Amigos, amigos, política à parte
Com a finalidade de se chegar e se manter no poder, não há amigos eternos nem inimigos perpétuos

Para os cristãos, a semana passada foi tempo de reflexão e de meditação sobre as nossas vidas e sobre o que temos feito para sermos melhores como seres humanos. Mas como estamos vivenciando todo tipo de manifestação clamando por mudanças, com governo e oposição se digladiando em torno do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, nem o clima da Semana Santa desviou o foco da política em nosso país.
Nesse clima de reflexão e inquietação, em meio aos noticiários políticos e documentários religiosos exibidos incansavelmente pela mídia, é natural que muitas figuras bíblicas tenham sido relembradas e entre estas, com o simbolismo próprio da religiosidade, com certeza Judas Iscariotes, o homem que, com um beijo na face, entregou Jesus aos soldados romanos em troca de dinheiro, não ficou no esquecimento.
Há, de forma geral entre nós, certo desprezo em relação aos grandes traidores, pois, execrados, seus nomes tornam-se sinônimos de traição. Assim, quando temos a nossa confiança traída, não há necessidade de denominar os seus autores de traidores: basta que os chamemos pelos nomes de célebres “delatores”. Não foi sem sentido que, dentre os numerosos personagens bíblicos, nenhum tenha deixado para a posteridade uma memória tão trágica e ignominiosa como Judas, com seu nome tornando-se sinônimo de desprezo e escárnio, transformando-se na própria epítome da traição.
A ignomínia que se apropriou desse nome é tão grande que, ainda, é tradição em algumas regiões do Brasil realizar a “malhação ou queima de Judas” no Sábado de Aleluia, no qual Judas, no caso, um boneco de pano ou palha, simboliza a personificação das forças do mal espalhadas pelo mundo e a sua malhação e/ou queima a expiação desses males, pois, não é sem sentido que, atualmente, os bonecos quase sempre são representações de personalidades públicas e de políticos.
Nessa lógica, acompanhando as articulações dos políticos peemedebistas para decidir se o partido deve ou não sair da base de apoio do governo federal, fazendo uma analogia de Cristo e Judas com os políticos, fiquei refletindo e questionando: faz-se política com inimigos? Existem amigos em política?
Na política, a engenharia para ganhar as eleições se sobrepõe ao componente ideológico
Sabendo que nesse campo impera, não raro, a frase de Lord Palmerston, primeiro-ministro da rainha Vitória: “Eu não tenho amigos, eu não tenho inimigos, eu só tenho interesses”. Em busca de respostas para as minhas indagações, foi forçoso reconhecer que, onde um acordo pode ter prazo ou data de validade em aberto e, a depender de um interesse, uma verdade dita hoje, pode se tornar obsoleta ou esquecida amanhã, é difícil falar-se em dores da traição. Principalmente, na política brasileira, onde trair ou realizar acordos inusitados para chegar ou se manter no poder faz parte do jogo.
Nessa lógica, lembrando-me de uma frase, carregada de pragmatismo aético, que o então presidente Luis Inácio Lula da Silva proferiu, usando a hstória bíblica para justificar as alianças do seu governo: “Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.”, fiquei a perquirir-me sobre os porquês do espanto petista quando o PMDB e outros partidos da base aliada, rompendo uma aliança de muitos anos, estão próximos, muito próximos de desembarcar do barco que ajudaram a ficar à deriva e apoiar o processo de impeachment da presidente da República.
É claro que analogias têm limites e, portanto, deixo claro que me limito apenas ao fato de que, assim como o Mestre conhecia seu traidor por meio do qual se cumpririam as Escrituras, o Partido dos Trabalhadores também o tinha, como deixou claro, talvez num ato falho, o seu líder, pois, reconhecendo que seus aliados tinham os traços de um Judas tupiniquim, ao contrário do que ocorreu na tradição bíblica, tudo fez para adiar a traição anunciada. Nesse desiderato, esqueceu os compromissos assumidos com a nação brasileira de que não ia corromper nem deixar ninguém fazê-lo e tratou de fortalecer o que de pior existe na vida pública brasileira, e, nesse toma lá da cá, criou o mensalão, o petrolão, além de negociar muitos cargos e ministérios para financiar e manter a lealdade dos seus aliados.
Na política propriamente dita, a engenharia para ganhar as eleições se sobrepõe ao componente ideológico, pois, com a finalidade de se chegar e se manter no poder, não há amigos eternos nem inimigos perpétuos, todas as alianças político-partidárias são bem-vindas. Portanto não há lugar para lamentações e lamúrias petistas, nem para posar de inocente, principalmente porque, coerentemente com as polêmicas declarações do seu líder de que, no Brasil, até Jesus se aliaria com Judas, as negociações e as negociatas em torno da traição anunciada ainda não se encerraram e não está definido quem pagará mais do que os trinta dinheiros.
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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