Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba.
DRT: 7543/BA
Publicado em 02/03/2026 às 10h54.
Amanda Julieta lança livro de contos ‘Monstruosa’ no MUNCAB
Obra reúne histórias sobre amor entre mulheres, violência estrutural e estratégias de sobrevivência
João Lucas Dantas

A escritora baiana Amanda Julieta lança, no dia 7 de março, às 14h, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, o livro de contos “Monstruosa”. O evento contará com a distribuição gratuita de 100 exemplares da obra.
Durante o lançamento, haverá leitura de trechos do livro realizada por artistas da palavra e atrizes, entre elas as poetas Bruna Silva e Louise Queiroz. A mediação será da professora de letras Fernanda Miranda, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Com uma escrita que transita entre prosa poética, fluxo de consciência e narrativa fragmentada, Monstruosa constrói um mosaico de histórias atravessadas por violência estrutural, cuidado, desejo, luto e reinvenção. As personagens — mulheres negras, lésbicas ou bissexuais — vivenciam experiências que transitam entre o íntimo e o coletivo, revelando estratégias de sobrevivência em um contexto marcado pelo racismo, pela lesbofobia, pela violência policial e pela precarização da vida.
Entre as narrativas, o livro apresenta diferentes perspectivas e trajetórias: uma adolescente no subúrbio de Salvador que descobre a própria sexualidade; uma mulher que enfrenta desafios cotidianos para chegar em casa e entregar um presente à companheira; um casal tentando compreender seus sentimentos em meio ao cotidiano; e as memórias de um relacionamento que transbordam em forma de carta.

Um título que provoca deslocamentos
O próprio título da obra funciona como um gesto de enfrentamento. Monstruosa propõe um deslocamento na forma como mulheres que amam outras mulheres foram historicamente representadas na sociedade.
“O que há de monstruoso em uma mulher que só quer chegar em casa em segurança e jantar com a companheira e o filho na noite de Natal? Elas não são monstros destruidores da família tradicional, mas mulheres que decidiram viver suas vidas de acordo com seus próprios termos”, afirma Amanda Julieta.
A obra conta com texto de orelha da escritora Natália Borges Polesso e foi publicada pela editora ParaLeLo13S, selo ligado à livraria Boto-cor-de-rosa, que também estará vendendo exemplares durante o lançamento. Um novo evento com distribuição gratuita do livro deve ocorrer ainda em março, em local a ser confirmado.
Os contos não seguem uma linearidade narrativa tradicional. A fragmentação surge como escolha estética e política, refletindo modos de existência marcados por rupturas, silêncios e constantes recomposições.
“Os contos dialogam menos por continuidade narrativa e mais por ressonância. Eles foram pensados como partes de um mesmo corpo. Cada história ilumina a outra e convida o leitor a construir vínculos entre as narrativas”, explica a autora.
Entre o real e a fabulação
As histórias transitam em um território ambíguo entre realidade e ficção, aproximando o leitor de experiências que, embora literárias, carregam elementos de um cotidiano reconhecível.
“Nesse livro, tudo é real e inventado. Algumas histórias eu realmente escuto por aí, mas elas nunca se desenvolvem exatamente como ouvi. A ideia do conto ‘Chocolates’, por exemplo, surgiu de uma conversa que escutei na rua sobre uma abordagem policial violenta”, conta.
Para Amanda Julieta, Monstruosa também é um livro sobre esperança — uma esperança que nasce da reinvenção coletiva.
“O livro surge desse tensionamento entre a brutalidade do presente e a necessidade urgente de inventar outras formas de existir, amar e permanecer vivas. As estratégias de sobrevivência aparecem em gestos mínimos: alianças entre mulheres, redes de cuidado, memória, fuga e a invenção de novas linguagens para o afeto”, diz.
Ao final da leitura, a autora espera que o público seja atravessado pela potência do amor entre mulheres. “Não como ideal romântico, mas como força política, ética e vital — uma tecnologia de sobrevivência e de imaginação de futuro”, afirma.
Sobre a autora
Nascida em 1991, em São Paulo, Amanda Julieta é escritora, jornalista e pesquisadora literária. Ela é autora dos livros Dandara (infantojuvenil, 2021), vencedor do Prêmio Pretas Potências em 2023; Tem poeta na casa? – Mulheres negras, poetry slam e insurgências (ensaio literário, 2023), que conquistou o segundo lugar na categoria ensaio literário do Prêmio Literário Biblioteca Nacional em 2024; e No rastro de Estela (ficção em prosa).
O projeto foi contemplado pelo edital Territórios Criativos – Ano II, com recursos da Fundação Gregório de Mattos, da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo da Prefeitura de Salvador e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura.
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