Jornalista. Apaixonado por futebol e política. Foi coordenador de conteúdo no site Radar da Bahia, repórter no portal Primeiro Segundo e colunista nos dois veículos. Atuou como repórter na Superintendência de Comunicação da Prefeitura Municipal de Lauro de Freitas e atualmente é repórter de política no portal bahia.ba.
Dia da Visibilidade Lésbica: Nada de esconder o amor por medo do preconceito
A data, 29 de agosto, reforça o combate à lesbofobia e a invisibilidade das mulheres lésbicas no Brasil

Uma luta que começou há 29 anos e que continua sendo um símbolo de resistência até os dias atuais: o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Celebrado hoje (29), a data marca mais uma etapa na vida de milhares de mulheres gays, que enfrentaram a desconfiança, o receio, a insegurança, o medo e sobretudo, o preconceito, para viverem o que há de melhor: todo o amor que houver nessa vida.
O bahia.ba entrevistou personagens baianas, que contaram suas histórias de vida, superação, enfrentamento e também de muito amor. Chris Oliveira (35), moradora de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), e Daniela Penalva (45), moradora do Acupe de Brotas, na capital baiana, ainda não sabem, mas a vida delas têm coisas em comum. Essa história eu te conto agora.
Orientação sexual: a descoberta
A sexualidade, ainda na infância, é indefinida. No entanto, com o passar do tempo, essa percepção vai ficando mais evidente. É um processo natural e gradual que começa desde cedo. Para Daniela e Cris, essa fase teve início aos 16 e 17 anos, respectivamente.
Se perceber, se entender, se conhecer, até chegar no processo de aceitação. Entre os inúmeros desafios dessa fase, a relação, muitas vezes forçada, com o sexo oposto. “Me entendi lésbica aos 16 anos, já sabia como queria viver o amor e com quem queria me relacionar. Mas entre o saber e o aceitar, existe um caminho que nem sempre é simples. No início, a minha autoaceitação foi complicada. Não queria assumir para mim mesma, porque não entendia. Tentei me encaixar no que diziam ser “certo”: me relacionei com meninos para ter certeza, mas encontrei apenas frustração. Quando finalmente me aceitei, tudo fez sentido”, relatou a jornalista Cris.

O sentimento é compartilhado. O ‘quem sabe ainda sou uma garotinha’ saiu de cena: fez Daniela entender, viver o “proibido” e superá-lo. “Encarei de frente minha sexualidade no ensino médio, com 17 anos, era tudo muito novo, proibido, não se falava muito, não tinha com quem conversar, nem tirar dúvidas. Foi um período bastante desafiador. Com os meus 45 anos, consigo enxergar algumas evoluções conquistadas através de muita luta, mesmo ainda com riscos de violência”, contou Daniela, servidora pública e casada com Mayre Hellen.

Ser lésbica no século 21
O combate à lesbofobia é diário. A sociedade, ainda cega pelo preconceito, dá pausa no conhecimento, se autossabota e negligencia a própria evolução. “Enfrentar a sociedade sendo quem somos não é fácil. O preconceito não é algo distante, ele é diário, dolorido e, sim, criminoso. Muitas vezes se disfarça em olhares, piadas e perguntas “sem ofensa”, mas que ferem. Ainda assim, seguimos. Porque sei que não estamos sozinhas e que cada passo que damos com o peito aberto é também um passo para abrir caminho para outras”, pontuou a jornalista
Uma palavra pode nortear essa evolução: o respeito. Apesar de, ainda há barreiras a serem enfrentadas. “Me sinto algumas vezes como se vivesse numa encruzilhada, pois temos avanços históricos mas também enfrentamos desafios persistentes, com muito mais visibilidade do que no passado, mas ainda enfrentando barreiras sociais e culturais. Ser lésbica no século 21 pode significar mais liberdade, mais espaço de fala e maior possibilidade de viver plenamente. Mas também exige resistência diária contra preconceitos e violência — especialmente para aquelas em contextos sociais mais vulneráveis”, avaliou Daniela.
Família e amigos como alicerces
O apoio dentro de casa que as vezes não vem. O desabafo com amigos que mais parece um grito, que precisa ser ouvido. O amor de ambos os lados como parte essencial para ser feliz. Cris e Daniela têm em comum motivações especiais. Casadas, elas fazem parte do globo e se orgulham disso.
Em seu relato, Cris, que é casada com Thayse e mães do pequeno Mateo, é direta: “existimos sim e resistiremos, sim”. A frase está na legenda em uma de suas dezenas fotos de casamento publicadas em seu perfil no Instagram. Ela explica: “O amor é o que me move. É a minha força, a minha firmeza, a minha coragem. É ele que me lembra todos os dias que vale a pena resistir. O amor derruba muros, vence barreiras e transforma realidades. E é por isso que sigo por nós, pelo nosso filho e por todas as histórias que ainda virão”.

