Publicado em 14/05/2026 às 18h03.

Amanda Souza mergulha nas sombras da infância feminina em novo livro

Escritora baiana lança contos sobre descoberta e amadurecimento em "Toda Palavra Tem Uma Sombra"

João Lucas Dantas
Foto: Divulgação

 

A psicóloga, escritora e mestre em Psicologia da Saúde pela UFBA, Amanda Souza, lança o seu segundo livro, Toda Palavra Tem Uma Sombra, já em pré-venda no site da editora Patuá, com lançamento previsto para o dia 29 de maio.

Natural de Santo Antônio de Jesus (BA), é uma artista independente que transita por diferentes linguagens, especialmente a fotografia. Anteriormente, já havia lançado Digna de Ser Amada, de 2019.

Para celebrar o lançamento da sua nova obra, o bahia.ba pôde conversar com a autora, que nos contou mais sobre a nova publicação, seu processo criativo e o impulso para escrever um livro que reúne onze contos que conversam entre si, todos protagonizados por meninas e jovens mulheres que vivenciam experiências de iniciação e descoberta.

Capa do livro

A tradução da emoção

As histórias apresentam experiências fundantes do universo feminino, perpassando a relação com a palavra, o corpo e a solidão de crescer e viver.

“A ideia do livro surgiu quando me percebi tentando, deliberadamente, escrever essas histórias. Eu não acho que exista uma ideia central; acredito que cada história surgiu individualmente, de maneira independente, chegando até mim como algo ao qual eu queria muito dar forma”, contextualizou Amanda.

“Queria traduzir as experiências específicas que as personagens viviam e sentiam, principalmente sentimentos específicos que eu queria conseguir expressar”, acrescentou.

Segundo a escritora, os contos não foram uma reunião de caso pensado. Cada história foi surgindo de forma independente e, em determinado momento, surgiu a ideia da coletânea.

“Pensei: ‘Bom, talvez exista algo aqui que eu possa reunir e que talvez se torne um livro’. Foi aí que comecei a entender que realmente havia uma obra se constituindo. Passei a notar um certo encadeamento de elementos presentes na vida das personagens e percebi que todas compartilhavam, por exemplo, o fato de serem meninas — a maioria crianças, mas também jovens mulheres”, explicou a autora.

A obstinação em palavras

Ainda no campo das influências que deram origem ao novo lançamento, muito também teve origem em experiências pessoais de Amanda e no desejo de colocar em palavras o impacto e os sentimentos que um conjunto de leituras lhe trouxe.

“Acho que o livro é mais o resultado de um estado criativo em que entrei por causa da leitura desses livros todos, de autoras como Helena Ferrante, e menos um projeto construído a partir de uma ideia central”, pontuou.

Outro ponto de abordagem para discutir Toda Palavra Tem Uma Sombra são os elementos visuais. Segundo a psicóloga, são histórias muito visuais, sensoriais, com uma questão imagética muito presente.

“Lembro que eu tinha sonhos vívidos e ficava com essas imagens na cabeça, tomada pelo impulso de tentar traduzi-las de maneira verdadeira, de forma fiel. Às vezes era um acontecimento, ou um fragmento de acontecimento, uma sensação específica, uma impressão que acabava se tornando parte do enredo da história, um ponto de partida ou um elemento central dela”, levantou a autora.

Além de escrever os contos, o livro também conta com desenhos autorais da própria autora, produzidos ao longo do tempo.

“Algumas dessas ilustrações surgiram muito antes de as histórias serem escritas. E então, por algum motivo, depois da escrita eu me lembrava delas, ia buscá-las e as incorporava ao livro. Acho que isso me dá a impressão de que a obra foi construída ao longo do tempo, de forma fragmentada, a partir de uma grande mistura, de um conjunto amplo de coisas que foi, aos poucos, encontrando uma forma própria”, celebrou.

Ilustração de Amanda Souza

Do interior da Bahia para as páginas em branco

Natural de Santo Antônio de Jesus e, atualmente, residente do município de Presidente Tancredo Neves, a experiência da vivência no interior da Bahia foi o grande cenário da vida da autora até o momento.

