Publicado em 08/05/2025 às 20h34. Atualizado em 09/05/2025 às 10h18.

O rugido de Leão XIV: tradição, justiça social e símbolos na escolha do nome do novo papa

Mais de um século após Leão XIII, Robert Francis Prevost adota um nome carregado de história e significado bíblico ao assumir o papado em 8 de maio, data ligada a São Miguel Arcanjo

João Lucas Dantas
Foto: Reprodução/ Redes sociais

 

Em uma escolha simbólica e ousada, Robert Francis Prevost autointitulou-se Papa Leão XIV, 122 anos após o fim do pontificado de Leão XIII, que liderou a Igreja Católica entre 1878 e 1903. A adoção desse nome não parece ser apenas uma homenagem superficial, mas carrega possíveis significados históricos, teológicos e espirituais que ajudam a contextualizar a decisão do novo pontífice.

Leão XIII é amplamente lembrado por sua influência duradoura nas questões sociais e espirituais da Igreja. Um dos episódios mais notórios de seu pontificado foi a composição da chamada “Oração de São Miguel Arcanjo”, que passou a ser recitada após a missa como forma de proteção espiritual. De acordo com testemunhos da época — embora não documentados oficialmente — o papa teria tido uma visão espiritual após celebrar uma missa, na qual presenciou uma conversa entre Deus e Satanás. Na visão, o demônio pedia permissão para tentar destruir a Igreja. Profundamente impactado, Leão XIII teria se retirado imediatamente e, pouco depois, redigido a oração invocando a proteção do arcanjo Miguel.

A escolha de Robert Prevost para anunciar seu pontificado em 8 de maio adiciona mais uma camada simbólica à decisão. Nesta data, a Igreja celebra a aparição de São Miguel Arcanjo no Monte Gargano, na Itália. Segundo a tradição católica, por volta do ano 490, o arcanjo teria aparecido ao bispo de Siponto, pedindo que uma caverna local fosse consagrada a Deus como lugar de culto cristão. Esse episódio, registrado no Breviário Romano e na Legenda Áurea, resultou na construção do Santuário de São Miguel Arcanjo, um dos mais antigos da Europa Ocidental.

Outro aspecto que pode ter influenciado a escolha do nome é o legado social de Leão XIII. Em 15 de maio de 1891, ele publicou a encíclica Rerum Novarum, marco inaugural da Doutrina Social da Igreja (DSI). Nela, o papa abordava as duras condições enfrentadas pelos trabalhadores no contexto da Revolução Industrial, defendendo o direito a um salário justo, jornada de trabalho limitada e liberdade de associação sindical. A encíclica rejeitava tanto os excessos do capitalismo quanto as propostas radicais do socialismo, propondo uma terceira via pautada pela justiça social e pela dignidade humana. Essa postura inspiraria mais tarde outros papas, incluindo Francisco, cujo pontificado iniciado em 2013 também enfatizou temas como equidade, ecologia integral e compromisso com os pobres.

Para o padre Manoel Filho, pároco da Paróquia Ascensão do Senhor, o nome Leão XIV simboliza a continuidade de Leão XIII: uma filiação pastoral. “Ele foi um papa de grande relevância no final do século XIX que, diante do avanço da Revolução Industrial e, consequentemente, do capitalismo selvagem de um lado e do comunismo do outro, escreveu a primeira encíclica do que viria a ser a DSI. A opção pelo nome Leão XIV, portanto, parece expressar o desejo do novo pontífice de aprofundar as questões sociais, seguindo o caminho aberto pelo Papa Francisco”, explicou.

“Após a Rerum Novarum, foram publicadas muitas outras encíclicas da DSI, e todos os papas escreveram documentos nessa perspectiva. A mais recente é a Fratelli Tutti, do Papa Francisco. A encíclica é o mais importante documento escrito por um pontífice”, acrescentou o padre.

A escolha do nome Leão também parece dialogar com o simbolismo bíblico atribuído a Jesus Cristo. No livro do Apocalipse (5:5), ele é descrito como o “Leão da tribo de Judá”, o único digno de abrir o livro selado com sete selos. Essa imagem de força e autoridade contrasta com a figura do “cordeiro mudo”, como descrito em Isaías 53:7, que representa a humildade e o sacrifício da primeira vinda de Cristo. A tradição cristã interpreta que aquele que foi levado ao matadouro como cordeiro silencioso retornará como o leão que ruge sobre as nações — uma ideia refletida também em profecias do Antigo Testamento, como em Oséias 11:10 e Joel 3:16, que retratam Deus rugindo de Sião com poder e julgamento.

Portanto, a adoção do nome Leão XIV pode ser lida como uma tentativa de conexão profunda com as raízes espirituais e sociais da Igreja. Ao evocar tanto a firmeza doutrinária quanto o compromisso com os mais vulneráveis, o novo papa sinaliza, desde o nome, que pretende dar continuidade a um legado que une tradição, justiça e fé profética.

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