Publicado em 08/04/2026 às 14h06.

Escola de Tempo Integral gera impacto imediato na rede estadual da Bahia

Da segurança alimentar ao novo currículo, entenda o que pensam estudantes, professores e gestores sobre tempo ampliado para estudar

Raquel Franco
Rebeca (à esquerda), Kauã (centro) e Raquele (à direita) estudam no Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida, no bairro do Imbuí, em Salvador. A unidade é apontada pela SEC como referência em ensino integral na Bahia. Foto: Anna Luiza/bahia.ba

 

A Bahia avança no fortalecimento e expansão da educação integral no estado, contribuindo para um indicador nacional positivo do último Censo Escolar 2025. Os dados divulgados em fevereiro deste ano pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontam progresso no ensino em tempo integral no Brasil, quando o estudante passa no mínimo 35 horas por semana no colégio. 

Essa é uma das notícias boas do estudo, que identificou uma queda alarmante no número de alunos na educação básica, etapa que vai da creche ao ensino fundamental e médio. Foram registradas cerca de 1 milhão a menos de matrículas em comparação ao ano anterior.   

Já os índices nas escolas integrais seguem o caminho oposto, tendo um saldo positivo. Segundo o levantamento, em 2025 foram realizadas 10.143.262 matrículas nas escolas em tempo integral no Brasil, sendo a maioria delas na rede pública. Foram 6.008.437 matriculados em escolas da rede municipal,  2.734.501 em colégios estaduais e 113.342 na rede federal, totalizando 8.856.280 de estudantes matriculados em escolas públicas, enquanto a rede privada matriculou 1.286.982 alunos.

Evolução das matrículas em escolas integrais de ensino médio no Brasil, de 2021 a 2025. Foto: Divulgação/INEP

 

De 2024 a 2025, houveram 923 mil novas matrículas na educação integral pública, sendo 605 mil no ensino fundamental e 130 mil no ensino médio. Dessa forma, o país alcançou parcialmente a meta 6 do atual Plano Nacional de Educação (PNE), que previa o atendimento de, no mínimo, 25% dos alunos da educação básica matriculados em tempo integral.

De acordo com a Secretaria de Educação da Bahia (SEC), 93% dos 417 municípios baianos ofertam educação de tempo integral no estado. Egressa do colégio público e professora da rede estadual, a então titular da pasta, Rowenna Brito (PT), acredita que a gestão de Jerônimo Rodrigues (PT) está fazendo uma “revolução” na educação baiana.

“De fato, ainda tem muita coisa para melhorar. Mas o que a gente avançou em 19 anos é absurdo, inclusive de infraestrutura física”, afirmou Rowenna, dias antes de deixar a SEC para se lançar pré-candidata a deputada estadual.

Rowenna concedeu entrevista enquanto ainda despachava no gabinete da Secretaria de Educação; agora ela é pré-candidata a deputada estadual Foto: André Fofano

 

Dados da SEC indicam que 1.038 escolas e 600 anexos estão espalhadas por toda a Bahia, com cerca de 650 mil estudantes matriculados.

Em 388 cidades da Bahia, a ampliação da permanência do estudante na escola possibilita benefícios que vão muito além do aprendizado e das salas de aula. “Educação integral concebe o sujeito na sua plenitude. O ser humano, o estudante enquanto sujeito, não é só o cognitivo. Então eu não tenho que ensinar só a matemática para ele, mas o corpo dele faz parte, as emoções. A gente concebe o sujeito na sua integralidade”, diz Helaine Souza, superintendente  de Políticas para a Educação Básica da SEC. 

Além de melhorar a formação pedagógica, cultural, esportiva e cidadã das crianças e dos adolescentes, as políticas públicas que fomentam a educação integral delimitam desafios complexos. Alguns deles são:

– Diminuir o abandono escolar;

– Garantir segurança alimentar e nutricional;

– Engajar os alunos na comunidade estudantil; 

– Ocupar a estrutura do colégio junto com a comunidade; 

– Oferecer mais tempo para reforço de português e matemática; 

– Proteger crianças e adolescentes da violência na rua ou na própria casa.

Segundo Rowenna, a escola de tempo integral funciona como uma rede de proteção social, atuando em frentes que vão além do ensino formal para também salvaguardar a integridade física e psicológica dos jovens. As leis e portarias que regem a educação integral no Brasil e na Bahia estabelecem ações para contribuir na redução da vulnerabilidade socioeconômica vivida pelos estudantes.

