Publicado em 06/04/2026 às 15h30.

Axé, candomblé e MPB: Trajetória histórica que molda a música brasileira

Polêmica reacende debate sobre a presença ancestral de elementos afro-religiosos na formação nacional

João Lucas Dantas
Foto: Pierre Verger/ Reprodução

 

A recente controvérsia instaurada nas redes sociais, principalmente no X (antigo Twitter), motivada pelas declarações da cantora baiana Majur sobre a ocupação de espaços por músicas ligadas ao axé e ao candomblé na Música Popular Brasileira (MPB), oferece um ponto de partida para uma análise profunda sobre as camadas de memória e apagamento que constituem a identidade sonora nacional.

Em post que causou grande repercussão, Majur declarou “Eu sabia que inspiraria gerações a serem livres! E por isso que eu sempre falei de axé. Sempre vou levar e vai ficar pra sempre na nossa música brasileira”.

Após isso, os comentários e repostagens resgataram vários nomes importantes que contribuíram para a popularização da música ligada às religiões de matrizes africanas ao longo das décadas.

A percepção de que essa integração é um fenômeno recente ou uma “hype” momentânea ignora uma trajetória secular de infiltração, resistência e eventual hegemonia de elementos sagrados de matriz africana no tecido da canção popular brasileira.

O que alguns observadores contemporâneos classificam como inovação é, na verdade, o desdobramento de um processo contínuo que remonta aos terreiros da Pequena África no Rio de Janeiro e às tradições milenares do Recôncavo Baiano, cujos ecos foram sistematizados por figuras como Tia Ciata, Dorival Caymmi, Baden Powell, Os Tincoãs e Clara Nunes.

Abaixo, é um bom momento para relembrar artistas que foram fundamentais na popularização da música de matriz africana no Brasil.

Tia Ciata
Foto: Reprodução

Tia Ciata e a Praça Onze: O terreiro como berço da indústria fonográfica

Se o samba é hoje o símbolo da identidade nacional, sua certidão de nascimento está irremediavelmente ligada à religiosidade de matriz africana. A figura de Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata, é o elo fundamental dessa integração.

Nascida em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, em 1854, migrou para o Rio de Janeiro na chamada “diáspora baiana“, trazendo consigo não apenas o saber culinário e as vestes típicas, mas a autoridade de uma Iyakekerê (mãe-pequena) do Candomblé.

A casa de Tia Ciata, localizada na Praça Onze, funcionava como um ponto de confluência onde o sagrado e o popular coexistiam sem dicotomias. Enquanto no quintal ou nos quartos internos realizavam-se as obrigações religiosas aos orixás, nas salas da frente e nos corredores fervilhava o samba.

Foi nesse ambiente que a “santíssima trindade” do samba — Donga, Pixinguinha e João da Baiana — consolidou o gênero. O primeiro samba gravado em disco, Pelo Telefone (1917), foi concebido nessas reuniões, evidenciando que a indústria fonográfica brasileira nasceu dentro de uma estrutura social e espiritual mantida por mulheres de axé.

A proteção que Tia Ciata oferecia aos sambistas era indissociável de sua posição religiosa. Relatos históricos indicam que sua habilidade como curandeira e o domínio de ervas ancestrais lhe renderam o respeito de figuras influentes, incluindo o presidente Wenceslau Brás (9º do Brasil, governante de 1914 a 1918), o que serviu como um escudo contra a perseguição policial que ainda assolava os terreiros e as rodas de samba.

Assim, o samba utilizou o prestígio e a organização das comunidades de terreiro para se legitimar como cultura urbana.

Dorival Caymmi
Foto: Arquivo Agência A Tarde

Dorival Caymmi e a estetização do sagrado na Bahia

A partir da década de 1930, Dorival Caymmi operou uma revolução estética que transformou a percepção nacional sobre a Bahia e suas religiões. Ele não apenas cantou a beleza do mar e a vida dos pescadores, mas introduziu a mitologia dos orixás no vocabulário cotidiano da canção popular brasileira com uma sofisticação sem precedentes.

Canções como Oração de Mãe Menininha, lançada em 1972 em homenagem à ialorixá baiana Mãe Menininha do Gantois, são marcos de uma transição onde o louvor religioso ganha importância nacional.

