‘Meu axé é em Salvador’, diz Wagner Moura sobre retorno ao teatro
Ator baiano estreia espetáculo no Trapiche Barnabé, revisita marcos da carreira e destaca a emoção de voltar aos palcos em sua cidade natal

Fotos: João Lucas Dantas/ Bahia.ba
O ator baiano Wagner Moura, durante a divulgação da estreia do espetáculo teatral O Julgamento – Depois do Inimigo do Povo, em Salvador, no dia 03 de outubro, no Trapiche Barnabé, relembrou diversos momentos da sua carreira, sua relação com sua cidade natal, além do lançamento do novo filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, e a sua volta aos palcos após 16 anos afastado.
Além do retorno ao teatro, 2025 também marcou a volta do ator ao idioma nativo, após longa temporada em Hollywood, com o filme pernambucano, que estreia nos cinemas brasileiros no dia 06 de novembro.
Este ano, completam 20 anos de Cidade Baixa, que o deu projeção nacional, e 25 anos da peça A Máquina, que fez ao lado de Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão. Questionado pelo bahia.ba, sobre como suas experiências passadas influenciam as escolhas atuais na carreira, Wagner afirma que “todo artista é um conjunto de coisas que vai fazendo”.
“Nós somos um resultado. Você fica mais curioso com relação a alguma coisa, ou aquele trabalho te instigou a fazer outra coisa, dar continuidade. Eu sinto, por exemplo, que essa peça conversa muito com O Agente Secreto. Antes de filmar com o Kleber, eu dizia muito: “Cara, leia o Inimigo do Povo”, de tanto que falava sobre isso, ele leu. São dois trabalhos que dialogam muito. Então, às vezes, um trabalho vai te levando para o outro, você fica com aquela inquietação”, respondeu o ator, ao bahia.ba, durante coletiva de imprensa, nesta segunda-feira (22).
“Cidade Baixa foi outra coisa muito importante na minha vida. E teve outra coisa que aconteceu, 25 anos de A Máquina. E agora uns meninos de São Paulo vão montá-la lá e eu estou doido para ver. Então essas coisas são conectadas”, completa.
Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo
Já o espetáculo que está sendo montado e será encenado durante os dias 3 a 12 de outubro, através do Centro Cultural Banco do Brasil Salvador, se trata de um trabalho colaborativo com a diretora Christiane Jatahy, que assina o roteiro da adaptação do norueguês Henrik Ibsen (1828–1906), um dos fundadores do teatro realista moderno, em parceria com o próprio Wagner e Lucas Paraizo.
No elenco, Danilo Grangheia e Julia Bernat serão co-protagonistas, com as participações dos baianos Fernanda Paquelet e Marcelo Flores, como parte da dupla rotativa do elenco, que sempre terá participações de atores locais.
Segundo o ator, a ideia para a peça vinha sendo bolada há um tempo e surgiu, também, da vontade de trabalhar com a diretora, e que não poderia estrear em outro lugar, que não na capital baiana. “Foi um processo que demorou. O que quer que eu fizesse, ia querer estrear aqui pelas razões que expliquei de me sentir em casa. Eu sou feliz na minha vida, mas sou feliz em Salvador de um jeito diferente”, celebra Wagner.
“Sabe quando o seu avião tá pousando e você sente uma coisa, como se estivesse chegando em casa? Eu só sinto isso aqui. Aí abre a porta, vem uma emoção, um cheiro. É só em Salvador. Então, o meu axé é aqui. Eu sinto que, se de alguma forma, quando eu faço alguma coisa fora do Brasil eu sou especial, é porque eu sou daqui. É porque ninguém que está lá viveu o que eu vivi aqui, tem as relações, a cultura que eu tenho daqui. Isso é o que me faz interessante, no trabalho e na vida”, reflete.

Foto: João Lucas Dantas/ Bahia.ba
Escolha inusitada de local
O Trapiche Barnabé é uma conhecida e tradicional casa de festas e shows de Salvador, o que causou a surpresa do público ao ser escolhida como o local que receberia o espetáculo, a volta de Wagner Moura aos palcos, e não um teatro convencional. Quando perguntado sobre o assunto, diz que a escolha partiu dele. “Queria que fosse especial, diferente”.
“Queria que fosse um evento. Eu sempre falava isso. Que fosse uma coisa assim, que não fosse em um local normal e tem teatros ótimos em Salvador. E aí Marcelo Flores me falou: “Por que não faz no Trapiche?”. A gente veio, e a Cris trouxe a equipe dela aqui, e o pessoal achou que dava”, explica o protagonista do espetáculo.
Para a diretora carioca Christiane Jatahy, o local é carregado de memória e isso se presentificou de forma “muito bonita” em cena. “O Inimigo do Povo é uma peça do século XIX. A gente traz esse passado na dramaturgia, porque se refere a ele. E, fora isso, eu gosto muito, são os espaços que mais gosto de trabalhar, daqueles em que não há um palco separando a plateia da cena. Essa famosa quarta parede já foi derrubada há muitos e muitos anos, ela de fato não existe mais”, justifica a escolha.
“O público está exatamente no mesmo nível; não existe essa hierarquia do ator que está numa plataforma olhando os espectadores de cima. Então, acho que isso é essencial para esse trabalho. É muito importante para mim e para o teatro contemporâneo, que essas fronteiras não existam mais e a relação com o espectador seja fundamental na construção da dramaturgia da peça. Isso é uma soma, e é realmente muito legal que a gente esteja fazendo a nossa estreia dessa maneira”, pontua Chris.
Durante a coletiva, também foi anunciada a participação especial em gravações que serão exibidas durante o espetáculo da atriz Marjorie Estiano, Jonas Bloch, além de dois filhos do Wagner: Salvador e José Moura.
Importância do teatro e do Nordeste
Wagner Moura também aproveita para ressaltar a importância do teatro em sua vida, e diz que aprendeu o ofício da atuação através da arte que o iniciou. “É sempre voltar para entender por que eu faço isso. A impressão que dá quando eu retomo é: “Ah, por isso! Por isso que eu quis fazer atuar”. E sempre parece que eu fico mais inteligente quando estou de volta aos palcos”, ressalta.
O ator também volta a declarar seu amor ao Nordeste e diz que gravar O Agente Secreto no Recife o fez “muito feliz”. “Eu penso primeiro em mim e depois no Brasil. Estar aqui me faz bem. Se, de alguma forma, isso for bom para as pessoas que assistem, ótimo”, conclui Wagner Moura.
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