Publicado em 15/02/2019 às 11h35.

Grooves e drones: CD do BaianaSystem tem ijexá hi-tech e viagem ao ‘centro da Terra’

"O Futuro Não Demora" resgata ancestralidade de ritmos da Bahia com arranjos eletrônicos, sem tirar a guitarra baiana que arrasta o público atrás do "Navio pirata"

Luiz Felipe Fernandez
Foto: Divulgação/Cartaxo
Foto: Divulgação/Cartaxo

 

Lançado nesta sexta-feira (15), após adiamentos e muita expectativa, o disco do BaianaSystem, “O Futuro Não Demora”, provou para os fãs que valeu a pena a espera. Para os integrantes da banda, o resultado final corrobora com o discurso da produção que obedece à cronologia da criatividade, não do mercado – ainda que tenha saído duas semanas antes do Carnaval. Neste intervalo de três anos entre o disco “Duas Cidades”, vencedor de dois prêmios, alguns singles foram lançados como “Playssom” e também o EP “Outras Cidades” (2017), com remixes de canções conhecidas. Mas todos queriam ver em qual oceano o “Navio Pirata” iria navegar depois de 10 anos de sucesso alcançado, de público – fiel – e crítica, no Brasil e mundo afora.

Com várias participações, umas mais discretas do que outras, “O Futuro Não Demora”, produzido mais uma vez por Daniel Ganjaman, é uma obra que garante o lugar da banda entre as maiores da atualidade. O resultado é diferente, fruto do mergulho de cabeça em uma viagem para a Ilha de Itaparica, que representou um resgate à ancestralidade à música originária da Bahia e um olhar “de fora” da capital. Diferentemente de “Duas Cidades”, em que a dualidade de Salvador foi força-motriz das composições, o novo álbum é dividido entre “Água” e “Fogo”, cada lado do disco representando um elemento e as faixas como um caminho entre eles: com início, meio e fim.

A primeira faixa, “Água”, é um misto de homenagem e alerta ao bem mais precioso do planeta; o “ouro em pó”. A música tem participação e arranjo da Orquestra Afrosinfônica da Bahia, sob regência do Maestro Ubiratan Marques e de Antônio Carlos e Jocáfi, figuras marcantes da música popular brasileira e ídolos afetivos de Passapusso. Em “Água”, a pegada de ijexá “hi-tech”, que se mantém em outras canções, dá o tom de modernidade e frescor ao ritmo que descansa ocioso na beleza dos seus clássicos. Não que seja fácil, ou mesmo necessário, que se substituam músicas como “É D”Oxum” de Gerônimo, cantada desde outros – e em todos – os carnavais, mas são obras que valorizam e garantem a continuidade do gênero pelas próximas gerações.

Em “Bola de Cristal”, Russo brinca com a relação entre passado, presente, futuro e as suas mudanças: “No tempo que pedra lascada fazia o papel de bala de metal/ Não tem diferença do homem moderno pro homem de Neaderthal”. E, para os ansiosos, a guitarra baiana comandada por Roberto Barreto já está de volta nesta segunda faixa, com o protagonismo que caracteriza o BaianaSystem.

Já em “Salve”, Antônio Carlos e Jocáfi voltam a participar de um ijexá com muito suingue e que homenageia, principalmente, Nação Zumbi, Zumbination e Rumpillez. Outro que tem participação na música é BNegão, ex-Planet Hemp e sempre colado com o BS. A influência de ritmos latinos novamente está presente no trabalho do BaianaSystem. Neste álbum ela aparece em “Sulamericano”, com um discurso político e participação especial de Manu Chao.

Na sequência, com uma linha de baixo pesada e arranjo de SekoBass, que acompanha a banda desde o início, o ritmo jamaicano toma conta em “Sonar”, com os artistas Curumim e O Novíssimo Edgar. O rapper, natural de São Paulo, manda suas rimas distópicas que prenunciam um futuro em que a tecnologia está ligada existencialmente à condição de vida humana: “Destrava/Quem me bloqueia/ quem re-instala/ao contrário da empresa que atrapalha”. Conhecido pelo estilo de se vestir irreverente, Edgard tem criações próprias e intervenções em peças de marca. Mistura cédulas de dinheiro rasgadas, com placas eletrônicas em bonés e usa fones de ouvido velhos como cadarços. Um bom representante para o clima tecnológico e futurista do disco.

A faixa “Sonar” vai levar diretamente do mar ao “meio do centro da terra”, mantra cantado por Mestre Lourimbau na última faixa do Lado Água, transição para o Fogo, “Melô do Centro da Terra”. A música, composta como trilha sonora para o filme “Trampolim do Forte”, produzido em Salvador há mais de 10 anos, funde o timbre do berimbau com a guitarra baiana, em uma faixa que tem menos de 2 minutos.

A primeira canção do Lado Fogo, “Navio”, é outro resgate à música genuína baiana, um samba-reggae com regência de ninguém menos do que Mestre Jackson. A letra escrita por Russo se conecta com o passado de escravidão no Brasil, quando negros foram trazidos da África. Passado mesmo? Russo provoca: “A fila anda, mas quem manda no navio tá na proa/A fila anda mas quem manda no Brasil tá de boa”. Em mais de 5 minutos de música, a maior do disco, contém ainda uma pequena celebração ao Mestre Moa do Katendê, assassinado no período eleitoral de 2018. “Moa, Moa, Moa/Mestre vive!”.

Com produção de João Meirelles, a 8ª faixa de “O Futuro Não Demora” traz o samba-de-roda por meio do grupo Samba de Lata de Tijuaçu, natural de uma comunidade quilombola do Bonfim. A embolada se embola e a zabumba se funde aos sintetizadores. Na faixa seguinte, a música já conhecida pelo público acostumado a requebrar nos shows da BS no Pelourinho, “Saci”, surge em nova roupagem para a primeira versão gravada e que promete ser uma das preferidas. “O saci pererê/ vai pular de uma perna só/ quem tá só fica junto/ quem tá junto fica só/”. Em “Sambaqui”, Russo usa expressões regionais, como “comendo com a boca” e “surra de cansanção”.

Amigo de longas datas de Russo, o rapper Vandal chega em “CertohPeloCertoh” com sua rima crua, simples e direta que retrata a vida no gueto. Quem frequenta shows na cena em Salvador há alguns anos lembrou da música, cantada por Vandal há algum tempo, mas que desta vez ganha versão gravada em faixa exclusiva da BS. Em “Fogo”, versos cantados na primeira música são entoados mais uma vez, completando o sentido cíclico da obra.

Um trabalho que pode não agradar aos mais conservadores, que esperavam mais do mesmo: repetição da fórmula de sucesso que o Baiana apresentou nos 10 anos de carreira. Mas certamente é um álbum que garante à banda prosseguir sem deixar de lado a originalidade e de balançar os quadris de quem lhes dá algum tempo de atenção. Em “O Futuro Não Demora”, o BS imprime a sua personalidade em novas experimentações e perpetua o seu legado na música da Bahia.

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