Por que ser ‘normal’ se você pode ser ‘feliz’?
Desde os tempos mais remotos, o ser humano pensa sobre a felicidade e existe muita confusão nessa jornada.

Outro dia eu estava fazendo uma apresentação sobre felicidade, e, quando terminei, uma psicóloga me procurou para fazer um comentário: “Adriana, você não acha complicado ficar por ai pregando um culto à felicidade e distribuindo senhas de angústia? Nem todo mundo está preparado para ser feliz. Eu, sinceramente, sou contra essa tirania pela felicidade.”
Era uma mulher inteligente e informada, com uma visão bem diferente da minha. Conversamos um pouco, pois eu queria entender melhor os seus argumentos. Afinal de contas, eu decidi trabalhar com a felicidade pelo resto da minha vida, ajudando pessoas a conhecer melhor as descobertas dessa nova ciência e como podem aplicar tudo isso em suas vidas, seja pessoal ou profissional, para que possam ser cada vez mais felizes e realizadas.
A verdade é que, desde os tempos mais remotos, o ser humano pensa sobre a felicidade e existe muita confusão nessa jornada. Para uns, ser feliz é tudo o que buscam na vida. Para outros, a felicidade não existe. Para muitos, viver é sofrer, enquanto que para os mais hedonistas, viver é ter prazer, curtir a vida, aproveitar o “aqui e agora”. Tem os que acham que felicidade é trabalhar com o que gosta, outros necessitam de um propósito maior. São muitos diferentes entendimentos para uma só palavra, que no final, compreende o objetivo maior da nossa existência, o que resignifica todos os nossos outros valores.
A referência filosófica mais antiga que existe sobre “felicidade” é de Tales de Mileto, filósofo grego que viveu nas últimas décadas do séc. 7 a.C. Segundo ele, “é feliz quem tem corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada”. O pensamento grego antigo tinha uma visão pessimista da existência humana e defendia que só quem tivesse “boa sorte” poderia ser feliz. Não foi por acaso que os gregos inventaram a tragédia. Demócrito de Abdera, filósofo que viveu 460 a.C., rompeu com essa visão e procurou estabelecer orientações para que o homem procurasse a felicidade, afirmando que a felicidade era “a medida do prazer e a proporção da vida”.
Foi Sócrates, alguns anos depois, que deu novo rumo à ideia de felicidade, afirmando que esta não se relacionava apenas à satisfação dos desejos do corpo, mas, principalmente, aos da alma, que só podiam ser atingidos por meio de uma conduta virtuosa e justa. Em seguida tivemos o grande Aristóteles, filósofo que dedicou todo um livro à questão da felicidade: a “Ética a Nicômaco” (escrito em homenagem a seu filho), reconhecendo a necessidade de elementos básicos como a boa saúde, a liberdade e uma boa situação socioeconômica, para ser feliz. Aristóteles concluiu ainda que a felicidade estava diretamente relacionada ao intelecto, uma vez que o ser humano é dotado de uma “alma racional”.
Foi no império de Alexandre o Grande, que os filósofos chegaram à conclusão de que, para ser feliz, o homem deveria ser autossuficiente e desenvolver uma atitude de indiferença em relação a tudo ao seu redor. Entre esses filósofos, podemos citar Epicuro, cuja filosofia também é conhecida pelo nome de hedonismo, que em grego significa “prazer”. Para Epicuro, o prazer era essencial à felicidade, mas não o prazer dos crápulas e sim o prazer da impassibilidade, que liberta o homem dos desejos e das necessidades.
Com a chegada da Idade Média e do cristianismo, filósofos como Kant, seguiram relacionando felicidade com prazer e desejo, nada tendo que ver com a Ética e, portanto, sem qualquer interesse da investigação filosófica. Aproveitando essa brecha, a igreja passou a relacionar felicidade com arrependimento e “salvação da alma”. Entretanto, foi nessa mesma época que a felicidade ganhou destaque no pensamento político, quando em 1787, foi incluída na Constituição dos Estados Unidos da América e buscá-la passou a ser considerado um “direito do homem”.
