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Publicado em 10/01/2026 às 06h00.

Dez anos sem David Bowie: conheça seu epitáfio musical deixado em Blackstar

Lançado dois dias antes de sua morte, álbum foi concebido como um adeus consciente, ao tratar de finitude, identidade e reinvenção

João Lucas Dantas
David Bowie no clipe de Blackstar
Foto: Reprodução

 

Há exatos 10 anos, no dia 10 de janeiro de 2016, o mundo se despedia daquele que talvez seja um dos maiores artistas de todos os tempos, David Bowie. Mas uma pessoa tão inquieta como ele, que respirava arte de todas as formas, não simplesmente se despediu. Dois dias antes, em 8 de janeiro de 2016, lançou o seu testamento final no dia do seu aniversário de 69 anos, o álbum Blackstar.

Com sete faixas que somam 41 minutos, Blackstar se trata do maior ato de despedida já lançado, por um músico que sabia que estava vivendo seus últimos dias. Gravado em segredo entre janeiro e maio de 2015, em Nova Iorque, o trabalho derradeiro é uma das obras mais místicas e premonitórias já lançadas na história e, claro, só poderia ter sido encabeçada por um artista do porte de Bowie.

Capa de Blackstar

Contexto pessoal

No início de 2015, Bowie já lutava contra um câncer de fígado em estágio avançado, mas manteve isso em segredo. Segundo biografias e o próprio Tony Visconti, ele havia sido diagnosticado em 2014. Em novembro de 2015, foi informado de que o câncer era inoperável e iniciou a quimioterapia antes de concluir as gravações do disco.

Ele confidenciou a Visconti, seu co-produtor e amigo de longa data, que só podia dedicar poucas horas por dia às gravações, devido aos tratamentos. Mesmo assim, Bowie trabalhou afetuosamente no álbum, enxergando-o como uma última criação. Visconti relembra que, mesmo saindo de sessões de quimioterapia, ele mantinha o humor e a energia no estúdio.

“Ele era tão corajoso, e sua energia estava incrível para um homem com câncer. Ele não demonstrava medo algum.” Foi apenas em entrevistas posteriores que o mundo soube que Bowie escondia a doença, apenas familiares e parceiros muito próximos foram informados.

Essa batalha influenciou fortemente a criação do último disco. As letras falam da morte de forma velada e da esperança de liberdade. A faixa-título, por exemplo, abre com imagens apocalípticas no videoclipe ao mostrar uma mulher com rabo diante de um cadáver de astronauta, além de mensagens crípticas que muitos interpretam como reflexões sobre poder e mortalidade.

O álbum como um todo foi concebido por Bowie como um “presente de despedida”. Como Visconti disse em homenagem: “Sua morte não foi diferente de sua vida, uma obra de arte. Ele fez Blackstar para nós, seu presente de despedida”. Em novembro de 2015, quando filmou o clipe, já sabia que estava em fase terminal. Essa consciência permeia o álbum, que apresenta diversos temas ligados à morte e à transcendência.

Gravação e produção

Co-produzido pelo próprio Bowie e por Tony Visconti, o disco foi gravado no estúdio Magic Shop (e Human Worldwide), com um quarteto de jazz americano como banda de apoio. Bowie havia preparado demos de seis a sete canções e convidou o saxofonista Donny McCaslin e seu grupo, Tim Lefebvre no baixo, Jason Lindner nos teclados e Mark Guiliana na bateria, para registrar as faixas em três blocos intensivos de gravação.

O primeiro ocorreu em janeiro, o segundo na primeira semana de fevereiro e o terceiro em alguns dias no início de março de 2015, com overdubs realizados em uma sessão adicional em abril. Em vez de cantar isoladamente, Bowie gravou os vocais ao vivo no estúdio, com os músicos ao redor. “Ele estava do outro lado do vidro, no meio do Mark, do Tim e do Jason. Eu sentia a energia se movendo pela sala”, afirmou Visconti.

Além da banda de McCaslin, há participações especiais do guitarrista Ben Monder e do músico James Murphy, do LCD Soundsystem, que forneceu sintetizadores e efeitos em faixas como “Girl Loves Me”.

Bowie explorou novos timbres, incorporando percussões eletrônicas e sintetizadores vintage trazidos por Murphy. As influências musicais variam do jazz progressivo ao soul e ao hip-hop contemporâneo, tendo citado álbuns recentes de D’Angelo (Black Messiah) e Kendrick Lamar (To Pimp a Butterfly) como referências durante as sessões. Mesmo marcado pelo pop e pelo rock ao longo da carreira, em Blackstar, o cantor mergulha em um som experimental, mesclando jazz e art rock de forma inédita em sua discografia.

David Bowie no clipe de Lazarus
Foto: Reprodução

O simbolismo em Blackstar e Lazarus

Ambos os clipes de divulgação expressam o subtexto sombrio do álbum. No vídeo da música homônima “Blackstar”, dirigido por Johan Renck, Bowie encarna três personagens misteriosos: um com botões nos olhos enfaixados, um pregador soturno e um brincalhão astuto, cada um cantando uma parte da canção.

O cenário é surreal, com mulheres de branco rezando diante de uma torre escura e um astronauta morto enterrado, cuja caveira, talvez seu antigo personagem, o Major Tom, brilha sob um eclipse, símbolos associados à magia negra e ao ocultismo.

