Festival de Arte Negra debate cenário teatral baiano
Evento ocorre durante todo o mês de novembro e é promovido pelo Bando de Teatro Olodum
A cena tá preta? Após seis anos promovendo um dos poucos festivais de teatro negro do Brasil, o Bando de Teatro Olodum realiza a partir desta sexta-feira (6 de novembro) uma série de atividades artísticas e reflexivas sobre a pergunta que abre esta matéria.
O Festival de Arte Negra A Cena Tá Preta, que entra na sua sexta edição, nasceu fruto da ausência de atividades culturais que valorizassem e tornassem visíveis as produções negras no cenário teatral baiano. Indagado se a cena teatral baiana ficou mais preta ao longo dos últimos anos, Jorge Washington, ator do Bando e integrante da coordenação do festival, responde categoricamente: “A cena sempre esteve preta, o lance é que a performance negra não tem visibilidade”.
A invisibilidade a qual o ator se refere está relacionada à quantidade de pessoas e grupos de arte negra no estado que estão produzindo espetáculos de dança, teatro e música, porém não encontram espaços para exibir seus trabalhos. O exemplo desse cenário é o próprio Festival A Cena Tá Preta, que neste ano será realizado sem nenhum financiamento público ou privado.
“As empresas não têm interesse em patrocinar a cultura negra” resume Jorge, no mesmo tom da diretora Fernanda Júlia: “Os grupos de teatro negro têm se formado, mas a cena baiana ainda é muito branca, não tem uma equidade de participação e financiamento da produção. A gente avança em determinadas situações, mas em outras somos barrados, como no processo de seleção dos editais públicos”, destaca a dramaturga, que assina a direção do novo espetáculo do Bando, “Erê”. A peça, que aborda o drama dos assassinatos de jovens negros no Brasil, faz parte da programação do Festival.
Jorge revela que para realizar a edição deste ano foi preciso contar com a colaboração de parceiros e amigos do cenário cultural negro da Bahia. Exemplo disto serão as apresentações musicais de Lazzo Matumbi, Dão e a Caravana Black, e Michaela Harrison (EUA) que abrem a programação do Festival nos dias 5, 6 e 7 de novembro, respectivamente. “A gente sempre tem que trabalhar em parceria, com a ajuda dos amigos. Não temos dinheiro para pagar o cachê dos artistas e por isso compartilhamos a bilheteria dos shows com eles. Participar e realizar um festival deste porte é fruto, também, de uma decisão política”, expõe Jorge Washington.
Se as barreiras para o incentivo da produção teatral negra baiana são de cunho político, a articulação coletiva se faz necessária como opina o ator, diretor e dramaturgo Ângelo Flávio. “Eu acho que o teatro negro da Bahia nunca esteve num momento tão áureo como este. Os artistas estão produzindo, viajando pelo Brasil com os seus espetáculos, do contrário haveria que ter manifestos, publicações nas redes reivindicando essas questões”, contrapõe Ângelo, fundador da Cia Teatral Abdias Nascimento (CAN).
Pelo visto o VI Festival A Cena Tá Preta promete não apenas visibilizar a arte negra baiana, mas despertar novos e calorosos debates sobre a política cultural no Estado. Confira abaixo a programação completa do evento que ocorrerá no Teatro Vila Velha (Passeio Público):
MÚSICA
Dia 6/11, 20h – Lazzo Matumbi
Dia 7/11, 20h – Dão
Dia 8/11, 19h – Michaela Harrison
Ingressos: R$ 30,00 / 15,00 (meia)
TEATRO
Erê, do Bando de Teatro Olodum. Consultoria Dramatúrgica: Lázaro Ramos / Direção: Fernanda Júlia / Dramaturgia: Daniel Arcades.
Estreia: 13/11. Em cartaz, sexta e sábado, 20h e domingo, 19h, até 06/12.
Ingresso: R$30,00 / R$15,00 (meia)
Se Deus Fosse Preto, texto e atuação: Sergio Laurentino / direção: Jean Pedro.
Dias 19 e 26/11 (quintas-feiras), 19h.
Ingresso: R$30,00 / R$15,00 (meia).
TERÇAS PRETAS – TERSARAU DO BANDO
Dia 17/11, 19h, Espetáculo Meu Nome é Brasil, do grupo Dudu Odara.
Dia 24/11, 19h, Palestra da atriz e pesquisadora Evani Tavares: “O estado atual das pesquisas em torno da temática da cultura negra no âmbito do teatro no Brasil”.
Feira Étnica a partir das 17h, no Cabaré do Vila, com acesso gratuito.
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