Publicado em 04/11/2016 às 10h22.

#GenteBoa: Milton do suco de limão com coco

Espírito empreendedor e altamente criativo, o comerciante já patenteou a receita que faz sucesso no Pelourinho e encanta baianos e turistas

James Martins
Foto: Alessandra Benini / Bahia.ba
Foto: Alessandra Benini / Bahia.ba

 

Embora pernambucano, Milton Cavalcante, 50, já é um patrimônio do Pelourinho. Inventor do famoso “suco de limão com coco”, o comerciante é exemplo de empreendedorismo, criatividade e persistência. Ele, que trabalha nas ruas de Salvador há mais de 30 anos, já vendeu diversos produtos até ser tocado pelo gênio da invenção, cerca de 15 anos atrás: começou com saquinho de água na praia da Boa Viagem, vendeu também cafezinho na Calçada, lanche com suco na Baixa dos Sapateiros e Pelourinho e então passou a vender apenas os sucos, de lima e limão, ao notar que assim era mais lucrativo. Nessa época ganhou a alcunha de “Suco de Lima”.

E aí, já comercializando exclusivamente no local que agora é seu habitat, o Pelourinho, Milton viu um problema gástrico tornar-se para ele, não uma rima, mas uma solução. “Eu tinha muita queimação no estômago, sofria… quando tomava suco de limão então… por isso um dia me deu a ideia de misturar água de coco ao suco e o alívio foi imediato”, conta. Com faro comercial, decidiu levar a inovação para as ruas – e a clientela aprovou. Mas ainda não era o pulo do gato. O bicho pegou mesmo foi quando, no lugar da água, o inventor bateu coco seco, em pessoa, junto com o suco de limão: “Aí o povo disse: É esse!”, comemora. O sucesso é tanto que já vem sendo copiado em algumas regiões da cidade e até mesmo fora de Salvador. E as duas garrafas térmicas que ele carregava se transformaram em dois carrinhos (no verão ele coloca uma filial, aos cuidados de vendedora contratada) com seis botijões térmicos, de nove litros cada, que, diariamente, chegam cheios e saem vazios.

O cineasta americano Spike Lee é apenas um dos famosos que já aprovaram o suco de limão com coco de Milton (vide foto). Aliás, por falar em americano, idioma aqui não é problema. Embora seja tão monoglota quanto Nelson Rodrigues, ele fez questão de estampar em seu carrinho a expressão “suco de limão com coco” em sete idiomas: japonês, chinês, inglês, francês, polonês, russo e alemão. E tome-lhe “citroensap met kokos” para aliviar o calor: um copo de 200ml custa R$ 3; já o de 400ml: R$ 5. “Para provar não paga”, enfatiza o comerciante, exibindo a bandeja que projetou especialmente para este fim: com suportes para os copinhos. Sobre patentear a fórmula infalível, em que “o coco retira o ácido do limão e o limão retira a gordura do coco”, ele já está com o processo encaminhado, em terceira instância. Agora é só questão de tempo.

Reprodução do Facebook
O cineasta Spike Lee não resistiu à mistura infalível de limão e coco. Foto: Reprodução do Facebook

 

Empreendedor nato: Engana-se, porém, quem atribui o sucesso do vendedor apenas ao sabor inconfundível de seu produto. Milton faz questão de manter todo o entorno à altura da qualidade de seu suco – do asseio ao modo de tratar os fregueses. No largo do Pelourinho, onde fica, bem em frente à Casa de Jorge Amado, o ambulante instala duas lixeiras próprias para garantir a limpeza. E se algum descuidado atira o copo no chão, o vendedor não hesita em apanhar. “Tudo tem que estar limpo. Se eu não cuidar do lugar onde eu mesmo trabalho, quem vai cuidar?”, reflete. Além disso, faz questão de se manter atualizado e legal. É “vendedor cadastrado”, conforme se lê no uniforme que usa, e já fez cursos de especialização no Senac e na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Outro ingrediente de seu sucesso é a boa relação que mantém com os guias e demais ambulantes do Centro Histórico, que fazem de seu carrinho parada obrigatória dos clientes.

Milton Cavalcante faz questão de zelar pelo local onde trabalha. Foto: Alessandra Benini / Bahia.ba
Milton Cavalcante faz questão de zelar pelo local onde trabalha. Foto: Alessandra Benini / Bahia.ba

 

“O suco dele é uma delícia, uma verdadeira pérola da gastronomia baiana”, diz Juliana Kudo, de Jales, interior de São Paulo. E completa: “A gente vem a Salvador para comer acarajé, caruru, moqueca… essas coisas manjadas, não é? Mas é uma excelente surpresa descobrir que a culinária daqui vai além”. Evangélico, Milton revela ainda que a experiência o fez evoluir nos negócios, bem como no convívio pessoal. “Eu botava som alto no carrinho, com louvores, mas senti que incomodava alguns clientes. Então achei melhor não colocar mais. Com o tempo entendi que não é bom misturar as coisas”, diz. Sempre com um sorriso no rosto e disposto a conversar, Milton Suco de Limão, seu nome no perfil do Facebook, vale repetir: já é um patrimônio do Pelourinho. #GenteBoa

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