Publicado em 14/01/2020 às 10h46.

Wagner Moura diz que cultura sofre censura no Brasil

Longa dirigido por Wagner que conta a história do guerrilheiro 'Marighella' foi cancelado pela Ancine

Redação
Foto: Reprodução/Jornal de Brasília
Foto: Reprodução/Jornal de Brasília

 

“A Ancine [Agência Nacional do Cinema] censurou o filme. É uma censura diferente, que usa instrumentos burocráticos para dificultar produções das quais o governo discorda. Não tenho a menor dúvida de que ‘Marighella’ não estreou ainda por uma questão política.” A declaração do ator Wagner Moura, em entrevista ao UOL, diz respeito ao filme que ele dirige que conta os cinco últimos anos de vida do escritor, político e guerrilheiro baiano Carlos Marighella.

Marighella foi executado, em 1969, pela ditadura militar. Ele foi um dos organizadores da luta armada contra o regime e considerado inimigo número um.

O longa, tinha previsão de ser lançado no último dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, no Brasil. No entanto, ele foi adiado após a Ancine negar pedido da produtora O2, responsável pelo filme, relativo ao prazo de uma proposta visando a recursos para a distribuição da obra.

Para Moura, a negativa e os entraves subsequentes tiveram motivação política. “Como grande empresa, a O2 não pode chegar e dizer que a Ancine censurou o filme. Mas eu posso. Sustento o que já disse. É uma censura diferente, mas é censura, que usa instrumentos burocráticos para dificultar produções das quais o governo discorda. Não há uma ordem transparente por parte do governo para que isso aconteça, no entanto já vimos Bolsonaro publicamente dizer que a cultura precisa de um filtro. E esse filtro seria feito pela Ancine. O filme, como tantas outras produções artísticas, havia se beneficiado de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual. Mas a Ancine negou pedidos da produção que possibilitariam o lançamento. A agência tinha o direito de negá-los, sua decisão não foi tecnicamente ilegal. Mas não havia razão alguma para isso, ou seja, essa negativa tem a ver com o contexto em que estamos vivendo”, declarou.

O diretor do longa, afirmou ainda que o cancelamento da estreia do filme foi comemorado pelos filhos do presidente Jair Bolsonaro.

“Depois que a Ancine negou os pedidos feitos pela O2, o cancelamento da estreia foi comemorado pelos filhos de Bolsonaro nas redes sociais. [“A produtora do filme Marighella, dirigido por Wagner PIÇÓU Moura, a O2, pleiteou à Ancine a bagatela de R$ 1.000.000 para um suposto “ressarcimento de despesas”. Pedido negado! Noutros tempos o desfecho seria outro, certamente com prejuízo aos cofres públicos”, tuitou o vereador Carlos Bolsonaro no dia 29 de agosto do ano passado”, explicou Moura.

O baiano defende ainda que a cultura não é algo que interesse o atual governo. “ Esperar que ele entenda o valor simbólico e a importância da cultura para o país seria pedir demais. Até porque uma das primeiras coisas que eles fizeram foi acabar com o Ministério da Cultura. “No ano em que investiram na destruição do nosso cinema, ‘Bacurau’ e ‘A Vida Invisível’ ganharam prêmios no Festival de Cannes e, agora, ‘Democracia em Vertigem’ foi indicado ao Oscar. Duvido que qualquer um desses filmes conseguisse financiamento através da Ancine hoje”.

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