Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba.
DRT: 7543/BA
Publicado em 05/02/2026 às 15h40.
Wagner Moura relembra trajetória de Salvador às novelas até o Oscar
Ator fala sobre xenofobia regional, início nos teatros baianos e a importância da TV brasileira na sua carreira
João Lucas Dantas

Indicado ao Oscar de Melhor Ator por O Agente Secreto, Wagner Moura relembrou as origens nos teatros de Salvador, sua cidade natal, as dificuldades para se tornar um astro de novelas e o trânsito pelo cinema nacional ao longo de mais de duas décadas de carreira.
“Eu venho de Salvador, Bahia, que fica no Nordeste do Brasil. Não é o centro do país — eu não sei qual seria o equivalente aqui — mas não é Nova York, não é Los Angeles, não é Chicago. É um lugar culturalmente muito interessante”, afirmou o ator em entrevista ao programa norte-americano Happy Sad Confused, apresentado por Josh Horowitz, nesta quinta-feira (5).
Wagner destacou que ainda há forte xenofobia regional no Brasil. “Existe um preconceito contra pessoas que vêm de onde Kleber Mendonça Filho (diretor de O Agente Secreto), e eu viemos. Um ator de Salvador, nos anos 1990, dificilmente fazia uma telenovela, porque elas exigiam o sotaque do Rio de Janeiro. Aquilo estava completamente fora do meu alcance”, relembrou.
Hoje com carreira internacional consolidada, o ator atribui sua ascensão profissional no fim dos anos 1990 a uma mudança cultural mais ampla. “Também foi estar no lugar certo, na hora certa. Muitas oportunidades surgiram de encontros felizes”, avaliou.

Segundo ele, esse momento coincidiu com a chamada retomada do cinema brasileiro. “No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o cinema brasileiro vivia uma espécie de reinício da indústria. E os diretores estavam procurando rostos que não fossem o ‘perfil de televisão’. Foi exatamente nesse momento que eu e outros atores do Nordeste chegamos ao Rio e a São Paulo e começamos a fazer filmes”, celebrou.
Ao explicar ao apresentador a importância das novelas para os atores brasileiros, Wagner foi direto: é nelas que se “ganha dinheiro e se torna famoso”. “O sistema de estrelas no Brasil é construído em torno das novelas. Eu e outras pessoas da minha geração começamos a ser aceitos nesse universo no início dos anos 2000, sem precisar interpretar personagens estereotipados”, reforçou.
Questionado se o público internacional deveria se atualizar sobre seus trabalhos na teledramaturgia, Wagner respondeu com ironia: “Você não perdeu nada!”.

Em tom bem-humorado, resumiu os arquétipos clássicos do gênero. “Eu fiz duas novelas. Existem três tipos básicos: o mocinho, geralmente um homem rico; a mocinha, normalmente uma mulher pobre que se apaixona por ele; e o vilão, que às vezes é até engraçado, mas quer destruir a vida dessas pessoas bonitas”, disse, entre risos.
A passagem de Wagner Moura pelas novelas foi curta, mas marcante. Ele apareceu primeiro em A Lua Me Disse (2004), comédia romântica escrita por Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, ainda nos primeiros passos na teledramaturgia da TV Globo.
A consagração veio em Paraíso Tropical (2007), novela de Gilberto Braga em parceria com Ricardo Linhares. No papel do vilão Olavo, o ator construiu um personagem duro, ambíguo e perturbador, que se tornou um dos mais lembrados da década. Após essa experiência, Wagner se afastou das novelas e seguiu um caminho mais ligado ao cinema, ao teatro e às séries, buscando formatos e narrativas mais alinhados às suas inquietações artísticas.
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