Publicado em 21/04/2026 às 17h05.

‘Divino Intelectual’: Carla Akotirene defende união entre ancestralidade e literatura

A doutora em Estudos Feministas pela UFBA foi uma das participantes do painel "Afeto e resiliência nas relações" no último dia da Bienal do Livro 2026

Lívia Patrícia Batista / Carolina Papa
Carla Akotirene foi uma das participantes do painel “Afeto e resiliência nas relações” (Imagens: bahia.ba/Luíza Gonçalves)

 

A doutora em Estudos Feministas pela UFBA e consultora em políticas públicas, Carla Akotirene, defendeu a indissociabilidade entre literatura e ancestralidade durante a Bienal do Livro 2026.

Akotirene foi uma das participantes do painel “Afeto e resiliência nas relações”, que ocorreu nesta terça-feira (21) – último dia da Bienal do Livro 2026. O momento foi mediado pela jornalista Val Benvido e também contou com a presença do filósofo e escritor, Renato Nogueira. 

Em entrevista do Bahia.ba, a pesquisadora de antirracismo e feminismos negros afirmou que a literatura e a ancestralidade andam juntas. “Eu trabalho a partir de um conceito que já está bastante difundido do ponto de vista acadêmico, literário, que é o conceito de interseccionalidade. A interseccionalidade, Carol, tá falando de encruzilhada. Quando você olha para a encruzilhada, você percebe que não é possível a gente separar as avenidas. Dessa forma, a gente não pode colocar ancestralidade num lugar diferente que seja a literatura”, explicou Carla Akotirene. “É um divino também intelectual, que é a nossa cabeça que produz e nós, as formas de escrever, sentir e resistir”.

A acadêmica também contou que ela própria, no seu processo de escrita, convoca o patrimônio das literaturas iorubá e banto e das filosofias de terreiro para criar e mostrar o encontro das resistências femininas.

Para Carla Akotirene, o espaço da Bienal do Livro é, também, um local para que mulheres negras e indígenas se reposicionem intelectualmente. “A gente consegue, descredenciar a Europa, o Ocidente e aqueles cânones tão racistas, né, que apagaram a nossa literatura, a partir do momento que a gente anuncia a nossa ancestralidade, a nossa forma de dizer no mundo e se comportar como corpos literários”.

Mesmo reconhecendo a importância, a escritora também ponderou que é necessário mais cuidado para não hipervalorizar autores de fora em detrimento de artistas nacionais e iniciantes.

“Chamo de ética do cuidado, que é um princípio epistemológico do paradigma africano, inclusive. paradigma da afrocentricidade que faz parte da chave discursiva do feminismo negro. Então a gente precisa ter cuidado com as autorias dos outros que muitas vezes não têm uma capacidade de circulação, não tem uma identidade comercial, mas se a gente abrir a porta, assim como a comunidade de terreiro faz, para quem tá chegando agora […] É isso que é importante para nós. A gente não se colocar como muito especial no que diz respeito a quem já está no mercado literário, mas a gente entender que as oportunidades dadas a quem tá chegando também vai fazer com que o nosso barco de resistência possa criar estratégias de atravessar o horizonte”, concluiu.

“Não existe um feminismo universal”

Durante a entrevista, o Bahia.ba perguntou sobre o aspecto racial dentro do feminismo e Carla Akotirene destacou “não existe um feminismo universal”. 

“Quando a gente fala de universalidade, a gente tá pegando a norma que é branca, eurocêntrica, referenciada, principalmente pela Europa Ocidental e os Estados Unidos. Agora, quando a gente fala em feminismos e, principalmente, feminismo negro, a gente tá falando de um projeto intelectual que quer o bem-viver para as mulheres de maneira geral, mas entende que os homens negros são os nossos parceiros que estão suscetíveis às violências sistêmicas, policiais, a formas de encarceramento, quando não uma desautorização no que diz respeito à convivência em liberdade”, comentou a doutora em Estudos Feministas.

Akotirene explicou que o feminismo negro é um projeto intelectual contra a colonialidade, o que afeta mulheres e negros de maneira geral. Neste contexto, as mulheres negras são aquelas que estão próximas do debate feminista global – que defende o fim do feminicídio e abusos no ambiente doméstico – e do debate racial – que busca entender como mulher e homens negros podem ser prejudicados por uma perspectiva eurocêntrica e levados a aspectos como encarceramento em massa e outras violências.

Lívia Patrícia Batista
Lívia Patrícia é soteropolitana e atua como repórter de Municípios no bahia.ba. Já atuou na Agência Diadorim, no BP Money, no g1 Bahia e participou da segunda turma do Focas Estadão (Curso Estadão de Jornalismo) de Saúde.

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