Publicado em 30/11/2019 às 14h18.

Nestes tempos do português que vira inglês, Black Friday vende até túmulo

De resto, para ficar no clima, cheira a bad omen (mau agouro)

Levi Vasconcelos
Foto: Reprodução/O Globo
Foto: Reprodução/O Globo

 

Desde que o nosso saudoso cachorro quente virou hot dog; concurso de beleza, eleição de miss e beldades; desfiles de moda, top model; lá bem atrás, no paleolítico da internet, a mania brasileira de injetar o inglês no português já era notável. Nos últimos tempos, na era da chamada sociedade em rede, disparou.

Desenho virou design, academia, fitness; cantina, delivery; alinhamento de regras, compliance; iniciativas em geral, startup; e por aí se vai… E eis que agora entra em cena a Black Friday, nada mais que sempre conhecemos aqui como um feirão, antes chamado liquidação.

Bad omen

A Black Friday é nova. Começou nos EUA, mais precisamente na Filadélfia, nos anos 90. Era o dia seguinte ao feriado lá de Ação de Graças, que marcava o início das compras natalinas, com descontos generosos, aqui no Brasil importada há 10 anos justamente no fim de novembro, quando o povão recebe a primeira parcela do 13º salário. Vá lá. Com a tintagem gringa, se oferta de tudo com descontos, num mix que inclui motéis, transações de moedas como o dólar, o euro e a libra, e até caranguejo nas barracas a beira mar.

Mas 2019 veio com uma novidade funesta: cemitérios oferecendo 30% de descontos para túmulos e 50% em cremação, como em Belo Horizonte, com todo respeito ao direito do livre comércio, estampa as intenções comerciais da indústria da morte. De resto, para ficar no clima, cheira a bad omen (mau agouro).

Levi Vasconcelos

Levi Vasconcelos é jornalista político, diretor de jornalismo do Bahia.ba e colunista de A Tarde.

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