Proteção contra violência, fome e trabalho infantil

O Programa Baiano de Educação Integral Anísio Teixeira, criado no âmbito da Lei Estadual nº 14.359/2021, estabelece como diretriz o respeito aos direitos humanos e à diversidade, visando a promoção da justiça social. Essa lei também assegura que as unidades de tempo integral terão garantidas as condições financeiras para a alimentação complementar, necessária ao desenvolvimento das atividades escolares. 

Segundo Rowenna, a segurança alimentar é tratada como um compromisso central, com um investimento de 500 milhões de reais. Helaine destaca que a política substituiu a antiga “merenda” por refeições completas que contém carboidratos, proteínas e fibras, muitas vezes com ingredientes da agricultura familiar local. As escolas integrais oferecem cinco refeições diárias: lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, lanche para quem faz oficinas e ceia para o turno noturno. 

Muitos alunos chegam à escola sem ter jantado ou tomado café. “Tem estudante que vai para a escola só para comer… e se ele for só para comer, eu estou satisfeita também, porque ele não vai ficar sem comer”, afirma Rowenna. Segundo ela, diferente do ensino privado, em que os alunos têm suporte familiar, muitos estudantes da rede pública vêm de lares onde os pais estão presos ou são criados por avós, tias e outros familiares em contextos de extrema vulnerabilidade.

Tanto a Lei Federal nº 14.640/2023 quanto a Lei Estadual nº 14.359 determinam que a criação de vagas em tempo integral deve priorizar escolas que atendam estudantes em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica para ampliar a equidade social. Uma das medidas para alcançar esse objetivo é a adoção de critérios nas matrículas para incluir populações quilombolas, indígenas e do campo, frequentemente mais expostas a riscos sociais.

Rowenna defende que a escola deve funcionar como um “lugar acolhedor” e refúgio contra o “universo de convites” e possibilidades perigosas das ruas. O professor Rui Oliveira, coordenador da Associação dos/as Professores/as Licenciados/as do Brasil – Seção Bahia (APLB), considera que quem estuda em tempo integral fica “menos vulnerável ao tráfico” e inserido em um “contexto totalmente protegido”. 

Ao ser questionado se ele ouviu relatos de violência contra estudantes ou perto de escolas localizadas em bairros com presença de facções, ele afirma que “isso é caso de polícia”. “O crime organizado domina os bairros, domina a periferia. Cada facção tem sua lei, sua orientação. Você vê muita gente morrendo, não só em Salvador, como no estado da Bahia”, diz, ao relembrar o caso de dois adolescentes assassinados em Arembepe por uma facção rival ao do bairro que moravam.

O titular da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), Marcelo Werner, afirmou por meio de nota que a pasta atua de forma integrada com a SEC, garantindo ações preventivas, reforço do patrulhamento diário e ações de inteligência em todos os colégios da Bahia. “No ano de 2023, a Ronda Escolar foi transformada em Batalhão, resultando no aumento do efetivo e na ampliação da frota de viaturas, permitindo o atendimento mais célere. A Superintendência de Prevenção à Violência (SPREV) da SSP realiza também ações permanentes nas escolas, buscando sempre aproximação com as crianças e adolescentes”, disse o secretário.

O diretor do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida, Elísio Santos, percebe que passar o dia na escola contribui para diminuir riscos de violência sexual e negligência que ocorrem quando os jovens ficam sozinhos em casa ou na rua por longos períodos. “O estudante que participa das oficinas, a família está segura que ele está na escola desde 7:30 da manhã até 18 horas. Então, provavelmente, quando esse estudante for para casa, já tem algum adulto, um pai ou irmão mais velho que chegou do trabalho”, afirma Elísio. 

Outra preocupação compartilhada pelo diretor é com os estudantes que precisam contribuir no sustento da casa, mas são submetidos à exploração em cargas exaustivas de trabalho e programas de jovem aprendiz inadequados, onde chegam a trabalhar aos domingos ou são impedidos por patrões de participar do Enem. 

