Publicado em 05/02/2026 às 14h04.

Bolsonaro ‘censurou’ lançamento de ‘Marighella’, diz Wagner Moura

Ator e diretor afirma que filme enfrentou bloqueios durante a gestão do ex-presidente e relembra ameaças

João Lucas Dantas
Wagner Moura dirigindo Seu Jorge em Marighella
Foto: Ariela Bueno/Divulgação

 

Wagner Moura voltou a criticar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), afirmando que o governo entre 2018 e 2022 dificultou o lançamento do filme Marighella, que ele dirigiu. Rodado entre 2017 e 2018, o longa só chegou aos cinemas em 2021, em razão do que o ator classifica como uma “censura” velada no período.

“Foi a primeira vez que dirigi um longa-metragem, e é um filme do qual eu tenho muito orgulho. É uma obra sobre um personagem real, um líder da resistência no Brasil, alguém que combateu a ditadura militar por meio da luta armada”, pontuou em entrevista ao programa norte-americano Happy Sad Confused, apresentado por Josh Horowitz, nesta quinta-feira (5).

O ator baiano, indicado ao Oscar de Melhor Ator por O Agente Secreto, criticou abertamente o político e relembrou a justificativa do voto de Bolsonaro no processo que resultou na destituição da então presidenta Dilma Rousseff, em 2016.

“Ele elogia publicamente o regime, diz abertamente que aquele período foi algo positivo para o país. Quando Dilma Rousseff, uma das nossas presidentas, foi destituída em 2016, o que foi um golpe político, Bolsonaro era deputado federal e dedicou seu voto ao torturador Brilhante Ustra. Ele disse: ‘Quero dedicar este voto a esse homem tão importante’. Ustra era alguém que torturava pais na frente de seus filhos. Isso mostra o quão repugnante esse ser humano é”, afirmou Wagner.

“Então, quando eu dirigi Marighella, um filme sobre um lutador pela liberdade, um homem assassinado pela ditadura e que resistiu a ela, Bolsonaro levou isso para o lado pessoal. E, claro, eu também me posicionava publicamente contra ele e contra o seu governo”, acrescentou.

O artista e ativista político aproveitou o momento para reiterar a importância de sua ausência das redes sociais e refletir sobre o impacto que um filme como o que dirigiu teve no imaginário popular brasileiro.

“Eu entendi uma coisa, fascistas não se preocupam tanto com o que você diz. Para eles, o que você faz é muito mais perigoso. Eu poderia passar o dia inteiro nas redes sociais dizendo ‘Bolsonaro é fascista’, isso não teria nem de longe o mesmo impacto de fazer um filme como o que eu fiz”, disse.

O indicado ao Oscar relembrou ainda o período em que trabalhava na estreia como diretor e detalhou as dificuldades enfrentadas para lançar o longa no Brasil.

“O filme estreou em Berlim, em 2019, e eu não consegui lançá-lo no Brasil. Ele encontrou uma forma de censurar o filme, não uma censura explícita como na ditadura, porque isso hoje não seria possível, mas uma censura cínica. Ele simplesmente bloqueou todos os caminhos possíveis”, reforçou.

“O cinema brasileiro é muito dependente de recursos públicos. Existe uma agência que regula e viabiliza esses processos, e foi por aí que aconteceu o bloqueio. Eu só consegui lançar Marighella no Brasil em 2021, depois de uma grande luta”, lamentou.

Foto: Divulgação

 

Para além das críticas diretas ao ex-presidente, Wagner Moura também relatou o clima de tensão provocado por apoiadores de Bolsonaro à época do lançamento internacional do filme.

“O pior é que essas pessoas empoderam seus seguidores no que eles têm de pior. Pessoas que vivem em um universo paralelo de informação. Em muitos lugares onde o filme estreou, tivemos que colocar detectores de metal nas entradas dos cinemas, porque recebíamos ameaças como ‘vamos matar vocês’. Foi pesado, foi extremo. Mas também foi uma luta da qual eu me orgulho de ter participado”, afirmou.

As repercussão divisiva de Tropa de Elite

Questionado pelo apresentador sobre as interpretações políticas divergentes que seus trabalhos despertaram ao longo da carreira, o ator relembrou Tropa de Elite, que segue sendo alvo de debates até hoje.

“Isso faz parte do que fazemos. Com Tropa de Elite, fiquei muito surpreso com a forma como o filme foi interpretado pela direita. Para mim, era um filme sobre como a polícia opera no Brasil, sobre como o sistema funciona. Mas a direita enxergou o filme como uma defesa da brutalidade policial”, explicou.

“E isso faz parte do jogo. Você não controla o significado das coisas. Eu posso dizer o que pensei, o que senti quando fiz o filme, quais eram minhas intenções, mas não posso controlar como as pessoas vão interpretá-lo. E isso é realmente muito interessante”, concluiu Wagner Moura.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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