Publicado em 11/04/2016 às 06h20.

Depois da chuva

A pergunta que não quer calar: o que vai acontecer, após o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff?...

Marcos Sampaio
brasil day after
Foto ilustrativa

 

“Depois da Chuva”, filme que Takashi Koizumi, ex-assistente de Akira Kurosawa, rodou a partir de roteiro herdado do mestre, poderia ser simplesmente a história da adequação de um homem às circunstâncias impostas pela vida, mas vai muito além. O filme mostra a luta de um guerreiro budista, contando como ele consegue vencer as dificuldades sem abandonar os princípios éticos em um mundo marcado pelo materialismo e pela ignorância

A dificuldade de superar a inundação provocada pela enchente que tanto prejudica a sociedade traz para o enredo do filme o inconveniente da chuva, a necessidade de encontrar meios de manutenção da sobrevivência durante seu período e, após, o encontrar de um novo modo de viver, para o bem de todos. Simbolicamente, a história ensina muito para todos nós.

O roteiro reproduz o pensamento oriental, ao mostrar que não se pode compreender vitórias e derrotas como conceitos isolados, porque o curso da vida é muito mais complexo e profundo do que nossas percepções apresentam.  E é exatamente assim que vivemos os dias atuais, com a visão encurtada pela força da chuva que não permite enxergar o horizonte e nem saber qual será a consequência do temporal.

A pergunta que todos estão fazendo, neste momento, é sobre o que vai acontecer após o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Se a Câmara dos Deputados não acolher o pedido, quais as condições políticas que a presidente terá para concluir o mandato e que tipo de política social e econômica poderá executar, num país fragmentado. Na outra hipótese, se afastada pelo impedimento, qual será a condição de governabilidade do vice-presidente, ou de quem vier depois, em que bases se poderá reordenar o país.

 

A tempestade atual exige de cada

brasileiro um esforço de samurai

 

Ninguém pode prever o resultado social que será produzido a partir da decisão tomada nos processos políticos vivenciados no Brasil, mas já sabemos que, para o bem do país, não poderão existir vencedores nem derrotados, mas apenas brasileiros que precisarão aprender a reconstruir um pacto de tolerância e convivência, sem ódio e sem radicalismos.

Após a guerra civil americana, sepultada a tentativa de separação dos EUA, quando perguntaram a Abraham Lincoln o que se deveria fazer com os prisioneiros derrotados na guerra, ele foi enfático: libertá-los imediatamente porque se existirem prisioneiros derrotados então a nação continua dividida e foi exatamente pelo oposto que lutamos.

Assim, como se espera da sociedade tolerância, exige-se dos políticos um esforço de reconstrução de um diálogo em prol de todos e não de seus mesquinhos interesses políticos. Sem isto, perderão por completo a capacidade de falar pelo povo.

Essa tempestade atual exige de cada brasileiro um esforço de samurai. Mas agora de um guerreiro flexível que, sem abrir mão de princípios, lute pela reconciliação nacional e pelo futuro de nosso país. Afinal, como Kurosawa nos ensina “depois da chuva, não importando o quanto ela demore, sempre surgirá mais uma vez o sol”.

 

Marcos Sampaio

Marcos Sampaio é advogado, procurador do Estado da Bahia, professor da Faculdade Bahiana de Direito e da Faculdade de Direito da Unifacs.

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