A reestruturação do Ensino Médio (Lei nº 14.945/2024) reconhece o “trabalho em seu caráter formativo”, mas exige que qualquer experiência de trabalho remunerado ou estágio seja explicitamente relacionada ao currículo escolar e supervisionada, funcionando como parte do aprendizado. Programas como o Bolsa Presença e o Pé de Meia contribuem para permitir que o jovem permaneça na escola sem a obrigação de assumir o sustento financeiro da família.

De acordo com a Rowenna, para as escolas de educação integral funcionarem, no mínimo três grandes eixos devem estar organizados. “Eu tenho que dar conta de ter uma estrutura física; eu preciso dos profissionais, porque eu tenho que ter professores naquela escola; e eu tenho que ter as políticas, o projeto pedagógico”, diz. 

Colégio Estadual de Tempo Integral Iracy Marlene da Hora Passos em Maracás, centésima escola integral inaugurada na gestão do governador Jerônimo Rodrigues (PT). Foto: Wuiga Rubini/GOVBA

Escolas com estrutura integral

Escolas integrais são projetadas para terem um funcionamento completo. Elas devem oferecer um ambiente seguro que forneça estrutura adequada para os estudantes, professores e funcionários passarem o dia no colégio.“Essa dimensão de infraestrutura e materiais foi o que a gente mais avançou”, aponta Rowenna.

“A gente não tinha prato e garfo para que os estudantes pudessem comer na escola”, afirma, ao relembrar as mudanças que testemunhou durante esses 16 anos de atuação como professora e gestora. Para ela, os novos equipamentos construídos “mudam completamente o paradigma e a dinâmica da educação do Estado da Bahia”.

De acordo com o professor Rui Oliveira, essa é uma bandeira de luta levantada há duas décadas pela categoria. “Não é de agora. Há mais de 20 anos que a gente defende a escola de tempo integral”, diz.

“A escola de tempo integral, falando de estrutura física, é aquela que você tem as condições de desenvolver o intelecto de todo aluno. Escola coberta, climatizada, com quadra poliesportiva, piscina de natação, pista de atletismo, biblioteca, com tudo, onde o menino fica na integralidade o dia todo estudando. Estuda normal e à tarde currículo diversificado, prática esportiva e outras habilitações”, afirma o professor Rui. 

Helaine destaca a importância dos banheiros nas unidades escolares. “As meninas e as pessoas que menstruam precisam de uma segurança de higiene. A escola conta com vestiário com chuveiro para que ela sinta segurança de ficar na escola. Por diversas vezes elas iam para casa para fazer sua higiene íntima. Quantas meninas deixam de ir para a escola no período menstrual? Ter banheiros equipados possibilita que ela fique na escola o mês todo”, diz a superintendente.

Helaine Souza, superintendente  de Políticas para a Educação Básica da SEC, concede entrevista ao bahia.ba durante inauguração do Colégio Estadual de Tempo Integral Dinah Gonçalves, no bairro de Valéria, em Salvador. Foto: Anna Luiza/bahia.ba

 

Apesar da elevação na qualidade da infraestrutura física das escolas, ainda não há equipamentos com o padrão desejado pela gestão estadual em todas as cidades baianas. 

“Eu tenho mapeado e cronometrado, planejado, onde ainda não tem escola desse padrão e onde a gente tem que ter. E o que que a gente tem que fazer para ter. A gente tem hoje aqui esse mapa do estado da Bahia. Onde ainda não tem, onde é que tem que ter, qual é o cronograma para a gente poder ter e o que que precisa fazer”, afirma Rowenna.

Embora a ex-secretária considere que o estado avançou significativamente em infraestrutura, ela admite que a formação continuada ainda é um dos maiores desafios da gestão. “A gente precisa avançar para dar conta de atualizar para esse contexto e esse currículo. As universidades já têm feito esse esforço, mas a gente precisa fazer mais”, diz a chefe da pasta.

Quem educa

Segundo Rowenna, geógrafa formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), toda a equipe da rede está passando por especialização para dar conta do projeto de educação integral. Especificamente para os coordenadores pedagógicos foram abertas 225 vagas de mestrado em 2025. De acordo com ela, esses profissionais precisam estudar continuamente para qualificar a aprendizagem. Para ela, a formação não é apenas um processo burocrático, mas ferramenta necessária para que os professores se sintam seguros e atualizados para aplicar um projeto pedagógico que promova o protagonismo estudantil.