Daniela classifica como privilégio ser cercada pela família e ter ótimas amizades. Ela também reconhece que “muitas pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam o processo de se assumir e viver plenamente em meio ao medo de rejeição, isolamento e até violência, algo que deixa marcas emocionais profundas. “Esse tipo de apoio familiar e de amizade é um privilégio enorme, e não é exagero dizer que ele muda vidas. Meu relacionamento, quem sabe a história, lembra até roteiro de filme, pois minha esposa foi minha primeira namorada, nos perdemos durante um tempo e depois Deus e o destino nos juntou novamente e estamos juntas até hoje, como todo relacionamento que quer dar certo, todos os dias buscamos melhorar uma para a outra, não é fácil, mas o AMOR e a vontade de estar juntas supera tudo”, detalhou Penalva.

Políticas públicas voltadas para mulheres lésbicas
O dia 29 de agosto é uma data importante para refletir, analisar, reivindicar direitos e sobretudo discutir políticas públicas voltadas para as mulheres lésbicas. Cris e Daniela corroboram do mesmo sentimento.
A jornalista afirma que “o governo deixa muito a desejar” quando se trata de políticas voltadas para a mulher lésbica. “Não há campanhas de conscientização, não há ações efetivas de proteção, não há cuidado específico e muito menos políticas estruturadas que nos incluam de forma real. É como se a nossa existência fosse invisível para quem deveria garantir direitos e segurança”, analisou. “No cenário ideal, em um mundo sem preconceito, não precisaríamos lutar todos os dias para provar que merecemos respeito. Haveria igualdade de oportunidades, proteção contra violências, representatividade em todos os espaços de poder e políticas públicas pensadas para todos, porque direitos não têm orientação sexual, têm humanidade”, complementa Oliveira.
Penalva endossou e afirmou que quando se fala em políticas pública para mulheres lésbicas, “ainda existe um grande vazio de políticas públicas direcionadas. “Muitas vezes, elas ficam diluídas em ações para “mulheres” no geral ou para “LGBTQIAPN+” no geral — o que invisibiliza necessidades específicas. O cenário ideal, sendo redundante, é até difícil de idealizar, mas na minha opinião e de muitas mulheres lésbicas seria que a nossa identidade não fosse um fator de risco, que toda nossa energia pudesse ser investida não somente em lutas por reconhecimento, mas que pudéssemos amar sem medo, amar quem quiséssemos sem fazer segredo”, detalhou a servidora.
Recados para o futuro
Oliveira e Penalva deixaram mensagens de apoio para todas as mulheres lésbicas, enaltecendo e reforçando o quando é importante o Dia da Visibilidade para elas. “Às mulheres lésbicas, deixo um recado de força e coragem: nunca desistam de ser quem vocês são. O amor é o lugar onde nos sentimos bem, felizes e curadas. Família é aquela em que encontramos acolhimento, respeito e onde podemos ser inteiras. Resistir é existir, e existir é o nosso maior ato de liberdade”, desejou Cris.
Daniela afirma que “ser lésbica é existir com coragem em um mundo que por muitas vezes tenta apagar nossa voz”. “Nós somos resistência, amor, liberdade e inspiração. Que busquemos e juntemos nossas forças sempre para lutarmos por um mundo mais justo, respeitoso e seguro e igualitário. Que possamos viver em paz e com segurança, em um mundo onde todas as formas de amor possam ser reconhecidas e celebradas. Nós somos necessárias e merecemos viver plenamente e sem medo”, projetou Penalva.
Governo da Bahia no combate à lesbofobia
Em entrevista ao bahia.ba, Augusto Oliveira, Coordenador de Políticas LGBT da SJDH (Secretaria de Justiça e Direitos Humanos), falou sobre a importância da data. “O Dia da Visibilidade Lésbica é uma data de luta e de afirmação, que nos convoca a reconhecer a potência das mulheres lésbicas na construção de uma sociedade mais justa e igualitária”, disse Oliveira.
Para Augusto, a visibilidade lésbica “é um momento de reafirmar o compromisso do Governo da Bahia no enfrentamento à lesbofobia e em defesa dos direitos humanos, garantindo que a diversidade seja respeitada e que a cidadania plena seja realidade para todas”.
“Celebrar esta data é também um chamado à conscientização coletiva, para que possamos construir ambientes livres de preconceito e de violência”, declarou o coordenador.
Mês do Orgulho e da Visibilidade Lésbica
O mês de agosto tem duas das importantes para mulheres lésbicas: o Dia do Orgulho Lésbico, comemorado no dia 19, enquanto no dia 29 de agosto, é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.
19 de agosto
Em 1983, uma manifestação tomou conta do país, após um grupo de mulheres lésbicas serem proibidas de vender um jornal com pautas que remetiam à comunidade feminista e lésbica, no então conhecido “Ferro’s Bar”, local frequentado majoritariamente pelo público LGBTQIAPN+. Essa foi considerada a primeira grande ação de mulheres lésbicas.
29 de agosto
O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica reforça o combate à lesbofobia e a invisibilidade das mulheres lésbicas no Brasil. A data ficou definida como uma luta de resistência em 1996, durante o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), que aconteceu no Rio de Janeiro. Para as mulheres lésbicas, o evento foi um marco na luta por direitos e reconhecimento da comunidade.
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