Publicado em 14/12/2015 às 09h31.

Romance Gabriela, Cravo e Canela vai virar musical

João Falcão finaliza a escolha da nova Gabriela

Agência Estado

O diretor e criador João Falcão prepara-se para finalmente realizar um antigo projeto: o de transformar o famoso romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, em musical. “Já selecionei 50 currículos de candidatas para o papel principal – agora, quero conhecê-las pessoalmente”, disse ele à reportagem, depois de analisar a ficha de mais de 700 pretendentes. “Assisti a vários tipos de vídeos, com elas cantando e interpretando, mas preciso conversar pessoalmente para então descobrir a intérprete ideal.”

Gabriela – O Musical deverá estrear em maio, no Teatro Bradesco, com produção do inglês Kevin Wallace e da Caradiboi Artes e Esportes, a mesma que trará We Will Rock You para o Brasil, também em 2016. Com isso, João Falcão terá finalmente colocado em prática um projeto que acalenta há muito tempo, desde que assistiu à primeira versão para a TV, de 1975, que consagrou a atriz Sônia Braga no papel principal.

“Sônia, na verdade, estabeleceu um perfil para Gabriela do qual é difícil fugir”, comenta Falcão. “Tanto que, entre os currículos, recebemos diversos perfis com cor de canela. Brinco que a primeira seleção que fiz resultou em 50 Tons de Canela.”

A forte associação de Sônia Braga com o papel (ela chegou a viver a sedutora moça também no cinema), no entanto, não assusta o diretor por um motivo simples: a diferença de linguagem. “O cinema e a TV pedem montagem mais realista, o que não acontece no teatro, no qual o foco está mais na representação livre de amarras”, justifica.

Cantar bem, é claro, será essencial para definir a protagonista, mas o diretor apresenta um dado que considera fundamental e que vem regendo toda sua carreira: o envolvimento da intérprete com os demais atores e sua adesão no trabalho colaborativo. Afinal, quem acompanha a carreira de João Falcão sabe que, apesar de um ponto de partida muito bem definido, o processo do trabalho é enriquecedor e, quase sempre, definitivo para o resultado final.

Foi assim em diversas produções, especialmente em Gonzagão – A Lenda, e de uma versão muito feliz e particular (afinal, envolveu um elenco apenas de homens) da Ópera do Malandro.

Curiosamente, Falcão, ao longo de sua carreira, recebeu diversos convites para levar ao palco a personagem de Jorge Amado, mas apenas em 2008 o sonho começou a se concretizar, com a chegada do produtor inglês Kevin Wallace. Inscrito nas leis de incentivo fiscal, o projeto foi autorizado a captar R$ 9,4 milhões em 2012, mas a produção ficou em suspenso até ser retomada neste final de 2015, João Falcão preferiu não abrir mão de nenhuma etapa de seu processo criativo, especialmente nesse desafio. “Fazer um musical sobre Gabriela no Brasil é como fazer um musical sobre Marilyn Monroe nos Estados Unidos”, acredita.

Falcão é autor da versão do romance e já cuida da trilha sonora, que promete ser eclética, ou seja, aberta a tudo que foi feito desde que o Brasil começou a compor, dos primeiros lundus aos sons mais contemporâneos. “Nossa música tem um componente dramático forte e riquíssimo. É morada de muitos dos nossos grandes poetas contemporâneos e populares. Você pensa em um sentimento e se lembra de dez músicas geniais”, observa.

O encenador lembra que o circo e o cinema, outras paixões de Gabriela, também vão alimentar sua fantasia durante o processo criativo que, gosta de repetir, vai se desprender das amarras naturalistas. “É de faz de conta, música, humor e passos de dança que vai ser feita nossa Gabriela.”

Lançado em 1958, o romance Gabriela, Cravo e Canela solidificou a fama de Jorge Amado como excelente prosador. “Ele fez a fusão amorosa entre o erudito e o popular, erotizou a narrativa, trouxe à tona questões sobre o não sectarismo, a miscigenação, a luta contra o preconceito e contra a pseudo erudição europeia”, comenta Ana Maria Machado no livro Romântico, Sedutor e Anarquista – Como e Por Que Ler Jorge Amado Hoje (Objetiva). É justo este conflito entre o obsoleto e a novidade, velho e o jovem, o atraso e progresso, que desperta hoje o interesse de Falcão para a obra de Amado. Encontrada a Gabriela e seus demais, os ensaios começam logo após o carnaval.

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