Publicado em 23/04/2026 às 12h30.

Filme sobre Zico resgata bastidores e legado do ídolo brasileiro

Em entrevista ao bahia.ba, o diretor João Wainer destaca a narrativa imersiva e importância do craque

João Lucas Dantas / Rodrigo Fernandes
Pôster de Zico – O Samurai de Quintino

 

Arthur Antunes Coimbra, o eterno Zico, ganha uma grande homenagem ao seu legado com o lançamento do filme Zico – O Samurai de Quintino, que chega aos cinemas no dia 30 de abril. O documentário mergulha na trajetória do craque e apresenta ao público imagens raras, registros de arquivo e bastidores inéditos.

A produção revisita não apenas gols antológicos e conquistas marcantes, mas também episódios pouco conhecidos da carreira, os desafios enfrentados ao decidir jogar no Japão e a construção de um legado que ultrapassa gerações.

Para celebrar o lançamento do longa, o bahia.ba conversou com o diretor responsável pelo projeto, João Wainer, que detalhou os bastidores da produção e a importância do ídolo do Clube de Regatas do Flamengo e da Seleção Brasileira de Futebol.

O diretor João Wainer no Japão
Foto: Pedro Curi – Divulgação

Recuperação de imagens raras

Uma das primeiras coisas que chamam atenção ao longo das 1h43 de filme é o trabalho de recuperação de imagens e áudio, com registros impressionantes desde a época em que Zico ainda era um jovem jogador promissor até momentos pessoais, como seu casamento com Sandra Carvalho.

“Nós tivemos uma grande ajuda da Sandra. Ela tinha um arquivo muito organizado em casa. Guardava todas as reportagens que saíam nos jornais, gravava coisas da TV em VHS. Encontramos muita coisa que não teríamos achado se não fosse por ela”, conta o diretor.

“Havia registros em VHS da Sandra e também materiais da Globo. Algumas imagens, como as da infância, só conseguimos graças a ela. Então foi uma ajuda incrível”, acrescenta o cineasta.

Para recuperar a qualidade do material, foram utilizadas tecnologias de aprimoramento, incluindo o uso de inteligência artificial para transformar imagens de baixa resolução em uma qualidade próxima ao 4K.

“O filme foi pensado para o cinema. Mesmo imagens antigas, em SD ou de arquivo, passaram por um grande processo de upscale. Eu nunca tinha visto isso dessa forma e fiquei muito impressionado com o resultado”, explica.

Os elementos sonoros também contribuem para uma experiência mais imersiva nas salas de cinema.

“O som do filme também é um destaque. Para o cinema, recriamos toda a atmosfera da torcida da época. Usamos elementos como a Raça Rubro-Negra e distribuímos os sons pelo ambiente da sala, com instrumentos e vozes vindo de diferentes direções. Nosso designer de som fez um trabalho incrível para criar essa sensação de estádio dentro do cinema”, destaca.

Zico no Japão
Foto: Pedro Curi -Divulgação

A origem do Samurai de Quintino

Um dos pontos centrais da narrativa é a relação de Zico com o Japão, onde atuou pelo Kashima Antlers entre 1991 e 1994, sendo peça fundamental para a criação da J.League e a profissionalização do futebol no país.

“O Japão é fundamental. Chegamos à conclusão de que o Zico é uma mistura da ginga e criatividade do subúrbio do Rio com a disciplina e seriedade do japonês. Quando você junta talento com disciplina, não tem como dar errado. Desde o início entendemos que o filme precisava abordar Brasil e Japão”, afirma.

“O Zico abriu muitas portas para a gente lá. Ele continua trabalhando no país e vai para lá todos os anos. Aproveitamos uma dessas viagens e fomos junto”, completa.

Sobre uma possível estreia internacional, o diretor revela que já há negociações em andamento. “O Japão é parte essencial da história do Zico, então o filme deve chegar lá e também a outros países.”

