Brasil entra em grupo raro de países com indicações consecutivas ao Oscar
Veja quais países já tiveram “dobradinhas” de indicações à Melhor Filme Internacional ao longo dos anos
João Lucas Dantas
Foto: Divulgação/ Victor Jucá
Com O Agente Secreto indicado a quatro estatuetas no Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, o Brasil repete o feito alcançado por Ainda Estou Aqui na temporada de 2025.
O longa de Walter Salles consagrou-se com a honraria máxima para um filme de língua não inglesa na noite de 2 de março de 2025, e agora o país vive novamente a expectativa do topo do pódio.
Um país ser indicado consecutivamente ao prêmio internacional é um marco relevante nas 98 edições do Oscar. Embora países como França e Itália tenham dominado a categoria no século XX, para o cinema latino-americano e para a era moderna da premiação, o feito do Brasil é extraordinário.
Sequência de indicações na história
A primeira vez que essa “dobradinha” de vitórias aconteceu foi entre 1956 e 1957 com a Itália. O mestre Federico Fellini conquistou o mundo com A Estrada da Vida e, logo no ano seguinte, com Noites de Cabíria. Esta foi a primeira das raras vezes em que o feito resultou em vitória em ambos os anos.
A Itália repetiria o sucesso consecutivo em 1970 e 1971. Em 1970, o vencedor foi Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri, uma contundente sátira política. No ano seguinte, o país voltou a vencer com O Jardim dos Finzi-Contini, dirigido pelo mestre do neorrealismo Vittorio De Sica.
Outros países também deixaram sua marca em anos seguidos. A Espanha viveu um momento de grande prestígio entre 1982 e 1983. Primeiro, conquistou sua histórica primeira estatueta com Começar de Novo, de José Luis Garci; logo no ano seguinte, voltou à cerimônia com a indicação de Carmen, a aclamada adaptação flamenca dirigida por Carlos Saura.
No mesmo período, a Suécia, sob a batuta de Ingmar Bergman, viu Fanny e Alexander (1983) triunfar após a indicação de O Voo da Águia, Jan Troell, no ano anterior.
Na América Latina, a Argentina foi a pioneira. Em 1984, concorreu com o drama Camila, de María Luisa Bemberg. No ano seguinte, em 1985, fez história ao vencer com A História Oficial, de Luis Puenzo, o primeiro Oscar da categoria para o país, abordando as feridas da ditadura militar.
A Dinamarca também viveu um período de ouro entre 1987 e 1988, com duas vitórias seguidas. Primeiro com o banquete sensorial de A Festa de Babette e, logo depois, com o épico Pelle, o Conquistador.
Atualmente, Dinamarca, Itália e França lideram o ranking de países que mais repetiram sequências de indicações. Agora, o Brasil entra oficialmente para este grupo seleto, consolidando uma nova era de prestígio para o cinema nacional.
Importância histórica
Diante desse histórico, a presença de O Agente Secretoentre os indicados ao Oscar consolida um momento raro para o cinema brasileiro. Após a vitória de Ainda Estou Aqui, o país volta à disputa na categoria internacional e demonstra uma continuidade de reconhecimento que poucas cinematografias alcançaram ao longo da história da premiação.
A indicação do novo filme de Kleber Mendonça Filhonão apenas mantém o Brasil no centro da temporada de premiações, como também reforça a força recente da produção nacional no circuito internacional. Mais do que repetir um feito estatístico, o cenário atual aponta para uma fase de visibilidade inédita do cinema brasileiro no mundo.
Lista completa de ‘Dobradinhas’ e Vencedores:
Itália –1956/57: La Strada (dir. Federico Fellini) e As Noites de Cabíria (dir. Federico Fellini). Vencedores:Ambos.
Itália – 1970/71: Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (dir. Elio Petri) e O Jardim dos Finzi‑Contini (dir. Vittorio De Sica). Vencedores:Ambos.
Hungria – 1980/81: Confiança (dir. István Szabó) e Mephisto (dir. István Szabó). Vencedor:Mephisto (1981).
Japão – 1980/81: Kagemusha: A Sombra do Samurai (dir. Akira Kurosawa) e Rio Lamacento (Muddy River, dir. Kōhei Oguri). Vencedor:Nenhum.
França – 1982/83: Golpe de Mestre (Coup de Torchon, dir. Bertrand Tavernier) e Entre Nós (Entre Nous, dir. Diane Kurys). Vencedor:Nenhum.
Suécia – 1982/83: O Voo da Águia (dir. Jan Troell) e Fanny e Alexander (dir. Ingmar Bergman). Vencedor:Fanny e Alexander (1983).
Espanha – 1982/83: Começar de Novo (dir. José Luis Garci) e Carmen (dir. Carlos Saura). Vencedor:Começar de Novo (1982).
Argentina – 1984/85: Camila (dir. María Luisa Bemberg) e A História Oficial (dir. Luis Puenzo). Vencedor:A História Oficial (1985).
França – 1985/86: Três Solteirões e um Bebê (dir. Coline Serreau) e 37°2 pela Manhã (dir. Jean‑Jacques Beineix). Vencedor:Nenhum.
Dinamarca – 1987/88: A Festa de Babette (dir. Gabriel Axel) e Pelle, o Conquistador (dir. Bille August). Vencedores:Ambos.
Dinamarca – 1988/89: Pelle, o Conquistador (dir. Bille August) e Dança com Regitze (Dansen med Regitze, dir. Kaspar Rostrup). Vencedor:Pelle, o Conquistador (1988).
Itália – 1989/90: Cinema Paradiso (dir. Giuseppe Tornatore) e Portas Abertas (Porte Aperte, dir. Gianni Amelio). Vencedor:Cinema Paradiso (1989).
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba.
DRT: 7543/BA