Com alta de crimes raciais, especialista aponta educação como arma central contra o racismo
Taxa de registros de racismo cresceu 26,3% no Brasil; Bahia aparece entre os estados com maior número de casos

O enfrentamento ao racismo na Bahia e no Brasil chegou a um encruzilhada em 2026. Enquanto os registros de injúria racial e crimes de ódio apresentam curvas ascendentes, o debate sobre como frear essa escalada ganha uma nova perspectiva.
Para o subprocurador-geral do trabalho e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Manoel Jorge Silva Neto, a aposta exclusiva no Direito Penal como “remédio” para a discriminação é um equívoco. A verdadeira solução, defende ele, passa obrigatoriamente pela educação e por políticas públicas permanentes.
“O que me parece é que o sistema penal já é suficiente para determinar um comportamento respeitoso. O problema não é o rol de penas, mas a transformação da pessoa”, afirma o jurista.
Segundo Silva Neto, a intervenção do poder público por meio de campanhas educativas contínuas e a inserção de valores de alteridade no currículo escolar surtem mais efeito do que a elevação do tempo de reclusão.
Mapa da intolerância na Bahia
Os dados de 2025 reforçam a urgência do debate. Segundo a Polícia Civil, a Bahia registrou 759 ocorrências de crimes de racismo e intolerância religiosa no último ano. Salvador concentra quase metade desse volume (43,6%), com 329 boletins de ocorrência.
Nacionalmente, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que a taxa de registros de racismo por 100 mil habitantes cresceu 26,3%, enquanto a de injúria racial deu um salto ainda maior: 41,4%.
| Tipo de Crime (Brasil) | 2023 | 2024 | Crescimento |
| Racismo | 14.919 | 18.923 | +26,3% |
| Injúria Racial | 12.813 | 18.200 | +41,4% |
Perda de valores
O caso da turista gaúcha que agrediu uma comerciante no Pelourinho no início deste ano serve como pano de fundo para essa tese. Para o professor, o crime cometido em um local histórico de castigo aos negros escravizados revela que o agressor perdeu a conexão com o respeito básico ao próximo.
“Não me parece que seja perda de vergonha, me parece que seja perda de valores. É a perda de valores que está determinando esses comportamentos absurdamente repreensíveis. A transformação da pessoa vem com fundamento na educação”, pontuou Silva Neto.
Racismo recreativo
Silva Neto destaca, ainda, que a educação é a única ferramenta capaz de extinguir o chamado racismo recreativo. Muitas vezes camuflado como “brincadeira”, esse tipo de delito atinge a dignidade da vítima de forma sutil, mas profunda.
“Não há graça alguma em chamar alguém com apelidos pejorativos. É através da educação que ensinamos que a dignidade humana é intransigente”, explica.
O jurista recorda que a própria Constituição da Bahia (Art. 286) reconhece a sociedade baiana como culturalmente marcada pela presença afro-brasileira, o que deveria ser a base de qualquer política pedagógica no estado.
Para o subprocurador, as instituições devem acolher a vítima, mas o Estado deve focar na prevenção. Ele elogia a criação de delegacias especializadas como a Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religios (Decrin), mas insiste que o monitoramento deve ser acompanhado de “reflexão impositiva”.
“A intervenção do poder público em políticas públicas, a realização de campanhas que sejam absolutamente contrárias à prática do racismo, isso sim surte efeito”, defende.
O especialista reforça, ainda, que, enquanto a educação não transforma a base da sociedade, as vítimas devem ser “guardiãs intransigentes de sua própria dignidade”, recorrendo ao sistema de justiça para que cada crime seja o ponto de partida para uma nova política de reparação e conscientização.
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