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Publicado em 26/01/2026 às 11h46.

Kanye West pede desculpas por apologia ao nazismo em carta aberta

Músico nega ser antissemita e diz que perdeu o contato com a realidade

João Lucas Dantas
Foto: Reprodução/Instagram

 

Kanye West publicou um anúncio no jornal americano Wall Street Journal, veiculado nesta segunda-feira (26), no qual pede desculpas “a quem magoou” após uma série de episódios em que fez apologia ao nazismo nos últimos anos.

No texto, o músico nega ser antissemita, afirma que “perdeu o contato com a realidade” e diz estar comprometido com tratamento, responsabilização e mudanças significativas. “Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado. Isso, porém, não justifica o que fiz. Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu”, escreveu.

A manifestação faz referência a declarações feitas desde 2022, quando Kanye afirmou ter “amor” pelos nazistas e expressou admiração por Adolf Hitler. Em 2025, o artista chegou a vender produtos com suásticas e lançou uma música intitulada “Heil Hitler”.

No anúncio, West relembra um grave acidente de carro sofrido em 2002, que, segundo ele, causou uma lesão no lobo frontal direito do cérebro. De acordo com o músico, a condição só foi diagnosticada corretamente em 2023 e teria contribuído para o diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1. Ele afirma que entrou em um estado mental “fragmentado”, que o levou a se aproximar “do símbolo mais destrutivo que conseguiu encontrar: a suástica”.

“Perdi o contato com a realidade. As coisas pioraram quanto mais ignorei o problema. Disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente”, escreveu. Kanye também afirmou ter magoado pessoas próximas e reconheceu o impacto de seus comportamentos: “Vocês suportaram medo, confusão, humilhação e o esgotamento de tentar lidar com alguém que, às vezes, era irreconhecível”.

Essa não é a primeira vez que o artista fala publicamente sobre o transtorno bipolar. Em 2019, em entrevista ao programa de David Letterman, ele comentou o estigma em torno da condição. Kanye também lançou um EP intitulado I Hate Being Bipolar, It’s Awesome (“Odeio ser bipolar, é ótimo”).

No texto, o músico afirma que, no início de 2025, enfrentou um episódio maníaco prolongado, com sintomas psicóticos, paranoicos e impulsivos, e relata ter vivido momentos em que não desejava mais estar vivo. Segundo ele, foi incentivado pela esposa a buscar ajuda profissional após atingir o fundo do poço.

Ao final, Kanye diz que encontrou estabilidade por meio de medicação, terapia e mudanças no estilo de vida, e afirma estar direcionando sua energia para uma produção artística “positiva e significativa”. “Não estou pedindo simpatia nem um passe livre. Escrevo apenas para pedir paciência e compreensão enquanto encontro o caminho de volta para casa”, conclui.

Confira texto completo:

Aos que eu magoei:

Há vinte e cinco anos, sofri um acidente de carro que quebrou minha mandíbula e causou uma lesão no lobo frontal direito do meu cérebro. Na época, o foco foi no dano visível — a fratura, o inchaço e o trauma físico imediato. A lesão mais profunda, aquela dentro do meu crânio, passou despercebida.

Exames completos não foram feitos, avaliações neurológicas foram limitadas, e a possibilidade de uma lesão no lobo frontal nunca foi levantada. Isso só foi devidamente diagnosticado em 2023. Essa falha médica causou sérios danos à minha saúde mental e levou ao meu diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1.

O transtorno bipolar vem com seu próprio sistema de defesa. A negação. Quando você está em mania, não acha que está doente. Acha que todo mundo está exagerando. Você sente que está vendo o mundo com mais clareza do que nunca, quando, na realidade, está perdendo completamente o controle.

Quando as pessoas te rotulam como “louco”, você sente como se não pudesse contribuir com nada significativo para o mundo. É fácil para as pessoas fazerem piada e rirem disso, quando na verdade se trata de uma doença muito séria e debilitante, da qual se pode morrer.

Segundo a Organização Mundial da Saúde e a Universidade de Cambridge, pessoas com transtorno bipolar têm uma expectativa de vida reduzida, em média, de dez a quinze anos, e uma taxa de mortalidade por todas as causas de 2 a 3 vezes maior do que a da população geral. Isso está no mesmo nível de doenças cardíacas graves, diabetes tipo 1, HIV e câncer — todas letais e fatais se não tratadas.

A coisa mais assustadora desse transtorno é o quão persuasivo ele é quando te diz: você não precisa de ajuda. Ele te deixa cego, mas convencido de que você tem discernimento. Você se sente poderoso, seguro, imparável.

Perdi o contato com a realidade. As coisas pioraram quanto mais ignorei o problema. Eu disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Algumas das pessoas que eu mais amo, tratei da pior forma. Vocês suportaram medo, confusão, humilhação e o esgotamento de tentar lidar com alguém que, às vezes, era irreconhecível. Olhando para trás, eu me afastei do meu verdadeiro eu.

Nesse estado fragmentado, me aproximei do símbolo mais destrutivo que consegui encontrar, a suástica, e cheguei até a vender camisetas com ela. Um dos aspectos difíceis de ter transtorno bipolar tipo 1 são os momentos desconectados — muitos dos quais ainda não consigo recordar — que levaram a julgamentos ruins e comportamentos imprudentes, que muitas vezes parecem uma experiência fora do corpo.

Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com a responsabilização, o tratamento e mudanças significativas. Isso, porém, não justifica o que fiz. Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu.

À comunidade negra — que me sustentou em todos os altos e baixos e nos momentos mais sombrios. A comunidade negra é, sem dúvida, a base de quem eu sou. Sinto muito por ter decepcionado vocês. Eu amo nós.

No início de 2025, caí em um episódio maníaco de quatro meses, com comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos, que destruiu minha vida. À medida que a situação se tornava cada vez mais insustentável, houve momentos em que eu não queria mais estar aqui.

Ter transtorno bipolar é um estado notável de doença mental constante. Quando você entra em um episódio maníaco, você está doente naquele momento. Quando não está em um episódio, você é completamente “normal”. E é aí que os destroços da doença atingem com mais força. Ao chegar ao fundo do poço há alguns meses, minha esposa me incentivou a finalmente buscar ajuda.

Encontrei conforto em fóruns do Reddit, de todos os lugares. Pessoas diferentes falam sobre estar em episódios maníacos ou depressivos de natureza semelhante. Li suas histórias e percebi que não estava sozinho. Não sou só eu que destruí a própria vida inteira uma vez por ano, apesar de tomar remédios todos os dias e ser informado pelos chamados melhores médicos do mundo de que não sou bipolar, mas que apenas estou vivenciando “sintomas de autismo”.

Minhas palavras, como líder da minha comunidade, têm impacto e influência globais. Na minha mania, perdi completamente a noção disso.

À medida que encontro minha nova base e meu novo centro por meio de um regime eficaz de medicação, terapia, exercícios e vida saudável, ganhei uma clareza nova e muito necessária. Estou canalizando minha energia para uma arte positiva e significativa: música, roupas, design e outras ideias novas para ajudar o mundo.

Não estou pedindo simpatia nem um passe livre, embora aspire conquistar o perdão de vocês. Escrevo hoje simplesmente para pedir paciência e compreensão enquanto encontro o caminho de volta para casa.

Com amor, Ye

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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