“Tudo na escola é pedagógico”, afirma Sidneia Coelho, coordenadora pedagógica no Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida, no bairro do Imbuí, em Salvador. Ela avalia que a ampliação da carga horária do estudante altera a dinâmica de ensino, que no tempo parcial era mais direcionado aos processos de aprendizagem. “O ponto é atendermos não somente o desenvolvimento intelectual, mas também o emocional, o físico, o social e o cultural. A gente abraça muito mais para desenvolver a integralidade do estudante nesse tempo ampliado que ele tem”, afirma.

“O trabalho da coordenação pedagógica também é de formação contínua. Porque tudo é novo. Quando a gente remodela, a gente precisa se preparar com esse olhar mais apurado para as mudanças”, diz Sidneia.  

Sidneia Coelho, coordenadora pedagógica no Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida. Foto: Anna Luiza/bahia.ba

 

“Para estar na escola pública, professor, coordenador, gestor, tem que ter uma sensibilidade diferente”, afirma Rowenna. Segundo ela, isso é necessário para acolher estudantes que trazem realidades de vida complexas, como famílias em situação de vulnerabilidade ou em privação de liberdade. A coordenadora pedagógica Sidneia relata que uma das  dificuldades relatadas pelos estudantes estão relacionadas ao campo emocional, como ansiedade.

Na perspectiva da então secretária de educação, os principais desafios relacionados ao planejamento do currículo dialogam diretamente com a formação. “O projeto pedagógico é feito pelas pessoas. Se eu tenho profissionais modernizados, antenados, eu consigo botar esse projeto pedagógico com mais energia”, afirma Rowenna. 

Para ela, o conceito básico da formação de professor permanece. Mas o que faz a diferença para envolver e motivar o estudante à continuidade da aprendizagem é a formação continuada do professor para que ele promova trocas proveitosas na sala de aula. 

“A inovação, a criatividade, a coisa da metodologia, da mão na massa, de fazer com eles fazendo. Porque uma coisa é a professora ficar aqui com um caderno, um quadro e um livro. Outra coisa é a professora pegar um kit de robótica para fazer ciências, para dar aula de geografia, despertando a curiosidade. É outra realidade. E a gente precisa dessa formação continuada”, afirma.

Carreira no magistério

Segundo Helaine, a qualificação dos indicadores de educação na Bahia é fruto de um trabalho contínuo aprimorado a cada ano. “Nós temos uma rede majoritariamente de professores concursados, isso dá segurança para o professor trabalhar. Esse caminho que nós fomos pavimentando ao longo dos anos, reverberam resultados e a gente vem colhendo esses resultados”, afirma, ao exemplificar com a melhora nas notas do Enem e ingresso no ensino superior pelo Sisu no estado. 

Para o professor Rui, representante dos professores da Bahia, a classe é contra “qualquer tipo de terceirização e privatização”. “Nós só defendemos concurso público para ingressar na rede estadual. Isso é uma luta da APLB. Concurso público, valorização com plano de carreira, pagamento do piso salarial, acompanhamento social e um plano de saúde que dê conta e garanta a qualidade”, diz.

Projeto pedagógico

Na visão da superintendente Helaine Souza, o projeto pedagógico não é apenas o ensino de disciplinas básicas, mas deve refletir o compromisso com a justiça social, o acolhimento das vulnerabilidades e a preparação técnica e emocional para que o jovem baiano possa “sonhar e alcançar seus sonhos”. Ela explica que existem diferenças entre o “ensino em tempo integral”, que amplia o tempo na escola, da “educação integral”, que compreende o todo do estudante, trabalhando o cognitivo, o físico e o emocional do sujeito. “A gente defende que a educação em tempo integral favorece a educação integral. Mais tempo na escola, mais tempo para se desenvolver”, diz.

Elísio Santos, diretor do Colégio Estadual Prof. Rômulo Almeida, apontado pela SEC como referência na oferta do ensino integral na Bahia, reconhece que a elaboração do projeto pedagógico em coletivo contribui para encontrar estratégias eficazes. Uma das maneiras de reduzir a sobrecarga dos alunos foi distribuir mais de uma matéria por mestre. Dessa forma, é possível melhorar o aprendizado e estimular a permanência dos estudantes na escola. 

