Morre Barbieri, o homem que criou tango para Bertolucci e Brando
'Gato' Barbieri era, no jazz, o correspondente de uma pop star; E tudo por causa de um disco - a trilha sonora de Último Tango em Paris

Em 1977, ele desembarcou no Rio, fugindo do inverno de Nova York. Gato Barbieri escolhera o país para o lançamento mundial de Caliente, que já vendera 300 mil cópias antecipadas nos EUA. Naquele tempo, Leandro ‘Gato’ Barbieri era, no jazz, o correspondente de uma pop star. E tudo por causa de um disco – a trilha sonora de Último Tango em Paris, o longa de Bernardo Bertolucci com Marlon Brando e Maria Schneider, de 1972.
Gato Barbieri morreu de pneumonia no sábado, dia 2, em Nova York, com 83 anos. Desde que estourou nas telas, Último Tango em Paris rapidamente se converteu numa obra de culto. O ano é importante porque depois de uma década de tropeços, quando muita gente o considerava liquidado em Hollywood, Brando iria ressurgir espetacularmente. Em 1972, recebeu o Oscar por O Poderoso Chefão, e o épico sobre a Máfia do jovem Francis Ford Coppola bateu recordes de bilheteria, iniciando uma nova era do cinemão. Não teria chegado lá sem Marlon Brando na pele de Vito Corleone. Para conseguir o papel, o vencedor do Oscar por Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan, em 1954, teve de fazer teste. Coppola gastou muito verbo para convencer a Paramount de que ele era o homem.
O caso de Último Tango foi diferente. Filme europeu, de arte, de um diretor ‘intelectual’ (e não que Coppola não fosse, também). Bertolucci queria Brando.
Fez o que nenhum diretor havia feito antes. Permitiu que ele reescrevesse seus diálogos, borrando as fronteiras entre a realidade e a ficção. Brando faz um americano em Paris, mas nada a ver com Gershwin nem Vincente Minnelli, ou com Sinfonia de Paris/An American in Paris, de 1951. Brando é ‘Paul’, que acaba de perder a mulher. Ela era adúltera e se suicidou. Ele está totalmente vulnerável. Conhece essa garota, Maria Schneider. Ela entra na dele. Uma ligação apenas física, sexo selvagem, nada de sentimentos. Numa cena, Paul sodomiza a garota. Usa manteiga como lubrificante. Por causa da cena, o filme foi proibido no Brasil pela censura do regime militar.
Organizavam-se, em 1972, excursões para ver Último Tango em Buenos Aires e Montevidéu, onde a situação política não era mais confortável, mas o longa de Bertolucci estava liberado. O curioso é que, se as imagens do filme atentavam contra a família, a moral e os bons costumes, segundo os censores, a trilha podia tocar, até na rádio. E cena ‘da manteiga’, sem o carimbo da trilha de Gato Barbieri, também não seria a mesma coisa. Gato nasceu Leandro Barbieri em Rosario, na Argentina, em 1932. Tinha um irmão, também músico – tocava bateria -, que preferiu fazer carreira na Marinha argentina (e virou capitão).
Disposto a se firmar no jazz, Gato mudou-se para Nova York. Era um jazzista competente, mas não brilhante. Um dia, teve o click. Incorporou a música da cidade de Buenos Aires, o novo tango de Astor Piazzolla, ao seu saxofone. A música chamou a atenção de Gianni Amico, que era amigo de Bernardo Bertolucci. Gato, que já gravara, entre outros discos, um chamado Simphony for Improvisers, foi chamado para improvisar. Bertolucci mostrou-lhe um copião de quatro horas, que ele viu três vezes. As quatro horas seriam reduzidas para 129 minutos e as linhas melódicas criadas por Gato foram orquestradas por Oliver Nelson, que realçou o bandoneón e acrescentou uma orquestra de 32 cordas.
Não foi o primeiro tango de Bertolucci em Paris. Houve outro, o primeiro, em O Conformista, dançado por duas mulheres, Dominique Sandra e Steffania Sandrelli, em 1970. Embora o diretor seja italiano, o tango tem tudo a ver com o clima dos dois filmes. Gato Barbieri nunca mais fez nada tão bom, mas virou referência do jazz latino. Ele próprio dizia que não existem dois saxofonistas iguais. Detestava o conceito de música política. Dizia de músicos e músicas que são bons ou ruins. Queria ser bom e, pelo menos uma vez, no Último Tango, foi genial.
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