A relação de Caymmi com o sagrado era de profunda admiração e pertencimento. Ele detinha o posto honorífico de Obá de Xangô no Terreiro do Gantois, e suas composições serviram para consolidar o reconhecimento de lideranças religiosas negras em todo o país.

Mãe Menininha, ao ouvir sua homenagem nas vozes de Gal Costa e Maria Bethânia, teria se emocionado com a dignidade e o respeito que o compositor conferiu à sua fé.

Caymmi também explorou a força da ancestralidade em obras como Canto de Nanã e Dois de Fevereiro, conectando a espiritualidade viva do povo baiano a uma poética universal, elevando o que antes era perseguido ao status de alta cultura brasileira.

Vinicius de Moraes à esquerda e Baden Powell. Foto: Hires Grain / Divulgação Max

Os Afro-Sambas: A fusão de Baden Powell e Vinicius de Moraes

Em 1966, o lançamento do LP Os Afro-Sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes representou um momento de ruptura e síntese na MPB. Este álbum foi o resultado de um mergulho profundo de dois artistas formados na tradição da Bossa Nova e do violão erudito na estética dos terreiros de Salvador.

Powell iniciou um estudo técnico e espiritual que o levou a frequentar rodas de capoeira e terreiros sob a orientação de mestres como Canjiquinha. O insight fundamental foi a percepção das semelhanças entre os cânticos de candomblé e o canto gregoriano, o que permitiu a criação de arranjos que uniam a síncope africana à harmonia barroca europeia.

O uso de atabaques, agogôs e o coro feminino do Quarteto em Cy em canções como Canto de Ossanha e Lamento de Exu trouxe para a música de consumo uma atmosfera de transe e sacralidade que desafiava a ortodoxia da época.

Os Afro-Sambas serviram como uma ponte cultural. Ao utilizar a autoridade estética de Vinicius (diplomata e poeta consagrado) e a virtuosidade de Baden, o álbum permitiu que a mitologia iorubá fosse consumida pela classe média urbana, contribuindo para uma mudança na percepção social sobre as religiões de matriz africana.

Embora o trabalho tenha sido criticado posteriormente por uma possível “exotização”, seu impacto histórico na legitimação dos temas sagrados na música popular é inquestionável.

Os Tincoãs
Foto: Reprodução

Os Tincoãs e a potência da voz ancestral

Se os afro-sambas foram uma interpretação de fora para dentro, o grupo baiano Os Tincoãs, fundado em Cachoeira na década de 1960, representa a voz autêntica da tradição do Recôncavo ocupando o cenário artístico profissional.

Mateus Aleluia, Dadinho e Badu criaram uma sonoridade baseada na polifonia vocal que unia o candomblé de Angola, o samba de roda e os cantos sacros católicos que ouviam nas igrejas barrocas de sua cidade natal.

Os Tincoãs operaram o que o professor Iuri Passos, mestre em Etnomusicologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), descreve como o marco de uma transição, a música saindo dos terreiros para os palcos e dali para o mundo.

Canções como Deixa a Gira Girar, Cordeiro de Nanã e Promessa ao Gantois são exemplos de uma sofisticação melódica que impressionou figuras como João Gilberto, que regravou suas canções, reconhecendo nelas uma perfeição harmônica intrínseca.

A ligação estreita com a África tornou-se uma realidade concreta na vida de integrantes como Mateus Aleluia e Dadinho, que mudaram-se para Angola em 1983 para desenvolver pesquisas sobre a ancestralidade musical pan-africana.

O relançamento recente de álbuns como Canto Coral Afrobrasileiro (gravado em 1983) reafirma a perenidade dessa obra como um ato de resistência cultural e representatividade negra.

Mateus Aleluia, em sua carreira solo iniciada nos anos 2000, continua a ser o grande guardião desse “canto infinito”, produzindo discos que são verdadeiros tratados sobre a filosofia e a espiritualidade africana no Brasil.

Clara Nunes
Foto: Reprodução/ Redes sociais

Clara Nunes: A interpretação como ato de fé

A década de 1970 marcou a ascensão da mineira Clara Nunes como a mais importante intérprete da religiosidade afro-brasileira no país. Ela não apenas cantava temas religiosos, ela personificava a devoção no palco, transformando-se na “Guerreira” que lutava contra o preconceito racial e religioso em uma sociedade desigual.

