Publicado em 29/08/2025 às 05h00.

Casais lésbicos recorrem à inseminação caseira para realizar sonho da maternidade

Método é considerado mais econômico para casais homoafetivos que não podem arcar com uma inseminação in vitro

Carolina Papa
Foto: Freepik

 

O sonho da maternidade para casais lésbicos pode se tornar, às vezes, inatingível devido aos altos custos de uma fertilização in vitro (FIV), procedimento de reprodução assistida feita em laboratório. Em busca de concretizar o desejo de gestar uma criança, mulheres em relacionamentos homoafetivos têm procurado alternativas mais acessíveis como a fertilização caseira. 

O método, considerado mais econômico, pode ser feito dentro de casa e de forma simples: com o auxílio de uma seringa (sem agulha), um coletor esterilizado e o principal, o esperma recém-coletado de um doador que pode ser conhecido ou anônimo. 

Páginas em redes sociais, alguns abertas para qualquer usuário e outras privadas para manter a descrição, tem ajudado mulheres lésbicas na busca por um homem que esteja disposto a doar o semên, sem a necessidade de conceber uma criança através do sexo.

Por se tratar de uma técnica não regulamentada de reprodução, essas comunidades, encontradas principalmente no Facebook, auxiliam mulheres que buscam a alternativa disponibilizando o número de telefone de doadores, além de auxiliar as interessadas no que fazer antes e após a inseminação caseira para que, posteriormente, obtenham o resultado positivo. 

A escolha do doador não é feita de forma aleatória. O homem é selecionado de acordo com as características definidas pelo casal homoafetivo. Etnia, cor dos olhos, altura e o tipo de cabelo podem influenciar na seleção do doador, sem a necessidade, em alguns casos, de apresentar exames médicos. 

À espera do sonhado filho 

A professora de robótica, Fátima (nome fictício), 31, afirma que ela e a parceria têm se preparado para conceber um bebê através da inseminação caseira, por ser o método que mais se enquadra na realidade financeira do casal. 

A educadora conta que, a priori, o procedimento havia sido marcado para agosto, mas que devido a ausência de informações, foi postergado para dezembro para que a inseminação seja bem sucedida. 

“Nós tínhamos marcado com o doador para fazer [a inseminação], só que eu tive um choque de realidade porque nós iríamos fazer, mas seria um tiro no escuro. [Minha parceira] não tinha ido na ginecologista fazer os exames para ver se estava tudo certo, para ver se iria ser necessário tomar algumas vitaminas, alguns medicamentos para o fortalecimento do útero”, pontua Fátima em entrevista ao bahia.ba.

“Nós estudamos, pesquisamos e entramos em grupos de WhatsApp para entender um pouco melhor para ver como é que funciona [a inseminação caseira]. Nós conversamos com outras mulheres que estão nesse processo também, que são tentantes. […] Pensamos melhor e resolvemos fazer o acompanhamento com a ginecologista [para] estudar primeiro o organismo da minha parceira”, destacou. 

Sobre a escolha do doador, Fátima afirma que encontrou o melhor perfil fora da Bahia e que ela e a companheira estão dispostas a viajar para encontrar o homem e realizar a inseminação. Ela ressalta que há todo um cuidado para evitar o contágio de doenças sexualmente transmissíveis através do procedimento. 

“[Vamos pedir] a bateria do exame dele para ver se está tudo certo, principalmente por conta de doenças sexualmente transmissíveis. É muito importante exigir [do doador] os exames dele”, relata. 

Para que uma criança concebida através de inseminação artificial seja registrada com dupla maternidade, é necessário apresentar no cartório um relatório emitido pela clínica onde o procedimento foi realizado junto com a declaração de nascido vivo (DNV). Em casos de inseminação caseira, mulheres podem encontrar dificuldades para registrar o bebê com os nomes das duas mães devido a ausência do relatório. A alternativa é entrar com um recurso na Justiça para o reconhecimento da dupla maternidade, ou recorrer a um processo de adoção afetiva, o que foi decidido por Fátima e sua companheira. 

