Publicado em 06/03/2026 às 16h10.

Gilsons lançam novo álbum e refletem sobre amadurecimento musical e legado familiar

Em entrevista ao bahia.ba, Francisco Gil comenta o disco, as colaborações do projeto e a relação do trio com a Bahia

João Lucas Dantas
Da esquerda para direita: João, José e Francisco Gil
Foto: Marina Zabeni/ Divulgação

 

Os Gilsons, banda formada pelo trio José, João e Francisco Gil, filho e netos de Gilberto Gil, respectivamente, acabam de lançar o seu mais novo trabalho. O segundo álbum de estúdio, intitulado Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão, chegou nas plataformas digitais na última terça-feira (3).

Para celebrar mais um marco do grupo que tem feito muito sucesso com hits como a regravação de Várias Queixas, do Olodum, ou Love Love, o bahia.ba bateu um papo exclusivo com Francisco Gil, que nos contou mais detalhes sobre o projeto.

Importante lembrar que o trio sairá em turnê mundial neste ano, com estreia marcada em Salvador, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, no dia 25 de abril.

Capa do álbum

Origem e significado do título

Primeiro, a escolha curiosa para o título do disco. Uma frase que evoca muitos sentimentos e diz muito sobre o olhar do trio ao lidar com o momento presente como uma grande família.

“O processo de escolha do nome do disco foi bem natural. Desde o início, quando começamos a reunir todas as canções, essa frase acabou surgindo. De cara, todo mundo meio que entrou em um consenso também muito natural”, revelou.

“Acho que isso aconteceu porque o nome é realmente muito direto em relação não só ao momento que a gente estava vivendo, mas principalmente ao que o disco significava. Todo o processo de criação, da música dos Gilsons, de modo geral, acabaram refletidos nele”, acrescentou Fran.

O músico, neto de Gilberto, e filho da saudosa Preta Gil, destacou o trabalho da banda como um “respeito” em referência aos momentos difíceis vividos no último ano como família.

“No meio de tudo o que a gente estava vivendo, o Gilsons era sempre um respiro. O grupo se tornou algo muito importante para todos nós. E o disco acabou sendo exatamente isso. Essa potência”, expressou.

Foto: Marina Zabeni/ Divulgação

Abertura para colaborações

Vindo da sequência do primeiro disco lançado em 2022, o Pra Gente Acordar, o novo trabalho demonstra também um amadurecimento no entendimento do trio como banda, que após apresentar ao mundo uma identidade muito própria, agora se abre para as colaborações de amigos e colegas como Arnaldo Antunes, Narcizinho do Olodum, e da família Veloso, com Caetano, Tom e Moreno cantando uma homenagem à Preta em Minha Flor.

“Nós entendemos que o primeiro álbum foi realmente muito importante para a gente dar as caras de alguma forma, apresentar a nossa sonoridade e, ao mesmo tempo, para nós mesmos, passar por um processo de reconhecer e entender essa sonoridade, estabelecendo de alguma forma um caminho. Então foi um processo muito importante nesse sentido”, contextualizou Fran.

“Já no segundo álbum, a gente já vem de um lugar mais seguro, a partir dessa construção. É um momento em que nos permitimos realmente explorar novos tons, tanto em termos de som quanto de ampliar e seguir por caminhos diferentes, talvez até novos, ao mesmo tempo em que trazemos outras vozes e outros compositores, que o disco também tem”, reforça.

Para o cantor e multi-instrumentista, esse processo colaborativo ajudou a dar mais cores ao segundo álbum.

“Dessa vez, já partimos de um lugar em que conseguimos, principalmente entre nós, entender de onde nasce essa sonoridade e estabelecer ali uma base”, pontuou.

Foto: Marina Zabeni/ Divulgação

A Bahia para os Gilsons

Linhagem direta de um mestre que nasceu na Bahia e que cantou ao Brasil e o mundo as belezas da nossa terra, claro que a relação do trio com Salvador e com o resto do estado é de grande proximidade, intimidade e boas lembranças, mesmo sendo todos cariocas.

“A Bahia é de onde parte tudo para a gente. É a essência, o motor do nosso encontro musical. Digo nós três mesmo, porque tudo vem de lá. Desde a infância, apesar de sermos cariocas, era na Bahia que a gente mais passava tempo junto, nos verões, no Carnaval”, relembrou Fran.