Elísio Santos, biólogo e diretor do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida. Foto: Anna Luiza/bahia.ba

 

“O professor, por exemplo, dava a aula de história e de pertencimento e identidade étnico-racial. O mesmo professor com dois componentes. Então o estudante passou a dar conta de menos professores. Acredito que isso fez com que dessas 10 turmas [da modalidade integral], se mantivessem nove de um ano para o outro”, afirma o diretor. “A organização da carga horária do professor é facilitada quando a gestão escolar é atenta para essas questões”, diz a superintendente Helaine.

“A coordenação pedagógica em qualquer espaço educacional é importante. A educação integral tem sua relevância nesse trabalho junto aos professores, porque ninguém trabalha só. A gente é uma equipe e essa equipe precisa estar ali caminhando junto, alinhando, tendo metas. Isso a gente tem feito. Nós temos buscado cooperação entre os professores, os estudantes e as famílias. É um trabalho muito amplo, que vai para além desse espaço da sala de coordenação e da sala de aula”, afirma a coordenadora pedagógica Sidneia.

Incentivo à permanência nos estudos

“A melhor coisa é quando a gente escuta que o estudante deixou de trabalhar para ficar na escola, porque criança não é para trabalhar, criança é para estudar. Então, quando eu escuto isso, eu tenho certeza que a política pública está funcionando”, declara Rowenna. De acordo com a petista, pesquisas do IBGE apontam que 97% dos jovens baianos de 15 a 17 anos permanecem na escola, um índice que ela liga diretamente ao impacto desses auxílios.

Rowenna classifica como “irresponsável” e “leviana” a crítica de quem diz que o Estado está “pagando para o aluno estudar”, pois entende que, sem esse suporte, as famílias em vulnerabilidade são forçadas a retirar o jovem da sala de aula para complementar a renda doméstica. 

Segundo Helaine Souza, essa política representa um “salto de qualidade impensável” que livra o estudante de assumir o sustento da família precocemente. Ela explica que o Pé-de-Meia preenche uma lacuna em uma etapa que era historicamente desassistida, permitindo que o jovem que conclui o 9º ano vislumbre o Ensino Médio como uma possibilidade real de futuro e não como um impedimento ao trabalho.

Conforme informações da SEC, o programa não impõe limite de estudantes beneficiados por casa, desde que correspondam aos requisitos, como a inscrição no CadÚnico e a frequência escolar.

Atualmente, o Bolsa Presença beneficia 366.821 estudantes da rede estadual. Cada família beneficiária recebe R$ 150 mensais, com um acréscimo de R$ 50 por estudante, a partir do segundo aluno matriculado e assíduo. Os valores são depositados rigorosamente todo dia 15.

Pé de Meia

Helaine Souza destaca que o programa federal Pé-de-Meia veio para assistir o Ensino Médio, uma etapa que historicamente era desassistida. Para ela, isso ajuda o estudante a vislumbrar a conclusão desta fase como uma meta real. O programa completou dois anos na última quarta-feira (1º). Na Bahia, o programa alcança 367.685 estudantes ao todo, sendo 333.939 do Ensino Médio e 33.696 da Educação para Jovens e Adultos (EJA).

Ao final do Ensino Médio, cada estudante recebe um total de R$ 9.200. Os pagamentos anuais são feitos da seguinte forma:

– Ensino Médio: 9 parcelas de R$ 200 + R$ 200 pela matrícula;

EJA: 8 parcelas de R$ 225 + R$ 200 pela matrícula;

Incentivo ENEM: Um valor extra de R$ 200 para estudantes do 3º ano que realizarem os dois dias de prova.

Para Rowenna, o objetivo final é assegurar que o estudante “fique mais tempo na escola e dali saia pronto para ir para a universidade”, rompendo o ciclo de pobreza através do conhecimento.

Educa Mais Bahia

O Educa Mais Bahia é uma estratégia governamental criada para induzir e qualificar a educação integral em tempo integral na rede pública estadual da Bahia. Instituído pela Portaria nº 1.475/2022, ele funciona como um braço operacional do Programa Baiano de Educação Integral Anísio Teixeira, focando na implementação de oficinas educativas com acompanhamento pedagógico.

As atividades abrangem diversas áreas, como investigação científica, artes, esportes, cultura digital, educação financeira, direitos humanos, educação ambiental e promoção da saúde. Todas as oficinas devem ser contextualizadas com o território de vivência e o projeto de vida dos estudantes.O programa busca articular as oficinas com os componentes curriculares tradicionais e outros projetos da SEC, como monitorias de língua portuguesa e matemática.

