Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Repórter no portal Bahia Econômica. Atualmente, repórter de Cultura no portal bahia.ba.
DRT: 7543/BA
Publicado em 06/01/2026 às 22h20.
Voz que não se cala: MV Bill volta a Salvador para escrever novo capítulo no palco
Após episódio do microfone desligado, rapper retorna com o show “Viva Bill” e fala ao bahia.ba sobre carreira e relação com a cidade
João Lucas Dantas

Salvador recebe de volta um dos maiores nomes do rap nacional, que fez história na primeira geração de rappers brasileiros, na década de 1990, MV Bill, em um show exclusivo, o “Viva Bill”. Prometendo ser histórico, evento acontece no coração da cidade, no Terminal Náutico, no sábado (17), a partir das 18h. Ingressos já à venda neste link.
Nascido na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, o artista se destacou a partir dos anos 1990 por letras que abordam temas como desigualdade, racismo, violência e direitos humanos, tornando-se uma referência cultural dentro e fora do hip hop. Além da trajetória musical, MV Bill também atua como escritor, documentarista e comunicador, ampliando seu impacto no debate público brasileiro.
O evento marca o retorno do cantor aos palcos soteropolitanos após um infeliz e desrespeitoso episódio ocorrido em dezembro de 2023, durante um festival de rap na Arena Fonte Nova, quando Bill teve o seu microfone desligado antes do fim da sua apresentação.
Para celebrar este momento tão aguardado pelos fãs baianos, principalmente os que estavam presentes naquele triste episódio, o bahia.ba teve uma conversa exclusiva com o próprio rapper, que nos contou um pouco mais sobre a sua carreira, influências e a relação próxima que mantém com a capital baiana e com o estado. O papo completo você confere abaixo.

Foto: Allan França/ Divulgação
P: Desde o começo, você foi um artista muito inquieto. Uma discografia ampla, que teve início em 1999, mas também já dirigiu filme, escreveu livros, é palestrante e, agora, atua em novela. Como é que todas essas frentes se unem e formam o panorama artístico que é MV Bill?
MV Bill: Eu cresci ouvindo e vendo artistas que eu admirava e que eram multifacetados, que faziam coisas para além da música. Tipo Tupac, Queen Latifah, Lauryn Hill, Ice Cube. Todos eles são rappers, mas também são atores, escritores, apresentadores, então eu vim dessa escola e dessas referências.
O rap, lá atrás, estava longe de dar a grana e a visibilidade que vemos hoje, então tínhamos que fazer outras coisas além da música. Para eu sobreviver artisticamente e financeiramente, eu tinha que atuar em outras frentes, e eu concilio todas elas porque acabam dialogando entre si.
P: Falando um pouco mais sobre o seu trabalho também como ativista social, em que momento você percebeu que a sua música foi além de uma expressão pessoal e virou também uma responsabilidade coletiva?
MV Bill: Essa noção nunca chegou. Ela pode até ter tido a intenção, mas até hoje, inclusive na Bahia, recebo muitos feedbacks de pessoas mais jovens que vêm falar comigo, seja um irmão mais velho, um pai, ou até alguém da minha idade, dizendo que minha música ajudou a buscar um caminho acadêmico ou que usaram minhas músicas em formatura, casamento, e eu nem imaginava.
É bom não ter muito essa noção para que a gente faça a arte desprovida de qualquer amarra.
P: Em junho, seu primeiro álbum, ‘Traficando Informação’, completará 27 anos de lançamento. De lá pra cá, foram diversos trabalhos, como falamos acima, mas eu queria saber se, após quase três décadas de rima, você sente que escreve de um lugar emocional diferente daquele início de carreira.
MV Bill: A minha visão hoje é muito mais ampla. A minha vida mudou, passei a ser uma pessoa com mais visibilidade. Aquilo que eu falava de forma local, passei a enxergar de forma nacional e, às vezes, mundial. Acabei de tocar em Portugal pela primeira vez e eu não tinha ideia do impacto que minha música causou em jovens africanos que foram morar muito cedo na Europa.
Isso traz um senso de responsabilidade muito grande e, ao mesmo tempo, é prazeroso fazer parte da vida e da história das pessoas.
P: Diante de tantos absurdos que nós vemos diariamente, como é pra você atualizar o seu discurso nas letras quando a realidade parece ter ficado mais louca do que a ficção?
MV Bill: Tem algumas coisas que ainda, infelizmente, fazem sentido, mesmo tendo sido escritas há mais de duas décadas. Isso mostra que não é que o Bill ou o rap sejam visionários, mas que muita coisa da realidade do Brasil não mudou, e essas situações continuam se repetindo.
Eu gostaria muito que músicas minhas como Só Deus Pode Me Julgar e Causa e Efeito deixassem de fazer sentido, porque isso significaria que a nossa realidade mudou. Mas parece que elas têm ficado mais atuais do que nunca. Isso mostra o tamanho do nosso desafio politicamente falando e também a incompetência e a repetição quando o país trata de políticas sociais.
P: Percebi que você tem uma relação muito próxima com Salvador e com a Bahia. Quando não está fazendo shows, sempre vem participar de eventos, debates ou palestras. Como você define essa relação com a cidade e o que ela te devolve artisticamente para a sua música?
MV Bill: Eu frequento a Bahia desde quando estava iniciando a cena do hip hop e do rap por aí, lá no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Vi alguns dos primeiros grupos nascerem. Tenho uma história de proximidade muito grande com Salvador, com a minha música e com o próprio acontecimento do hip hop no estado.
Pra mim, sempre foi uma via de mão dupla, porque há muitas similaridades com o Rio de Janeiro, seja nos morros, na arquitetura ou, hoje em dia, infelizmente, pelo fato da violência também. Às vezes percebo a Bahia como um estado muito próximo do Rio, mas sem perder a essência do Nordeste.