Para o cantor, a relação com a energia do axé, da convivência próxima aos blocos afro, do trio elétrico, tudo isso serviu de influência, mesmo que inconsciente, para a construção da música da banda.

“Tudo isso está muito vivo na gente. A Bahia é o que mais nos impulsiona. Quando a gente leva a nossa música para lá, é como se fosse um ciclo que se retroalimenta. A gente também está devolvendo, fazendo nossas oferendas. É um lugar que nos oferece muito, e nós sempre voltamos para estar ali, batendo cabeça, não tem jeito. É algo muito importante para a gente”, declarou.

Experimentações sonoras

No novo trabalho, para além dos convidados, há também uma ousadia nas experimentações sonoras. Com um entendimento maior do que forma o Gilsons musicalmente, o grupo se abriu para ir além das tradições da MPB, trazendo toques de beats e texturas eletrônicas, por exemplo.

“A gente acredita muito que esse disco é essa porta para realmente poder explorar mais. Entendemos que existe uma sonoridade já estabelecida e que a gente também traz para esse trabalho. Então, de maneira alguma rompemos com o que construímos; pelo contrário, trazemos isso e ampliamos, propondo coisas novas”, provocou Fran.

“Quem escuta os Gilsons vai conseguir identificar essa caminhada. Já temos escutado um pouco disso nesses primeiros dias de lançamento. O pessoal que já acompanhava a gente comentou bastante. Fizemos também uma audiição um dia antes do lançamento, com vários amigos, e muita gente falou sobre isso”, afirmou.

Para o músico, se trata de um processo natural. “Carregamos o que já foi construído e, ao mesmo tempo, nos provocamos a experimentar, a trazer novas cores”.

Fortalecimento como banda e família

O processo de criação do álbum também aconteceu em um período delicado para a família Gil. Nos últimos anos, a cantora Preta Gil, enfrentou uma longa batalha de saúde, que mobilizou familiares, amigos e fãs em todo o país.

Para Fran, seu filho, transformar esse momento em música acabou se tornando também uma forma de fortalecimento coletivo.

“O disco foi esse respiro. Foi um lugar onde conseguimos estabelecer um ambiente saudável para nós, de muito respeito — inclusive respeito com o nosso tempo e com o tempo das coisas”, disse.

O músico contou que, enquanto o álbum ainda estava sendo construído, o grupo conciliava o processo criativo com compromissos de estrada.

“Quando começamos a trabalhar no disco, ainda tínhamos algumas datas de turnê marcadas. Então houve momentos de estrada nesse período, em que fomos nos fortalecendo ainda mais como grupo, como trio e como família nesse processo todo”, disse.

Segundo ele, mais do que o resultado musical, o próprio processo de criação ajudou a consolidar o que o grupo representa para os três. “Não foi só o disco em si, mas também essa fortaleza que criamos, que é o Gilsons, um trio formado por familiares que estão encarando juntos os mesmos desafios de uma estrada musical. A gente vai se fortalecendo nesse lugar”, explicou.

“Quando precisamos encarar um ano e tudo o que vivemos no ano passado, por já estarmos com essa construção de cuidado entre nós, isso nos fortalece muito. Então o disco naturalmente nasce também desse lugar. Ele bebe dessa fonte do que estava acontecendo. As canções e todo o processo conversam com essa energia”, completou.

Foto: Marina Zabeni/ Divulgação

O legado e a inovação

Por fim, Fran também falou sobre o equilíbrio entre carregar um dos sobrenomes mais importantes da música brasileira e, ao mesmo tempo, manter a liberdade que sempre guiou o trabalho dos três.

“A liberdade criativa do trio já foi a fonte de tudo, desde o início. O trio nasce de um lugar de coragem, de se lançar, de tocar as músicas que a gente escrevia e cantar”, contou.

Para ele, essa espontaneidade foi essencial para que encontrassem seu próprio caminho musical. “Ele já vem de um lugar que se desapega de qualquer tipo de continuidade ou de pretensão maior. A gente tem muito forte essa nossa essência e carrega isso com a gente, obviamente trazendo também todas as nossas influências”, destacou.

“Imagina quantas influências maravilhosas a gente não tem por perto. Isso faz parte do que somos, e a gente leva tudo isso com muito orgulho”, concluiu Francisco Gil.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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