Graduada e mestre em Relações Internacionais, com foco em Geopolítica; tem experiência em análises conjunturais para diversos institutos de pesquisa da PUC MINAS, Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade de Groningen, na Holanda; já trabalhou na pesquisa e redação de clippings e notícias para a base de dados CoPeSe, parceria com o programa de Voluntariado das Nações Unidas.
Representatividade lésbica nas telas de Salvador: conheça o Cineclube Violeta
Iniciativa itinerante promove acolhimento e diversidade dentro e fora das telas.

O Cineclube Violeta nasceu a partir de um incômodo: a falta de visibilidade dos filmes nacionais voltados para as experiências lésbicas, bissexuais e trans (LBT). Apesar de haver uma produção significativa no Brasil, muitas dessas obras não chegam às mostras e festivais de cinema.
Foi a partir dessa percepção que Bruna Castro e Diana Reis, idealizadoras do projeto, contaram como surgiu a ideia de criar um cineclube itinerante com esse recorte em Salvador.
Em entrevista concedida ao bahia.ba, Bruna e Diana comentaram que o Cineclube tem raízes na trajetória acadêmica das duas na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde participavam de um grupo de pesquisa em cinema queer. Ao lado das colegas Naira e Naiadja, hoje curadoras do Cineclube, perceberam a urgência de criar um espaço de difusão dessas produções e, ao mesmo tempo, de encontro para pessoas que buscavam se ver representadas nas telas e discutir novas perspectivas sobre o cinema LBT.
A consolidação do projeto ganhou força com os editais de incentivo à cultura na Bahia, como a Lei Paulo Gustavo. Desde então, o Cineclube Violeta tem realizado sessões em diferentes cinemas de Salvador, como o Cine Glauber Rocha, o Cinema do Museu Geológico da Bahia e o Cinema do Shopping Paseo. Mas sua atuação vai além das salas tradicionais: já promoveu exibições na Faculdade de Comunicação da UFBA, na Penitenciária Lemos de Brito e na Universidade Federal do Recôncavo Baiano, expandindo o acesso ao público mais diverso possível.
Cinema como espaço de reconhecimento e troca
Para Bruna Castro, o cinema não é apenas objeto de pesquisa, mas um espaço potente de conversa, debate e reflexão. Para além disso, a tela “é um espaço de reconhecimento de si através do outro”, afirma.
Diana Reis acrescenta que o cinema cumpre papel central na formação do imaginário social e nacional sobre os mais diversos temas. E é exatamente por causa disso que as idealizadoras enfatizam a importância de valorizar as produções locais. Para elas, ver Salvador representada nas telas, com suas ruas e cenários cotidianos, é fundamental em um contexto dominado por produções internacionais de grandes streamings, que pouco dialogam com a realidade brasileira e baiana.
A curadoria do Cineclube é pensada de forma intencional, de forma a fazer com que o espectador se veja na tela. Há um esforço de trazer narrativas que rompem com narrativas já saturadas, como aquelas centradas apenas na saída do armário ou em histórias de preconceito e dor. Bruna e Diana defendem que a curadoria deve refletir a diversidade de corpos, temas e vivências, abordando dimensões que vão além das relações românticas e/ou sexuais: “A questão da orientação sexual passa também por outros aspectos além dos nossos comportamentos sexuais. São posicionamentos políticos, acima de tudo” afirma Bruna.
A proposta do projeto é ampliar a representação das vivências LBT, abordando temas como família, amizade, cotidiano, trabalho e afetos diversos.
As idealizadoras ressaltam que a produção LBT no Brasil tem crescido, impulsionada por mobilizações sociais que também ampliam o debate sobre raça, religião, etarismo e sexualidade, temas historicamente sub-representados no cinema nacional. Ainda assim, dentro do nicho do cinema queer, Bruna e Diana comentam que a representação da sexualidade feminina (seja lésbica, bissexual ou trans) ainda enfrenta uma disputa desigual por espaço.
Segundo as responsáveis, a curadoria do Cineclube Violeta busca justamente trazer filmes que se contrapõem às estruturas da heteronormatividade, do patriarcado e do capitalismo, que historicamente invisibilizam essas vivências.
Como explica Bruna Castro, “os corpos masculinos, fálicos, chegam mais rápido aos espaços por conta do privilégio”. Elas explicam que a sexualidade feminina, por muito tempo foi apagada, marginalizada ou reduzida a um lugar de fetiche.
Nesse contexto, a realização de longas-metragens produzidos por mulheres ainda enfrenta uma lacuna significativa, especialmente em Salvador. No cenário brasileiro, embora existam longas sobre vivências LBT, muitos foram dirigidos por homens e acabaram reforçando estereótipos ou representações tipificadas. Assim, o Cineclube Violeta surge como uma janela para ampliar a visibilidade e afirmar essas narrativas no campo audiovisual.
Recepção, lacunas e dificuldades
A resposta do público ao Cineclube Violeta tem sido bastante positiva. No primeiro ciclo de mostras, as sessões têm atraído espectadores frequentes, que veem no espaço um ambiente seguro e acolhedor, a ponto de muitas pessoas irem sozinhas às exibições. As idealizadoras perceberam, então, que havia em Salvador uma carência de espaços nos quais mulheres lésbicas, bissexuais e trans pudessem se reconhecer nas telas: se amando, vivendo, trabalhando e compartilhando experiências para além de narrativas estritamente românticas. Esse sentimento de identificação reforça a ideia de que representatividade importa e da importância de haver espaços que promovam essa vivência.
Mas o caminho também trouxe à tona certos desafios. As entrevistadas percebem que ainda há uma resistência do brasileiro em assistir o cinema nacional, com uma preferência consolidada por produções estrangeiras. Além disso, observam que os curta-metragens (gênero que compõe boa parte da curadoria) ainda sofrem preconceito, sendo muitas vezes estereotipado como menos capazes de provocar impacto ou profundidade em comparação aos longas. Soma-se a isso a dificuldade de acesso: muitas vezes, o público interessado tem dificuldade de acessar essas produções.
Por fim, Bruna e Diana relatam que espaços mais institucionalizados nem sempre se mostram receptivos às propostas do projeto.
Novos ciclos e expansão
A quantidade de produções audiovisuais LBT é tamanha que a curadoria do segundo ciclo do Cineclube Violeta (cuja primeira sessão acontece nesta sexta-feira (29), às 19h, no Cine Glauber Rocha) não foi tarefa simples. Nesta data, serão exibidos cinco curtas-metragens, e as organizadoras enxergam que a curadoria de cinco em meio a uma grande gama de opções foi ao mesmo tempo um desafio, mas também um estímulo para a continuidade do projeto.
Para este novo ciclo, o objetivo é ampliar ainda mais o alcance do CineClube, os debates e a visibilidade LBT, levando o projeto a escolas, oficinas e, futuramente, a outras cidades da Bahia. A proposta é consolidar o CineClube Violeta como um espaço permanente de reflexão, pertencimento e visibilidade para as narrativas lésbicas, bissexuais e trans.
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