Além do espaço escolar, as atividades podem ocorrer em centros comunitários, bibliotecas, museus ou praças públicas, sob orientação pedagógica e por meio de parcerias.

As oficinas são conduzidas por voluntários cadastrados na plataforma “Bahia Estado Voluntário” e recebem um ressarcimento mensal de R$ 1.100 por oficina para custear despesas de transporte e alimentação. A prioridade é dada a escolas em áreas de alta vulnerabilidade social, municípios com baixo IDH, ou unidades que sejam a única oferta escolar do município.

“O Educa Mais Bahia, além de estar atrelado uma atividade lúdica, uma atividade de esportes ou de arte e cultura ligado ao trabalho pedagógico da escola, ele também é aquelas 2 horas a mais que o estudante vai estar seguro, não vai estar na rua”, afirma o diretor do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida. 

Rebeca, estudante do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida, no bairro do Imbuí, em Salvador. Foto: Anna Luiza/bahia.ba

 

“Eu participava ano passado do vôlei. Esse ano o ensino nos proporciona o boxe, a defesa pessoal que mulheres hoje em dia estão precisando muito” afirma Rebeca, estudante do terceiro ano. “A gente sai daqui [da escola], a gente sabe como é que está a cidade. Então acho bastante essencial a gente saber se defender”, diz Raquele.”Eu acho bastante importante, porque ali os alunos se interessam mais. 

“Também tem os esportes: futsal, basquete, capoeira e oficinas de matemática para pessoas que têm dificuldade. Tudo logo após a nossa carga horária normal de aula. Na verdade, a melhor parte que chegava era a hora do vôlei. Meus pais não ficam muito tempo em casa, então sempre que eu saía daqui eram umas 6 horas, já encontrava todo mundo em casa. Na maioria das vezes até encontrava minha mãe no ponto para irmos juntas. Era algo mais legal de fazer do que chegar e não ter ninguém em casa”, diz.

O Educa Mais Bahia utiliza o engajamento da comunidade e de voluntários para expandir o tempo pedagógico e oferecer uma formação multidimensional aos estudantes baianos.

Modelo de escola integral na Bahia

O Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida é descrito pela sua comunidade como um espaço de transformação social, segurança e excelência de ensino. A escola fundada em março de 1989 teve no seu corpo estudantil quem agora dirige a unidade, o professor Elísio. Ele foi aluno na época em que era ofertada a formação técnica em contabilidade. 

Em 2021, o colégio passou por uma unificação de duas escolas estaduais lacalizadas em terrenos vizinhos, resultando em um novo prédio moderno, reaberto em outubro de 2022. Elísio relata que os professores começaram a se preparar. “As equipes de gestão e de coordenação se debruçaram para estudar como é que funcionava. Análise de de matriz curricular, de de ementas dos componentes. Muitos acertos, alguns erros sim, e a gente ia corrigindo. Hoje a gente já está com expertise na oferta dessa modalidade de ensino.” 

Em 2023 a primeira matrícula na nova unidade já foi na educação integral.  Naquele ano, de sete turmas iniciais, quatro concluíram o modelo integral. O índice de permanência melhorou significativamente em 2024, quando nove de dez turmas se mantiveram. Segundo o diretor, o sucesso se deve à adequação do quadro de professores, garantindo que os docentes tivessem afinidade com os componentes curriculares e os estudantes lidassem com menos professores diferentes. 

O diretor comemora os resultados expressivos. Entre os 160 formados em 2025, mais de 90 foram aprovados em universidades públicas e quase 30 no ProUni. “Muitos aprovados na licenciatura foi que o que a gente ficou bem envaidecido, porque os estudantes estão acreditando na educação, ser profissionais que podem transformar a vida de outros jovens”, diz Elísio.

A partir de 2026, o colégio passa a ofertar turmas exclusivamente de tempo integral e educação profissional, mantendo convênios com órgãos públicos e empresas. Um deles é em parceria com o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), onde alunos do curso técnico em Meio Ambiente da escola atuam como jovem aprendiz.