“É de onde minha vida começou. Minha família sempre transitou entre cidades do interior, e eu também. Cresci em Tancredo Neves, mas logo cedo fui morar em Valença. Fiquei entre Tancredo e Valença, depois fui para Salvador nessa dinâmica de ir e voltar. Mais tarde, morei em Vitória da Conquista e viajo muito pela Bahia. Acho que tudo isso me constituiu como pessoa”, disse Amanda.

Para a autora, a vida interiorana tem muitas particularidades desses locais únicos. “Não falo do interior entendido como um grande lugar único e genérico, mas como um espaço profundamente plural e singular”.

“Tancredo é a cidade onde minha família vive e onde eu vivo hoje. Desde que me entendo por gente, sempre dormi e acordei de frente para a BR-101, que recentemente descobri ser uma das maiores rodovias do Brasil — acho que a segunda maior. Isso causa uma impressão, sabe? Dá o que pensar”, refletiu.

Para a autora, a sensibilidade natural que essa vida lhe trouxe se desenvolveu em um contexto que a transformou em alguém capaz de sentir ambientes, captar detalhes e “perceber o invisível”.

“Isso aparece nas histórias. Não sei dizer exatamente como, porque é algo tão constitutivo de quem eu sou que acredito que a própria maneira de narrar e de me expressar já carrega essa bagagem. Essa ideia do ir e vir, do que fica, daquilo que a gente leva consigo. Existe também o contraste entre crescer em um lugar pequeno e, de repente, descobrir que o mundo é imenso, incompreensível”, relembrou a autora.

“Talvez exista algo ali meio inquieto, meio espantado. Tenho a sensação de que as próprias histórias do interior — as lendas de cada lugar, as histórias que circulam — são muito impressionantes e ficam na gente. Acho que tudo isso acaba se refletindo na escrita”, afirmou.

O retrato da juventude feminina

Com protagonistas majoritariamente jovens mulheres, Amanda quis dar voz ao quão difícil e doloroso é ser uma menina e se transformar em mulher.

“Quis trazer o que existe de perturbador na infância: a desumanização, a objetificação, o apagamento, o silêncio, a invisibilidade. Também esse mundo invisível das crianças nos seus processos de tomar consciência de que são alguém, de que estão ali, existem, têm um corpo e que as coisas acontecem com ele. E cabe a elas seguir o próprio caminho a partir disso”, destacou a escritora.

“Existe, ao mesmo tempo, a beleza espontânea de ser criança, o atrevimento na descoberta do mundo, a curiosidade — em contraste com aquilo que há de mais perturbador, confuso, sombrio e pesado. Acho que foi justamente esse contraste, essa mistura, que eu quis transmitir”, disse.

Com uma capa retratando uma menininha de vermelho na bicicleta e uma sombra forte atrás dela, fazendo um percurso grande, esse elemento foi pensado como uma espécie de marca profunda.

A carga sentimental da obra

Questionada sobre o tipo de expectativa que os leitores podem criar sobre sua nova obra, Amanda afirma que, antes de tudo, escreveu algo que a convencesse e que trouxesse um sentimento verdadeiro.

“Isso é algo que, sempre que encontro em um livro, me fascina e desperta em mim o impulso de escrever. Quis criar algo que contagiasse, que contaminasse de alguma maneira, que provocasse impacto. Histórias interessantes na sua simplicidade, justamente por serem cotidianas, por estarem aqui, no nosso dia a dia, nas nossas casas, nas nossas experiências”, espera Amanda.

“Acho que as personagens são muito fáceis de se identificar. Infelizmente, porque vivem coisas muito dolorosas e difíceis; mas, felizmente, porque acredito que a literatura — a arte de modo geral, mas especialmente a literatura — oferece esse grande consolo, esse abraço fraterno de se ver traduzido ali, de alguma maneira”, completou.

Há também a expectativa pessoal de entregar um material de qualidade e a autora admite uma certa dificuldade de estar no lugar de escritora.

“É algo que parece reservado para poucos, para os excelentes. E eu sou uma grande admiradora dos escritores que considero extraordinários. Mas acho que a magia está no ato de ler e no ato de escrever. E, escrevendo, eu me senti uma grande leitora, porque escrevi pensando na experiência da leitura e em mim como leitora”, concluiu a autora Amanda Souza.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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