Originalmente uma cantora de repertório romântico, passou por uma profunda transição estética e espiritual, adotando o branco ritualístico, as guias de orixás e um repertório fundamentado no samba de raiz e nos pontos de umbanda e candomblé.

Sua música, impulsionada por compositores como Paulo César Pinheiro e João Nogueira, disseminou releituras e ressemantizações de mitos africanos, atingindo massas de ouvintes através do rádio e da televisão.

O impacto de Clara Nunes foi bidirecional. Enquanto ela levava o sagrado para os palcos do mundo, ela também trazia prestígio para os terreiros, ajudando na expansão das práticas religiosas afro-brasileiras em territórios onde elas eram perseguidas ou desconhecidas.

Sua morte precoce em 1983 não encerrou seu legado, pelo contrário, suas músicas continuam a inspirar artistas contemporâneos que veem nela uma pioneira no combate à intolerância religiosa através da arte.

Gilberto Gil
Foto: Reprodução

Gilberto Gil e o Tropicalismo negro

O retorno de Gilberto Gil do exílio em 1972 marcou o início de uma imersão sistemática do artista no candomblé e na cultura negra global. Ele, que já havia flertado com a mística em canções como Oriente e explorado a ciência em diálogo com o mito em Objeto Sim, Objeto Não, encontrou no terreiro um novo porto seguro para sua poética.

A viagem de Gil à Nigéria em 1977 para participar do Festac (Festival de Arte e Cultura Africana) foi o catalisador para a criação do álbum Refavela.

Nesse trabalho, Gil buscou compreender o “mundo negro” a partir de uma perspectiva contemporânea, unindo a rítmica do ijexá e do afoxé (notadamente do bloco Filhos de Gandhi) a elementos do funk e do reggae. Compreendeu-se como um sujeito periférico e diaspórico, utilizando sua música para reconstruir os laços rompidos pelo Atlântico.

A colaboração com Jorge Ben Jor no álbum Gil & Jorge: Ogum, Xangô (1975) é outro exemplo dessa celebração da ancestralidade. O disco, descrito como um ritual de encontro, apresenta longas jam sessions onde os dois artistas negros celebram seus orixás através de batuques e vocalises que remetem diretamente à atmosfera dos terreiros e das macumbas.

Maria Bethânia e Mãe Menininha
Foto: Reprodução

Maria Bethânia: Rainha da MPB

Maria Bethânia, natural de Santo Amaro e irmã de Caetano Veloso, construiu uma carreira onde a religiosidade é o fio condutor de sua performance dramática. Iniciada no candomblé, em 1981, como filha de Iansã e dedicada discípula de Mãe Menininha do Gantois, nunca separou sua vida espiritual de seu ofício artístico.

Ao longo de mais de 50 álbuns, a cantora frequentemente utiliza pontos de orixás para abrir ou fechar seus espetáculos, misturando-os a textos literários de alta voltagem intelectual, criando uma simbiose única entre o terreiro e a academia.

Sua gravação de Oração de Mãe Menininha ao lado de Gal Costa tornou-se a versão definitiva da canção de Caymmi, servindo como uma ponte emocional para milhões de brasileiros que, através de sua voz, passaram a respeitar o sagrado africano.

Foto: Reprodução

A explosão do Axé Music e o surgimento dos Blocos Afro

Na década de 1980, o Carnaval de Salvador passou por uma revolução percussiva que deu origem ao que hoje conhecemos como Axé Music. O surgimento de blocos afro como o Ilê Aiyê (1974) e o Olodum (1979) trouxe para o centro da festa popular uma estética de afirmação racial e religiosa baseada na herança africana.

O Ilê Aiyê, fundado no bairro da Liberdade, em Salvador, utilizou o samba afro para exaltar a cultura negra e expressar sua religiosidade, servindo como um instrumento de resistência e defesa de pautas sociais.

Já o Olodum internacionalizou o samba-reggae de Neguinho do Samba, colaborando com artistas como Paul Simon e Michael Jackson, provando que a batida do atabaque reformulada para a percussão de rua era uma linguagem universal.

Desse cenário, surgiram nomes como Margareth Menezes, que emergiu como a pioneira do Afropop brasileiro. Com uma voz grave e potente, ela uniu elementos do ijexá e batidas de agogô a sintetizadores modernos, criando hinos como Faraó (Divindade do Egito) que celebram a história de resistência e a dignidade do povo negro.

