve passar de 100% do PIB até 2026

"Vai ter que ter aumento das receitas, corte em despesas obrigatórias e restauração das regras fiscais", diz Felipe Salto, diretor da Instituição Fiscal Independente

Redação
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

 

“A crise econômica causada pela pandemia de coronavírus no Brasil é grave, e a dívida pública, que explodirá em 2020, continuará crescendo até passar de 100% do produto interno bruto em 2026′, diz Felipe Salto, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI). Previsão foi feita em reunião da comissão do Congresso que acompanha as ações do governo no combate à Covid-19.

“Só em 2020, a dívida deve saltar de 75,8% para 86,6% do PIB, um aumento superior a 10 pontos percentuais. E o país precisa estar atento, pois mesmo com a adoção de eventuais ajustes em 2021, a dívida crescerá mais 4,5% e continuará a crescer nos próximos anos. A situação é muito grave. Não significa que não se deva gastar agora, mas o Brasil precisará compreender que a partir de 2021, a chamada ‘lição de casa’ a ser cumprida será exigente. Vai ter que ter aumento das receitas, corte em despesas obrigatórias e a restauração das regras fiscais. Principalmente no que tange ao teto dos gastos públicos”, disse Salto em publicação da Agência Senado.

Queda no PIB

O quadro é “agravado”, segundo o economista, pelo “baque econômico interno”, que, num cenário pessimista, pode levar o PIB a uma queda de 5,2%. A depressão econômica impacta as contas públicas, porque leva a quedas expressivas na arrecadação do governo. Por isso, segundo Salto, o poder público deve evitar a ampliação das despesas permanentes.

“O deficit em 2020 será superior a R$ 700 bilhões, talvez algo ainda pior, se a crise se prolongar por mais tempo que o previsto, levando à adoção de novas medidas emergenciais. Por isso é muito importante evitar o risco de se aprovarem medidas que não estejam relacionadas à crise, que acabam gerando gastos permanentes. Me refiro a reajustes salariais, contratações ou outras despesas permanentes”, afirma Salto.

Outro efeito negativo da explosão da dívida, segundo o economista, é o encurtamento nos prazos de rolagem ou pagamento dos títulos emitidos pelo governo no mercado, devido ao quadro de incertezas — econômica, sanitária e política — no país.

“O Brasil está passando pela desestruturação da sua atividade produtiva. Mais de 40% da indústria, especialmente a de transformação, está paralisada. As plantas industriais estão ociosas e o comércio também tem sido muito afetado. Os setores automotivo e o manufatureiro em geral, por exemplo, estão sofrendo muito. Passamos pela maior crise dos últimos tempos e o buraco fiscal apenas reflete essa situação.”