P: Queria falar também sobre o acontecimento chato que aconteceu com você aqui, dois anos atrás, quando a produção do festival Rap Game desligou o seu microfone antes do encerramento. Eu vi você respondendo muitos comentários de fãs nas redes sociais, garantindo que dessa vez será tranquilo, e queria saber mais sobre o que rolou naquele dia e como você se sente podendo voltar para entregar um show livre de interrupções.
MV Bill: Me sinto muito bem e ansioso, porque fiquei muito tempo sem tocar em Salvador depois daquele episódio fatídico. Naquele momento, para mim, era fechar um evento que tinha grandes nomes do rap nacional. Ser o último era foda. A galera já ia embora, estaria cansada. Eu sabia que muita gente ia ver apenas seu artista preferido e que não é fã do gênero, mas de alguns nomes específicos, e meu maior desafio era fazer as pessoas ficarem.
Para minha surpresa, a galera ficou. E eu pensei: caramba, só na Bahia isso acontece. E aí eu não contava que parte da produção do evento estava torcendo para que a minha parte do show fosse boicotada. Achei que meu maior desafio era manter o público, mas não sabia que eles contavam com meu show ser curto, porque achavam que as pessoas iam embora. Não tinha ninguém para tocar depois de mim, tínhamos todo o tempo do mundo para finalizar.
Aquilo foi uma grosseria. E não é porque eu sou uma pessoa mais velha, não é porque eu estava completando 50 anos naquele ano, não é porque era o ano em que o hip hop completava 50 anos, mas porque isso não se faz com artista nenhum. Podia ser uma pessoa iniciante, sem público, sem hype: todos devem ser tratados com o mesmo respeito.
Eu não levei essa tristeza para o lado pessoal com a Bahia. A produção não era local, as pessoas não eram daqui. Era um festival itinerante. Eu vi que havia uma idolatria com determinados artistas e um desleixo com outros, e eu estava nesse segundo grupo. Agora, temos a possibilidade de contar um novo capítulo no dia 17.
P: Ao longo da sua carreira, você trabalhou com muitos parceiros de diversos gêneros e origens. Como você define a importância de dar visibilidade às novas vozes?
MV Bill: Eu acho que a colaboração musical é muito boa. A minha geração não dialogou tanto, éramos muito fechados. Todo mundo se respeitava, mas a gente se frequentava pouco. Sou amigo do Rappin’ Hood, mas não temos uma música juntos. Sou amigo dos caras do RZO, mas também não temos música juntos. Com as novas gerações, já rola mais esse trânsito e essas colaborações.
Eu acho legal quando a gente costura com outros ritmos que não são necessariamente do rap. Tenho muita vontade de fazer música com Márcio Victor, do Psirico. Acho que, se ele produzisse uma música minha, seria foda. Já participei de música com Luedji Luna, de show dela, da Larissa Luz, de quem também gosto muito, já fiz show com Margareth Menezes. Daria para fazer algo muito bom com Lazzo Matumbi também.
Dá para o rap brasileiro se misturar e criar uma identidade cada vez mais brasileira.
P: Eu também vi você respondendo alguns comentários no Instagram, afirmando que adoraria receber Ed City e Fantasmão para tocar com você. Quais são as chances desse encontro rolar no dia 17?
MV Bill: No dia 17 talvez não role, porque até hoje ele não entrou em contato comigo. Mas em várias entrevistas que já fiz, declarei que sou fã. Aquele disco do Fantasmão eu conheço inteiro. A gravação é muito boa, as letras são maneiras, é super bem produzido, e a mistura do Ed City com a sagacidade dele de transitar pelo pagodão baiano, pelo rap e por assuntos de periferia eu acho muito foda. Se a gente fizesse alguma parada junto, ia ser pesado.
P: E, para finalizarmos, o que o público baiano pode esperar do retorno de MV Bill aos nossos palcos?
MV Bill: Espero muito que a galera, principalmente quem é mais velha, que curte meu trabalho há muito tempo, que tem boleto para pagar, criança, que não pode sair de casa a qualquer momento, consiga se organizar para participar. Como tem dois anos que não toco aí e não consegui mostrar o show inteiro, dessa vez vou mostrar as músicas antigas que marcaram nossa carreira e algumas faixas novas também.
A princípio, estou preparando um show de 1h20, mas também estou levando algumas músicas na manga para ficar no palco até a hora que a galera quiser. Enquanto eles estiverem a fim de assistir, estaremos lá.

Viva Bill!
Entre memória, reparação e celebração, o show “Viva Bill” marca mais do que o retorno de MV Bill aos palcos de Salvador, representa a retomada de um diálogo interrompido de forma abrupta e a reafirmação de uma trajetória construída com coerência, crítica social e compromisso artístico.
No Terminal Náutico, no dia 17, o rapper volta à capital baiana para entregar ao público aquilo que sempre foi a essência do seu trabalho, um show completo, sem concessões, pautado pela escuta, pelo respeito e pela força de uma obra que segue atual mesmo após quase três décadas de rima.
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