A promotora de Justiça Lívia Santana e Sant’Anna Vaz marcou presença no último dia da Bienal do Livro Bahia 2026, nesta terça-feira (21). Além de apresentar o seu livro “Abayomi: o reluzir dos encontros preciosos”, a jurista conduziu uma atividade sobre os temas da ancestralidade, da memória e da infância negra, a partir da contação de histórias.
Em entrevista ao Bahia.ba, a coordenadora do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) Para a jurista, a Bienal em Salvador cumpre um papel estratégico ao pautar a produção intelectual do Nordeste, muitas vezes invisibilizada no cenário nacional.
“A Bahia é o espelho da diversidade do Brasil, dessa riqueza que o Brasil tem, dessa herança ancestral. E a Bienal do Livro da Bahia traz foco para essa importância. A produção intelectual, literária, cultural da Bahia e do Nordeste, infelizmente, ainda não tem a valorização que nós precisamos que tenha no Brasil inteiro. Então essa Bienal lança luzes para mostrar o quanto nós podemos e já contribuímos para a produção cultural do nosso Brasil”, declarou.
A jurista destacou ainda que, apesar dos avanços conquistados, especialmente graças à atuação dos movimentos negros, ainda há um longo caminho a percorrer na promoção da igualdade racial no Brasil e que a literatura pode ser uma ferramenta para que o avanço do tema.
“A arte, a literatura é um grande instrumento nessa luta por igualdade racial e por reconhecimento mesmo do protagonismo negro no Brasil. A literatura, a arte são outros caminhos que eu encontrei para continuar no enfrentamento ao racismo e na promoção da igualdade racial, do orgulho e da ancestralidade do nosso povo”, disse.
“Infelizmente, as crianças negras sofrem racismo desde a primeira infância sem sequer saber nominar esse fenômeno. Então, é importante que nós estejamos trabalhando para mostrar que nossa história das pessoas negras no Brasil começa muito antes da escravidão. Começa com a descendência que nós temos, a ascendência de reis e rainhas que vieram escravizados. Não é da natureza dessas pessoas, nunca foi da natureza de nenhum ser humano ser escravizado. Então, eu ainda complementou dizendo pessoas que foram escravizadas, muitas delas reis e rainhas, muitas delas reis e rainhas”, emendou.
Por fim, Lívia defende as cotas raciais no Brasil e comemorou a decisão do Supremo Tribunal Federal de derrubar a lei estadual de Santa Catarina, que proíbe cotas raciais em universidades do estado.
“As cotas raciais são uma reparação histórica. Eu digo que são, na verdade, a primeira resposta do Estado brasileiro depois de quase quatro séculos de escravização de pessoas negras. Então, é uma dívida que o Estado brasileiro tem com a sociedade, é uma dívida que a própria sociedade tem também com as pessoas negras, então não é só sobre as pessoas negras, é sobre a nossa democracia que ainda está por ser construída”, declarou.
“Nós teremos retrocessos, tentativas de retrocesso como tivemos em Santa Catarina, mas que bom que o Supremo Tribunal Federal defendeu a nossa Constituição. Hoje as cotas raciais são constitucionais, nós aprovamos a Convenção Interamericana Contra o Racismo com status de norma constitucional, e essa convenção fala em medidas especiais de promoção da igualdade racial, e as cotas raciais são medidas de justiça e de reparação, e nós não podemos aceitar esses ataques às cotas raciais”, concluiu.

