Política e religião, juntas e misturadas
Ao promover o conhecimento das divindades, possibilitando ao homem viver consoante os seus desígnios, a religião se diferencia da política

Religião e política são duas realidades, duas dimensões da vida humana que, desde os primórdios da história da humanidade, acompanharam e acompanharão sempre a existência de cada pessoa e da sociedade em todo tempo e lugar.
Ao promover o conhecimento das divindades, possibilitando ao homem adorá-las e viver consoante os seus desígnios, a religião se diferencia da política que, por sua vez, tem que velar pela promoção do bem comum. Assim, cada uma em seu âmbito, sem interferências indevidas, ainda que abertas uma à outra, reúnem plenas condições de poder contribuir para a plena realização pessoal e social do ser humano.
Por isso mesmo, não se pode entender a laicidade do Estado como um antagonismo que exige um relacionamento quase inimigo com a religião e a fé professada pelos seus cidadãos. Trata-se de uma configuração que tem sempre como ponto de partida o significado e o alcance de tudo o que promove a cidadania, entendida como a condição de igualdade de todos, implicando em desdobramentos que levem a uma sociedade justa e solidária.
Nessa lógica, o cristianismo é portador de uma original visão que, baseada nas palavras de Jesus “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, corporifica as relações de independência e colaboração que propõe entre a Igreja e a comunidade política, sem dizer para os que professam essa fé que há coisas que são de César e outras de Deus, além de nos lembrar de que Deus instituiu autoridades a quem devemos respeito, obediência e, principalmente, impostos.
Tendemos a crer que o nosso Deus é
mais verdadeiro do que o dos outros
Nesse sentido, não se apresenta como incoerente a posição dos que defendem que os cristãos possuem dupla cidadania: uma celestial, referente ao reino espiritual, e outra terrena, concernente à vida humana, todavia, tal posicionamento não pode servir de justificativa para a relação promíscua, complexa e complicada que, não raro, existe entre religião e política representativa. Afinal, tendemos a crer que o nosso Deus é mais verdadeiro do que o dos outros e que a nossa crença é sempre a única verdade a ser concebida pelos demais.
Inegavelmente, nossas crenças podem contribuir, com uma cultura de paz, com a promoção do diálogo e com o fortalecimento das diversidades, mas também, quando descontextualizadas, possuem o condão de promover e perpetuar a violência e os preconceitos que, não raro, estão por trás dos fundamentalismos que, com seus discursos maniqueístas, do bem contra o mal, simplificam e explicam, a seu modo, um mundo caótico.
Já faz algum tempo que tenho acompanhado os discursos, falas e afirmações de nossos representantes no Congresso Nacional, antes e durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, e sempre me deparo com as invocações a Deus, como se estas fossem um cabo eleitoral invisível, com força para sensibilizar os eleitores, confesso, abestalhado, parafraseando Raul Seixas, que estou decepcionado, entre outras coisas, por estar testemunhando, mais do que nunca, cristãos ofendendo, ostensiva e midiaticamente, o segundo mandamento da lei de Deus que proíbe usar o seu santo nome em vão.
Se efetivamente existe uma cidadania celestial e outra terrena, engajamento político e religioso é exercício da cidadania e da democracia. Assim, ter uma religião e/ou assumir posições políticas e defendê-las é uma opção, mas, apesar disso, é frequente que aqueles que assumem as suas escolhas políticas e/ou religiosas e as defendem com clareza sejam acusados de terem interesses pessoais ou até escusos.
Se pregar imparcialidade política é um esforço alienante de setores da sociedade que sempre foram favorecidos pela anestesia cívica, a pregação de postura apolítica de igrejas e credos ou dos seus sacerdotes ou seguidores no exercício de um cargo político também não o seria?
Ser cidadão, no reino espiritual ou no
plano da vida humana, implica tomar partido
Ser cidadão, no reino espiritual ou no plano da vida humana, implica tomar partido. Portanto, constituem motivos de aplauso os esforços teístas, agnósticos ou ateístas pela elevação e pela promoção do ser humano ou do bem comum da comunidade. Afinal, quem foi que disse que religião e política não se misturam ou mesmo não devem se misturar?
Essa é, ao meu modo de pensar, a visão abrangente da política que devemos perseguir. Outra coisa é a partidarização política da religião para transformá-la em empreendimentos lucrativos, catalizadores do processo de captação e inclusão de fiéis eleitores nas legendas e de eleitores fiéis nas igrejas.
Nessa ótica, só com dois pesos e duas medidas para não se reconhecer que, seja do ponto de vista ético ou moral, perdeu-se o senso da dignidade na religião e na política neste país, mas, sem receio de “invocar o santo nome de Deus em vão”, tenho fé que, dando a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus, este cenário, de uma forma ou de outra, possa mudar, pois, quando a fé não remove montanhas, com certeza, nos ajuda a contornar.
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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