Renck confirmou a inspiração em Aleister Crowley, com o próprio Bowie tentando incorporar seu “uniforme de imagens”, como pentagramas e rituais. A ilha desértica e o crânio do astronauta remetem também a visões apocalípticas e à mitologia de suas antigas personas. Nas letras de “Blackstar”, referências aludem a conspiradores e apelos místicos.

No vídeo de “Lazarus”, faixa ligada à peça teatral homônima, Bowie aparece deitado em uma cama hospitalar, com os olhos vendados, representando um prisioneiro ou moribundo clamando por salvação, enquanto canta: “Olhe aqui pra cima, estou no céu; tenho cicatrizes que não podem ser vistas”.

O próprio diretor posicionou o personagem deitado e coberto de bandagens para evocar a ideia de um leito de morte. Em um dos momentos finais, Bowie, com roupas que remetem ao filme O Homem que Caiu na Terra, entra em um armário de madeira semelhante a um caixão e fecha a porta atrás de si. “Isso vai deixar todo mundo adivinhando, não?”, disse ele ao aceitar a cena.

A canção “Lazarus” remete ao personagem bíblico Lázaro, que ressuscitou, e fala sobre renascimento e liberdade após a morte, “eu serei livre” aparece como refrão. Críticos interpretaram a faixa como um epitáfio literário, transformando o seu encontro com a morte em uma performance final de liberdade.

Depoimentos e visão artística dos colaboradores

Os músicos e produtores que conviveram com Bowie em Blackstar destacam sua postura criativa. Tony Visconti, que trabalhou com ele por décadas, afirma ter presenciado uma “coragem extraordinária” durante as sessões, mesmo debilitado pelo tratamento. “Ele continuou totalmente focado em elevar a obra, completamente comprometido com a arte.”

O amigo também relembra as piadas de Bowie sobre o próprio fim e os animados almoços com sushi levados ao estúdio. O saxofonista Donny McCaslin descreveu um ambiente descontraído. Segundo ele, Bowie chegou com demos “muito fortes”, encorajou a banda a improvisar, “sinta-se à vontade para tocar métricas estranhas”, e criou uma “energia incrível” no estúdio.

McCaslin conta que Bowie gravava ao lado dos músicos, ria de piadas e cantava cada canção com energia e convicção, inspirando o grupo. Outros colaboradores, como James Murphy, acrescentaram camadas sonoras ao disco após serem convidados para as sessões de fevereiro, trazendo sintetizadores antigos e percussões eletrônicas, especialmente em faixas como “Girl Loves Me”.

Após sua morte, Visconti comentou que enxerga Blackstar e o musical como uma dupla despedida artística, mas ressaltou que o músico “realmente não queria morrer” e lutou até o fim para continuar criando.

Para Ivo van Hove, diretor de Lazarus, Bowie envelhecido carregava no olhar um homem “partido” e, ao mesmo tempo, determinado a viver o suficiente para concluir seus projetos. Esses relatos confirmam que, mesmo consciente da própria condição, o artista encarou o disco como uma obra de arte regida até o último momento, evitando explicações explícitas sobre seu estado de saúde.

Recepção crítica imediata

Antes mesmo da divulgação de sua morte, Blackstar já era apontado pela crítica como um dos trabalhos mais ousados de Bowie. As primeiras resenhas elogiaram a sonoridade inovadora e as letras enigmáticas. O jornal inglês The Guardian definiu o álbum como “profundamente estranho e rico”, um trabalho ambíguo e hipnotizante, no qual seguia “fixando o olhar à frente”, em vez de revisitar antigos sucessos.

Críticos ressaltaram a coesão do novo som com a banda de jazz, comparando faixas complexas como “‘Tis a Pity She Was a Whore” com seu melhor material progressivo dos anos 1970. Em listas de fim de ano, figurou entre os melhores álbuns de 2016 e foi descrito pelo Guardian como um “foco incandescente de criatividade que está entre os seus melhores”.

Dois dias após o lançamento, com a súbita morte de Bowie, a imprensa passou a reexaminar o álbum como um testamento final. Letras antes vistas como abstratas ganharam novos significados, sendo interpretadas como premonições, especialmente “Lazarus”, entendida como um adeus metafórico.

Em retrospecto, Blackstar recebeu aclamação ainda mais unânime. Considerado um de seus trabalhos mais desafiadores, o álbum venceu três prêmios Grammy, incluindo Melhor Álbum de Rock, e o Brit Award de Álbum do Ano em 2017. Comercialmente, alcançou o topo das paradas nos Estados Unidos, o único número um da carreira de Bowie no país, e figurou entre os álbuns mais vendidos de 2016.

Em suma, críticos apontam o álbum como um encerramento artístico magistral, um disco “rico, profundo e estranho” que confirma David Bowie como sempre à frente do seu tempo, posição em que sempre fez sua melhor música. O disco tornou-se imediatamente reconhecido como um clássico moderno e o desfecho definitivo de sua trajetória musical.

Foto: Reprodução

O epitáfio de Bowie

David Bowie não apenas encarou a morte, ele a transformou em linguagem, som e imagem. Enquanto o mundo ainda celebrava seu aniversário, o artista já havia organizado sua própria despedida, conduzida com silêncio, rigor e invenção.

Não houve lamento explícito, apenas a certeza de que a arte seguiria falando quando o corpo se calasse. Dez anos depois, Blackstar permanece como aquilo que Bowie sempre foi: um gesto à frente do tempo, um último olhar para o desconhecido, e a prova definitiva de que alguns artistas não morrem, apenas se transformam. Há uma década, Bowie retornava para as estrelas de onde veio.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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