Publicado em 25/12/2016 às 12h27.

Chico César revela o seu livro preferido: ‘um Auto de Natal’

O cantor e compositor fala sobre o seu livro preferido, em um depoimento emocionante que remete à época em que trabalhava na loja Lunik, na Paraíba

James Martins
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

 

O cantor e compositor paraibano Chico César é um dos principais artistas da música popular brasileira. Sua obra apresenta não apenas referências literárias, mas qualidade lírica para ombrear com grandes clássicos da literatura. Pedimos que ele indicasse seu livro preferido e o artista dispôs um depoimento especialmente para a coluna #QuemIndica do bahia.ba. Segue:

“Difícil escolher um. Caramba. Mas vamos lá: ‘Morte e Vida Severina’, de João Cabral de Melo Neto. Eu vendia esse livro na loja Lunik, em Catolé do Rocha-PB, onde trabalhei dos 8 aos 15 anos. E cheguei a folheá-lo logo que entrei, lia uns versos e me impressionava com as gravuras, aquilo das figuras esquálidas carregando uma rede, aquelas carcaças de boi e os urubus sobrevoando, uma mulher de lenço na cabeça numa janela. Uma edição antiga da José Olympio Editora. Os versos duros: ‘o que estás carregando, irmãos das almas?'”.

Segue Chico: “Pois bem, quando eu tinha 14 anos, entrei para um grupo de teatro de minha cidade e montamos uma leitura dramática de ‘Morte e Vida Severina’ para apresentar em escolas e mercados públicos de cidades interioranas como a nossa: Bom Sucesso, Riacho dos Cavalos, Brejo do Cruz, Brejo dos Santos, Jericó… Ali começava a se desenhar o tipo de artista que eu viria ser, ligado à minha região e ao Brasil, mas ao mesmo tempo me interrogando sobre linguagem, rigor, engajamento, contato com o povo simples, de rua. Por isso o livro é tão importante pra mim, tão seminal e definidor de caminhos”.

Capa da edição José Olympio, com ilustrações de Carybé.
Capa da edição José Olympio, com ilustrações de Carybé.

 

“Morte e Vida Severina (um Auto de Natal Pernambucano)”, foi escrito por João Cabral entre 1954 e 1955, por encomenda de Maria Clara Machado. A peça foi encenada pela primeira vez pelo grupo Norte Teatro Escola do Pará, ainda no final da década de 1950. Mas a adaptação de maior sucesso é aquela que tem música de Chico Buarque. Ao ler o original pela primeira vez, Vinícius de Moraes teria exultado, diante do autor: “É a melhor coisa que você já escreveu!”. O próprio Cabral, no entanto, a tratava como uma obra menor.

Este site armazena cookies para coletar informações e melhorar sua experiência de navegação. Gerencie seus cookies ou consulte nossa política.