Margareth lutou ativamente contra o “embranquecimento” da axé music comercial, defendendo que os verdadeiros criadores desses ritmos periféricos fossem valorizados e reconhecidos como os herdeiros de uma sabedoria ancestral.

Se a música de matriz africana encontrou caminhos de estetização e comércio com outros nomes, em Lazzo Matumbi ela encontrou sua consciência política mais aguda e sua sonoridade mais densa.

Emergindo do cenário dos blocos afro de Salvador, tendo sido a voz emblemática do Ilê Aiyê em momentos cruciais, Lazzo operou uma transição fundamental. Retirou o “canto de terreiro” do estigma do folclore para inseri-lo em uma moldura de soul, reggae e samba-reggae de altíssima sofisticação técnica.

Canções como Alegria da Cidade e 14 de maio não são apenas sucessos, são manifestos de autoafirmação que colocam o corpo negro e a religiosidade no centro da narrativa urbana.

Já na década de 1990, Daniela Mercury assumiu o papel de “Rainha do Axé“, utilizando seu imenso alcance mediático para legitimar o samba-reggae e os ritmos dos blocos afro no mainstream.

Com o álbum O Canto da Cidade (1992), ela não apenas nacionalizou a batida de Salvador, mas o fez com um discurso de orgulho racial e reverência estética aos orixás, elevando a música de rua ao status de ópera popular.

Complementando esse ciclo, Carlinhos Brown surge como o grande mestre da percussão orgânica e tecnológica. Fundador da Timbalada e criador de uma linguagem percussiva revolucionária, retirou o atabaque e o timbau da marginalidade e os colocou no centro do palco mundial, provando que a “pedagogia do tambor” é capaz de promover inclusão social e sofisticação artística.

Juntos, esses e outros grandes nomes garantiram que o axé não fosse apenas um gênero sazonal, mas uma filosofia rítmica inabalável na arquitetura sonora do Brasil.

O Sagrado Contemporâneo

A linha do tempo iniciada por nomes Tia Ciata e Caymmi encontra hoje novos protagonistas que operam em um cenário de maior visibilidade digital, mas com o mesmo compromisso ancestral.

Artistas como Luedji Luna e BaianaSystem, além da própria Majur, demonstram que a união entre a espiritualidade e o popular é um organismo vivo e em constante mutação.

Foto: Ítalo Ribeiro / bahia.ba

Luedji Luna e o Mar da Memória

A baiana Luedji Luna, com álbuns como Um Corpo no Mundo, utiliza a música para se reconectar com a ancestralidade africana através de uma sonoridade que transita pelo jazz e pelo neo-soul.

Sua obra explora a imagem da água e dos orixás femininos (como Iemanjá e Oxum) para falar de amor, identidade e pertencimento na diáspora.

Luedji serve como uma voz para milhões de afro-brasileiros marginalizados, confrontando as políticas de “embranquecimento” com uma performance imponente e poética.

Foto: Assessoria/Bob Wolfenson

BaianaSystem e a Orquestração do Futuro

A trajetória do BaianaSystem revolucionou a música contemporânea ao operar uma “antropofagia digital” que conecta o Sound System jamaicano à essência percussiva da Bahia.

Desde o álbum homônimo de 2009, o grupo liderado por Russo Passapusso e Roberto Barreto resgatou a guitarra baiana do virtuosismo técnico para devolvê-la ao centro do debate político e da catarse das ruas.

Ao transitar da crítica social urbana de Duas Cidades (2016) para a imersão mística de O Futuro Não Demora (2019), a banda estabeleceu um diálogo visceral com a ancestralidade, isolando-se na Ilha de Itaparica para fundir a síncope dos terreiros com a distorção moderna.

Essa “orquestração do futuro” se materializa na colaboração com a Orquestra Afrosinfônica e mestres como Antonio Carlos & Jocafi, unindo o tambor ancestral a sintetizadores e ao dub. No Carnaval de Salvador, o trio elétrico Navio Pirata tornou-se um símbolo de resistência, onde a estética do mosh encontra o ritmo do ijexá, criando uma ocupação política do espaço público.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Repórter no portal Bahia Econômica. Atualmente, repórter de Cultura no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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