“Ao contrário da inseminação artificial, que já dá todos os protocolos corretos para você chegar e registrar a criança, a inseminação caseira não te dá isso. Mesmo não sendo crime no Brasil, a gente não tem como chegar no cartório e registrar. Normalmente as mulheres alegam que o pai não assumiu e que é a nova companheira que vai assumir a criança. […] Fica praticamente como se fosse uma adoção. Estou adotando o filho da minha parceira. […] Ela vai fazer o registro de mãe solo e depois e depois […] a gente com o novo registro de dupla maternidade. É um pouco mais complexo e também vai ter um pouco mais de gasto com o advogado. [No entanto], o fator financeiro pesa bastante, mas não é nada comparado aos gastos de uma inseminação artificial. [Mesmo] com tudo isso, ainda acaba valendo a pena”, cravou. 

A professora desmistifica o preconceito em torno da inseminação caseira. Para ela, o procedimento é, às vezes, a “única saída” para casais lésbicos que sonham em gestar sem recorrer a reprodução assistida em laboratório. 

“É algo que as pessoas pensam que é complexo, complicado e impossível, mas é muito comum. Os casais fazem, muitas vezes, é porque a única saída de ter uma família. Não é todo mundo que vai ter condições financeiras de arcar com todos os procedimentos de uma inseminação artificial in vitro. […] E em dezembro nós iremos fazer o procedimento, espero que dê tudo certo de primeira e que venha o nosso tão sonhado filho”, complementou. 

O olhar médico

A ginecologista e especialista em Reprodução Humana Assistida da equipe do Cenfert, Dra. Ana Cláudia Trigo, informa que, no Brasil, o custo de uma inseminação artificial in vitro pode variar de R$ 3 mil a R$ 10 mil por ciclo, dependendo da clínica onde o procedimento for realizado.  

Para a médica, a inseminação caseira tem se tornado popular por ser vista como uma “uma alternativa mais simples, íntima e de menor custo” para casais homoafetivos que buscam gerar um filho. 

Ana Cláudia Trigo avalia que o método pode trazer uma “sensação de maior privacidade e facilidade de acesso a doadores informais de sêmen”, mas alerta para os riscos que podem comprometer a saúde da gestante e do bebê. 

“A inseminação artificial realizada em clínicas é feita com acompanhamento médico e laboratorial. Isso inclui testes rigorosos do sêmen, preparo adequado para selecionar os melhores espermatozoides, monitoramento do ciclo ovulatório da paciente e o procedimento em condições seguras e estéreis. Além disso, todo o processo respeita a legislação brasileira, garantindo segurança jurídica”, informa Dra. Ana Cláudia Trigo. 

“O processo envolve o uso de medicamentos leves para estimular a ovulação, acompanhamento por ultrassonografia para identificar o momento ideal, preparo do sêmen em laboratório e, finalmente, a introdução do sêmen dentro do útero através de um cateter, em ambiente seguro e estéril. Essa combinação aumenta as chances de gravidez e protege a saúde da paciente e do bebê”, acrescentou a ginecologista.

A médica faz observações sobre a falta de respaldo jurídico que o casal lésbico pode enfrentar na hora de registrar o filho concebido através da inseminação caseira uma vez que, posteriormente, o doador pode reivindicar a paternidade da criança.

“Sem respaldo jurídico, podem surgir conflitos sobre a filiação da criança. Sem anonimato ou contrato legal, o doador pode reivindicar paternidade ou ser responsabilizado judicialmente. Para a criança, isso pode significar insegurança tanto no campo da saúde quanto no da filiação”, finaliza. 

Carolina Papa

Jornalista. Repórter de política, mas escreve também sobre outras editorias, como cultura e cidade. É apaixonada por entretenimento, música e cultura pop. Na vida profissional, tem experiência nas áreas de assessoria de comunicação, redação e social media.

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