Publicado em 17/11/2015 às 17h39.

Irmandade do Rosário dos Pretos, mais de três séculos de resistência

Assembleia Legislativa se une às homenagens pelos 330 anos de fundação da Ordem

Elieser Cesar
Membros da Irmandade durante homenagem na ALBA Foto: Divulgação
Membros da Irmandade durante homenagem na ALBA Foto: Divulgação

 

O respeito que a instituição secular merece se impõe pela pompa do próprio nome, pronunciado com unção pelos devotos ao longo de pouco mais de três séculos: Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora às Portas do Carmo – Irmandade dos Homens Pretos. A instituição que completou 330 anos de uma história de fé, devoção e resistência foi homenageada, nesta terça-feira, pela Assembleia Legislativa (ALBA), em audiência pública solicitada pelo deputado Bira Coroa (PT). Vestidos com as cores branca e preta da Ordem, os devotos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, lembraram  uma trajetória de vida que se confunde com a própria luta contra a escravidão no Brasil.

“A história da Ordem marca também o começo das lutas sociais na Bahia, pois dela vieram o Montepio dos Artistas, a primeira previdência social do Brasil, e a Sociedade Protetora dos Desvalidos, que lutou pela libertação dos escravos, comprando muitas alforrias”, explicou o vice-prior da instituição, Adonai Passos Ribeiro. Segundo ele, a história da Ordem se inicia em 1604 quando os escravos vindos da África solicitaram do rei de Portugal um espaço para construir uma igreja, já que enfrentavam grandes dificuldades para serem aceitos nos templos católicos da Bahia, frequentados pela Casa Grande.

A permissão foi concedida e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo começou a ser erguida em 1644.   Porém, somente em 1695, há 330 anos, portanto, a Irmandade foi reconhecida por bula papal, com o nome de Venerável Ordem Terceira da Mãe Santíssima e Soberana Senhora do Monte do Carmo. Em 1731, a igreja, em estilo barroco, foi reformada. Em 1778, um incêndio destruiu quase todas as peças do templo, sobrando as imagens  de N. Sra. do Carmo e as componentes do grupo da Paixão de Cristo. Entre 1815 e 1817, foi executada a pintura da nave de autoria do José Teófilo de Jesus.

Hoje, a instituição conta com 180 Irmãos Pretos e Irmãs Pretas e vem renovando seus quadros com os filhos de devotos da irmandade que passam por um processo de noviciado que dura um ano. O deputado Bira Coroa, proponente da audiência pública, disse que o evento representou o reconhecimento público “a uma instituição que, durante 330 anos, lutou, como vem lutando, pela construção da fraternidade, da igualdade e pelo combate a todas as formas de racismo e de descriminação racial”.