Parreira, Ronaldo e Zico
Foto: Peter Wrede – Divulgação

Narrativa orgânica

Fugindo do formato tradicional de documentários, o cineasta optou por uma narrativa mais orgânica, com rodas de conversa temáticas em vez de depoimentos isolados.

“Não gosto de documentários com muitos depoimentos curtos. Criamos rodas de conversa: uma sobre o Flamengo, outra sobre a Seleção, outra sobre o Japão, uma com a família e outra com jornalistas. Assim conseguimos contar a trajetória com mais fluidez”, explica.

“Evitamos também o formato de entrevistas individuais e retiramos elogios diretos. A ideia era que o público chegasse sozinho à conclusão sobre a grandeza dele”, completa.

A importância do lançamento no cinema

Pensado para as telonas, o filme também surge como uma defesa da experiência coletiva do cinema, em um momento em que muitos documentários esportivos são lançados diretamente no streaming.

“Eu acho que isso é resistência. O cinema não pode morrer. E isso tem muito a ver com o espírito do Zico. Ele é um cara do coletivo, do compromisso, do respeito. Logo no início do filme, ele diz que em 60 anos de carreira nunca perdeu um ônibus ou um voo. Isso mostra o nível de comprometimento dele”, afirma o diretor.

Para o cineasta, a história do camisa 10 também dialoga com questões contemporâneas. “É um contraponto a uma geração mais individualista. O Zico sempre pensou no coletivo. E o futebol só funciona assim. Por isso essa experiência no cinema faz tanto sentido.”

Com trajetória que passa pelo fotojornalismo e pelos videoclipes, João vê no documentário um campo em transformação.

“O documentário mudou bastante. Hoje precisamos usar estruturas da ficção, com viradas, conflitos e desenvolvimento de personagens. Não dá mais para fazer só entrevistas com imagens de arquivo. O documentário moderno precisa ter uma narrativa envolvente”, avalia.

Zico no início de carreira no Flamengo, em 1971

A força de Zico para a popularidade do Flamengo

A força de Zico também ajuda a explicar a popularidade do Flamengo em todo o país, inclusive na Bahia, onde segue sendo o time com o maior número de torcedores no estado.

O Clube de Regatas do Flamengo aparece como o time com a maior torcida na Bahia, segundo pesquisa do Datafolha de 2022, com 24% da preferência. O clube lidera o ranking em empate técnico com o Esporte Clube Bahia, que tem 19%.

Em seguida, surge o Esporte Clube Vitória, com 10%, também empatado tecnicamente com Sport Club Corinthians Paulista (9%), Sociedade Esportiva Palmeiras (6%), Club de Regatas Vasco da Gama (4%) e São Paulo Futebol Clube (4%).

O levantamento ouviu presencialmente 1.526 pessoas com 16 anos ou mais, em 82 municípios baianos, entre os dias 19 e 21 de setembro de 2022, com margem de erro de 3 pontos percentuais (para mais ou para menos) e nível de confiança de 95%.

“Ele é gigantesco dentro e fora de campo. Ele ajudou a construir essa paixão nacional pelo Flamengo. É uma responsabilidade grande contar essa história para todo o Brasil”, afirma.

Ao longo do filme, vemos Zico dizer “não sou nenhum gênio”, demonstrando um pouco da sua humildade em relação à própria importância para a história do futebol brasileiro.

“Para mim, ele é um gênio. Eu o coloco no nível do Diego Maradona, talvez até maior em alguns aspectos. A ausência de ter ganho uma Copa do Mundo não deveria definir a grandeza de um jogador”, diz.

O longa também retrata uma aversão inicial da família do jogador ao fato de ele querer seguir a carreira profissional no futebol. Pensando nisso, o documentário também serve como exemplo para as novas gerações de boleiros que surgem ao longo dos anos.

“Talento não basta. É preciso disciplina, compromisso, respeito e pensamento coletivo. Esses valores fazem toda a diferença. O Zico é um exemplo disso”, conclui João Wainer.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Repórter no portal Bahia Econômica. Atualmente, repórter de Cultura no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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