Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 27/01/2022 às 18h39.
A pandemia, a dor, a coragem e o desafio de viver
A realidade não alimenta qualquer futuro de sonho, de vida harmoniosa, plena, planeta afora. O futuro é o presente da coragem para o desafio do viver agora
Liliana Peixinho

A frequência do comportamento humano junto ao egoísmo, a frieza, o descaso, a negligência, a violência, o desrespeito, a desumanidade, faz retroceder, distanciar, desesperançar qualquer perspectiva de vida a um plano de felicidade real.
O sonho, como algo que a humanidade alimentou como um salto entre o real e o imaginário, fugiu e não deixou rastros. Não é pessimismo, não é falta de vontade, não é desesperança. É só constatação histórica, de fatos, em cotidianos, insanos.
Observo gestos autômatos, pronúncias de verbos, palavras, movimentos de corpos, olhares, sons, a se perder, numa busca inútil, programada, intangível, inexistente, de algo com sentido profundo de viver.
Como poder vislumbrar alguma felicidade em ambientes tensos, rígidos, plásticos, distantes da alma, do coração?…
A felicidade não seria algo construído, alimentado, nutrido de dentro para fora? Um sentido de existência profunda de si, junto ao outro? Como encontrar essa conexão, num ambiente onde o caos é reflexo da agonia de vida?
São cenas reais, que acontecem o tempo todo, em qualquer canto, com mais, ou menos, frequência e intensidade. Cenas que marcam a dor de vidas de pais, mães, filhos, amigos, trabalhadores, pessoas, cidadãos.
Imagine uma sala vermelha de uma UPA, onde seu pai, por exemplo, foi levado por um desconhecido, e que chegou ali, nas últimas, sem os devidos cuidados preventivos, sem poder respirar, sem a devida e digna atenção, e vai à morte, sozinho, sem a família ao lado, sem uma mão na mão, a segurar, a acalorar, na despedida final. É muito dor! Coloco-me no lugar dessa pessoa e me estatelo em choro, em indignação, em não aceitação, ante tamanha desumanidade. Não é só o morrer. É como se morre!
Multiplique essa cena aos milhares, residências adentro, UPAS Brasil afora, hospitais planeta adiante. Sinta o que esse mal estar social pode provocar em seu cérebro, coração e alma humana, profundamente humana. Agora, pense se há espaço para a alegria, para participar de festas em ambientes aglomerados, apinhados de gente sem máscara, a beber e a comer em riscos sanitários, como que esquecidos, alheios, anestesiados dos horrores cotidianos. Não consigo entender esse tipo de desejo!
Estamos em vida de horror. Vidas em um ambiente onde, na Bahia, por exemplo – celeiro festivo e exportador de vírus – há a liberação para a realização de eventos com a presença institucionalizada de centenas de pessoas num mesmo ambiente. Até meados de janeiro, pasmem, o público permitido era de 3 mil pessoas…
Observe as cenas, os registros em vídeos, exibidos em redes sociais, na imprensa, em festas, com pessoas alheias ao senso coletivo, sem distanciamentos de uma para outra, sem usar máscaras, sem realmente higienizar as mãos e partes do corpo, que atuam como vetores a proliferar vírus. Não há consciência de cuidado coletivo. A realidade parece ser algo distante de um cenário fantasiado a promover a fuga.
Agora, imagine-se como um vírus, invisível, sorrateiro, poderoso, mutante, oportunista. Como tal, de que forma agiria para sobreviver? Com certeza, potencializaria toda e qualquer oportunidade entre um corrimão, uma fechadura, uma torneira, uma mão e outra, um corpo e outro, para se manter vivo, mesmo que isso viesse a resultar em danos à espécie humana. E, neste início de 2022, já são mais de 620 mil mortos no Brasil e milhões de casos diários a se multiplicarem mundo afora.
É incrível o descaso das pessoas para com informações veiculadas diariamente, como um mantra: vacinar, evitar ficar perto um do outro, usar máscara de forma eficiente, cuidar da higiene, dar o devido valor à alimentação para fortalecer o sistema imunológico. Para barrar a ação do SARS-Cov-2 e suas variantes, são muitos os cuidados que devemos adotar, mas, numa atitude quase suicida, insistimos em minimizar, desconsiderar e negligenciar as orientações.
Dois anos de pandemia não foi tempo suficiente para mudar o mínimo de comportamento em respeito ao outro, seja pela consciência do ato social de se vacinar, seja para cuidados individuais preventivos na transmissão coletiva. Seja para sentir a dor do outro, seja para aprender a cuidar da vida como respeito social.
O tempo mudou tudo. O clima reage às mudanças e é determinante nas relações com o ambiente onde a vida se faz. As casas são invadidas, derrubadas, engolidas, arrastadas, com a avidez célere de problemas provocados por um comportamento humano apressado, alheio, negligente, descuidado com tudo ao seu redor. É o consumo a qualquer preço!
É a vida empurrada como algo sem valor. A fome se alastra, as enchentes são furiosas, o povo perde tudo o que constrói a sangue e suor, e há um certo conformismo na voz do povo ao atribuir a “Deus” a força necessária aos históricos e eternos recomeços de vida em miséria.
Leio depoimentos de amigos sobre as diversas formas de morte, nas quais a vida é absorvida com frieza, descaso, desrespeito. Morte lenta, dolorosa, que exige coragem diária para suportar ausência, fuga dos fatos, de ver gente morrendo ou sentir gente fazendo de conta que vive, vegetando, sobrevivendo, fingindo felicidade como imposição social do viver a qualquer custo, em ambientes socialmente mortos.
Pior que morrer é como se morre, repito. Não tem um dia em que eu não chore por sentir a dor de quem morreu sem a família a pegar na mão, que morreu sufocado, sozinho, com frio, com dor, em pânico, sem o olhar da esposa, sem o cafuné da filha que tanto cuidou, sem uma expressão silenciosa de amor, de carinho, de afeto, de adeus. Penso nisso todos os dias, nos últimos dois anos, e cada vez que imagino a cena de alguém a morrer sozinho eu morro muito, morro com uma dor incontrolável, indignada, que grita ao mundo contra tanta desumanidade.
Essa dor se expande ao Universo quando observo a fome ao lado do desperdício, a frieza ao lado do descaso, da indiferença, do esquecimento dos mortos, da naturalização das ausências, da falta de amor e respeito às histórias de vidas.
A ausência desses sentimentos, dessa consciência sobre os entornos da vida, nos mata cada dia. Buscar a coragem para continuar a viver é um desafio que aumenta a dor de viver.
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