Atualmente, a escola atende 1.400 estudantes, 800 no integral. Os alunos são oriundos de diversos bairros de Salvador, como Pirajá, Itinga e Subúrbio. De acordo com o diretor, o que atrai matrículas para instituição é o histórico de sucesso e a logística facilitada pela proximidade com a estação do metrô. Cerca de 250 estudantes do colégio participam das oficinas do Educa Mais Bahia. 

Segundo Elísio, a evasão escolar está abaixo de 10% e o colégio realiza busca ativa para os casos de não comparecimento. O quadro funcional é composto pela diretoria, com o diretor e duas vices, quatro coordenadores, 60 funcionários de apoio e 12 manipuladores de alimentos. Na unidade são oferecidas cinco refeições diárias, incluindo lanches para quem faz oficinas e ceia para o turno noturno. 

Os estudantes do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida descrevem a transição do ensino parcial para o integral como “maravilhosa” e uma “experiência de vida”. Eles acreditam que o modelo integral fortalece a formação para o mercado de trabalho e para a o exercício da cidadania.

Raquele, estudante do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida, no bairro do Imbuí, em Salvador. Foto: Anna Luiza/bahia.ba

 

Raquele, presidente do Grêmio Estudantil Carlos Marighella, descreve a mudança do ensino parcial para o integral como uma surpresa positiva que permitiu laços mais fortes com professores e amigos. “Quando eu cheguei aqui, foi uma mudança repentina. Eu acabei gostando muito do ensino integral… foi uma experiência que eu precisava, sabe, de vida”, afirma. Ela relata que, embora o número de matérias tenha saltado de 10 para mais de 20, a transição foi tranquila graças aos professores. 

“Está sendo maravilhoso. O ensino de tempo integral é muito bom para nós, agrega demais na vida do estudante”, diz Kauan. Ele elogia as aulas de empreendedorismo e iniciação científica, além de sua disciplina favorita, biologia. “Me sinto seguro aqui dentro. Aqui é uma escola maravilhosa, ótima”, conclui. 

“Eu acredito que o ensino integral proporciona que o aluno aprenda com mais tranquilidade e mais profundidade as matérias ao decorrer do ano”, diz Rebeca. Ela rebate a ideia de que a escola integral atrapalha a vida de quem precisa trabalhar, defendendo que o modelo oferece ferramentas para o futuro. “Nós temos aulas de empreendedorismo para aprender sobre como manusear ou até mesmo como investir na nossa própria empresa futuramente”, afirma.

Kauã, estudante do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida, no bairro do Imbuí, em Salvador.Foto: Anna Luiza/bahia.ba

 

Os futuros egressos do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida já fazem o Enem e têm seus objetivos delineados. Kauan se interessa pelo curso de jornalismo; Raquele pretende estudar ciências da computação na UFBA e Rebeca quer cursar psicologia em uma universidade federal

Linha do tempo na lei

Na Bahia, a institucionalização da educação integral ocorreu oficialmente em 2014, com a publicação da Portaria Estadual nº 249/2014, que criou o Programa de Educação Integral da Bahia. Seis anos depois, em 26 de agosto de 2021, é instituído o Programa Baiano de Educação Integral Anísio Teixeira (Lei Estadual nº 14.359), com objetivo de elevar os níveis de aprendizagem e fortalecer o desenvolvimento humano e social, definindo a jornada de tempo integral como o mínimo de 1.400 horas anuais.

“A gente já era o estado mais revolucionário, porque a educação integral nasceu aqui na Bahia com Anísio Teixeira. [Ele] foi o grande embrião da educação integral”, afirma Rowenna. O educador baiano foi responsável por conceber a escola pública como ela é hoje: gratuita, laica e para todos. Rowenna explica que na perspectiva de Anísio Teixeira, a educação integral visava formar os estudantes e a população para oficinas e ofícios em escolas no entorno do bairro. A comunidade frequentava as atividades formativas, como panificação e pintura, no turno da tarde.

Nas escolas integrais, as oficinas educativas são regulamentadas pelo Educa Mais Bahia, instituído por meio da portaria nº 1.475 de 2022. No mesmo ano, a portaria nº 55/2022 reorganizou a educação infantil e o ensino fundamental, estabelecendo matrizes curriculares específicas para o tempo integral de 7h e 8h diárias, incluindo componentes da parte diversificada como educação científica e práticas integradoras. 