No início do século XX foi o filósofo Nietzsche quem nos trouxe a ideia de que a felicidade não é um estado permanente e que o sofrimento é necessário, pois qualquer realização nasce da luta e do trabalho árduo. Segundo ele, a felicidade consiste em momentos de prazer, associados ao aumento da forca vital que experimentamos para chegar a ser o que realmente somos. O filósofo inglês Bertrand Russell aportou no século 20 uma nova reflexão sobre o assunto, concluindo que felicidade é a eliminação do egocentrismo, ou seja, é necessário alimentar uma multiplicidade de interesses e de relações com as coisas e com os outros homens, para ser feliz.
Mais recentemente, em 1989, o filósofo espanhol Julián Marías também dedicou ao tema um livro notável, “A felicidade humana”, em que estuda a história dessa ideia, desde a antiguidade até os nossos dias, ressaltando que a ausência de reflexão filosófica sobre a felicidade no mundo contemporâneo talvez seja um sintoma de como esse mesmo mundo anda muito infeliz. Nesse vazio filosófico nasce a psicologia positiva, também conhecida como a ciência da felicidade, que há mais de 15 anos vem buscando decifrar os segredos de uma vida plena, bem como sobre o que podemos fazer para sermos mais felizes.
Ser ou não ser feliz, eis a questão
Na realidade, o ser humano foi criado para ser feliz, independentemente do que significa “felicidade” para cada pessoa. Mas também – e principalmente – foi criado para evoluir. Por isso, não existe uma felicidade absoluta e constante, ou seja, não é possível que uma pessoa viva completamente feliz, sem que as adversidades da vida interfiram em sua felicidade.
Isso acontece devido a um fenômeno muito estudado pela ciência, que representa um dos maiores aliados da evolução humana, mas, ao mesmo tempo, um dos maiores inimigos da felicidade: o círculo de adaptação hedônica. Segundo esse fenômeno, qualquer que seja o nível de riqueza ou de bens materiais que conquistemos, primeiro nos sentimos bem, depois nos adaptamos e queremos sempre mais. Em outras palavras, sempre que alguém satisfaz um desejo ou conquista alguma coisa importante, logo passa a desejar uma nova coisa, de tal maneira que possa seguir perseguindo a felicidade e assim siga descobrindo novas coisas, tendo novas experiências, aprendendo, adaptando-se e evoluindo.
A busca da felicidade é o combustível que move a humanidade. É ela que nos convence de que cada conquista é a coisa mais importante do mundo e nos dá disposição para seguir lutando.
Dessa forma, concluímos que “Felicidade” é, sim, um direito do ser humano, que deve ser perseguido por todos. Não como uma tirania, uma obrigação ou obsessão dos tempos modernos, representada por superexposições em redes sociais e acaba se transformando em angústia e depressão. Mas como uma busca consciente por um estado de espírito equilibrado, que parte do autoconhecimento, para ir integrando todos os aspectos importantes na vida de cada pessoa. Essa disciplina interna consiste em identificar e eliminar gradualmente os fatores que nos conduzem ao sofrimento e cultivar aqueles que nos conduzem à felicidade.
Sabemos que é impossível viver sem sofrer, que as dores são inerentes à vida humana e que precisamos aprender a lidar com a frustração. Mas não precisamos nos acostumar com o sofrimento, nem aceitar “ser normal” para satisfazer às expectativas da sociedade. Podemos, sim, ser felizes, enfrentando as adversidades da vida e usando estratégias simples como, por exemplo, investir em ser quem realmente somos, fortalecer os relacionamentos com as pessoas de quem realmente gostamos e buscar ajudar a fazer do mundo, um lugar melhor.
Como cantava Vinicius de Moraes, “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração”…
Adriana Prado tem 25 anos de experiência em Recursos Humanos. Atualmente mora no México, é mestranda em Liderança Positiva e consultora da “The Edge Group”, empresa equatoriana pioneira em programas de crescimento pessoal e organizacional na América Latina, através da aplicação das descobertas da Psicologia Positiva, a Ciência da Felicidade.
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