Em 2023 o Governo Federal institui o Programa Escola em Tempo Integral. A Lei nº 14.640 define matrículas em tempo integral como aquelas em que o estudante permanece na escola por tempo igual ou superior a 7 horas diárias ou 35 horas semanais. Ela autoriza a transferência de recursos para estados e municípios para o fomento dessas novas matrículas. 

Um ano depois, é sancionada a Lei Federal nº 14.945, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e define novas regras para o Ensino Médio. Entre as mudanças, está a ampliação progressiva da carga horária mínima anual para 1.400 horas. A lei também prioriza o fomento de matrículas de tempo integral articuladas com a educação profissional e tecnológica.

Para entrar em consonância com a nova lei federal, o governo da Bahia publica a portaria nº 77 em janeiro de 2025, que entre as mudanças estabelece cargas horárias distintas para itinerários formativos em tempo parcial e integral. A portaria nº 129/2025 adequa as diretrizes para a Educação Profissional e Tecnológica (EPTNM) ao novo regime de tempo integral e à reestruturação do Ensino Médio. 

Os itinerários formativos transdisciplinares para educação escolar indígena, quilombola, do campo, dos Complexos Integrados (CIEB) e dos Colégios da Polícia Militar (CPM) na Bahia são definidos pela portaria nº 124/2025. Ela estabelece o respeito às especificidades de cada comunidade e modalidade de ensino, incluindo componentes como, por exemplo: língua indígena, etnomatemática, saberes tradicionais, questão agrária, agroecologia, estudos culturais militares, educação digital e história da Bahia.

Mas só as diretrizes colocadas no papel não fazem todo o trabalho. As metas definidas pelas políticas de educação integral trazem um leque de finalidades que necessitam de estrutura, acompanhamento, planejamento e gestão eficaz para serem alcançadas.

Professor governador

Engenheiro agrônomo pela UFBA, Jerônimo Rodrigues é professor licenciado do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas (DCIS) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) desde 1995. Aos 61 anos, ele é o primeiro governador autodeclarado indígena do Brasil. O terceiro petista à frente do Executivo baiano está consolidando as políticas públicas de educação integral na Bahia. Elas começaram a ser institucionalizadas durante a gestão do ex-governador e senador Jaques Wagner (PT-BA), passando por avanços durante o governo de Rui Costa (PT), quando Jerônimo foi secretário de Educação.

Governador da Bahia Jerônimo Rodrigues (PT) na inauguração do Colégio Estadual de Tempo Integral Iracy Marlene da Hora Passos em Maracás, centésima escola integral entregue na sua gestão. Foto: Wuiga Rubini/GOVBA

 

Para Rui Oliveira, da APLB, ter um governador oriundo da educação ajuda na compreensão da pauta e melhora o diálogo, mas não é o fator decisivo. “O determinante é a força política de quem quer melhorar a educação na Bahia e no Brasil. Isso passa pelo governo Lula. Porque você sozinho não vai fazer. Mas tendo a compreensão e o apoio do governo federal comprometido com a educação, isso vai melhorar sensivelmente a educação na Bahia”, diz.

“A Bahia acertou muito quando escolheu o governador Jerônimo, porque ele é um governador que é professor, foi secretário daqui, tem uma sensibilidade incrível”, afirma Rowenna. Ela atribui o avanço na educação integral no estado a uma decisão do governador e do seu grupo político de investir na área. 

No dia 22 de junho de 2024, após um ano e meio à frente do governo, Jerônimo inaugurou a escola integral de número 50, construída do zero em Esplanada, litoral norte do estado. Menos de dois anos depois, em 21 de janeiro de 2026, a centésima escola foi aberta em Maracás, município do sudoeste da Bahia.

“A educação é a única ferramenta capaz de transformar a vida das pessoas. Ter o governador ajuda a gente porque ele provoca, ele entende que precisa ter orçamento. Se não tiver orçamento, não adianta”, diz Rowenna, ao relatar que Jerônimo conhece profundamente a educação na Bahia e tem disposição para construir junto. “Ter esse governador acessível, que conversa, que abraça, que toca, que sabe da responsabilidade, faz a diferença para a gente chegar onde está hoje e para avançar ainda mais”, afirma.

Raquel Franco
Natural de Brasília, formou-se em produção em comunicação e cultura e em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Também é fotógrafa formada pelo Labfoto. Foi trainee de jornalismo ambiental na Folha de S.Paulo.

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