Publicado em 21/05/2026 às 10h00.

A Cor do Som e Novos Baianos: Dadi Carvalho relembra trajetória musical

Em entrevista ao bahia.ba, baixista revisita a criação da sua banda e encontros marcantes da carreira

João Lucas Dantas
Foto: Leo Aversa/ Divulgação

 

Confirmados no Festival Jazz Salvador 2026, que acontece nos dias 30 e 31 de maio, gratuitamente no Largo da Mariquita, no Rio Vermelho, uma das bandas mais importantes do movimento pós-Tropicália no Brasil da década de 1970 encabeçará a noite de sábado da festa: A Cor do Som.

O grupo, formado por Dadi Carvalho, no baixo, violão e vocais; Armandinho Macêdo, na guitarra baiana, guitarra, bandolim e vocais; Mú Carvalho, nos teclados, piano, vocais e composições; Ary Dias, na percussão; e Gustavo Schroeter, na bateria, representa um poderoso encontro musical entre Bahia e Rio de Janeiro.

Os cariocas Dadi, Mú e Gustavo encontraram toda a rítmica soteropolitana representada na guitarra baiana de Armandinho e na percussão de Ary Dias.

Para celebrar a realização de mais uma edição do festival jazzístico em Salvador, Dadi Carvalho foi um dos entrevistados pelo bahia.ba para contar mais sobre a história da Cor do Som e dar uma pincelada na história da música brasileira, para a qual tanto contribuiu como baixista dos Novos Baianos, Jorge Ben Jor, Rita Lee, Caetano Veloso, Marisa Monte, Tribalistas e tantos outros nomes.

O músico, multi-instrumentista, participou de álbuns antológicos da nossa história, como Acabou Chorare (Novos Baianos), África Brasil (Jorge Ben), Na Calada da Noite (Barão Vermelho) e, claro, de um marco da música instrumental brasileira: Ao Vivo em Montreux, de 1978, da Cor do Som.

Em um papo tão rico em boas histórias, muita coisa ficaria de fora da matéria original sobre o festival. Portanto, publicamos abaixo a entrevista na íntegra com essa grande peça da nossa cultura musical.

Mú Carvalho, Armandinho Macêdo, Gustavo Schroeter, Ary Dias e Dadi Carvalho: A Cor do Som. Foto: Daryan Dornelles/ Divulgação

 

P: As pessoas costumam dizer: “Ainda bem que o Espírito Santo separa a Bahia do Rio de Janeiro”, senão seríamos um povo insuportável. Mas A Cor do Som representa a potência deste encontro interestadual. Como é que você enxerga o resultado da união desses dois grandes polos musicais?

Dadi: Eu já tinha uma relação próxima com a Bahia. Meu encontro com os Novos Baianos aconteceu quando eu tinha 19 anos. Eu já sabia que queria ser músico, já fazia música desde os 13 anos. Então esse encontro, para mim, foi muito cedo.

Eu me lembro que foi maravilhoso. Naquela época não tinha internet, não tinha nada disso. A Bahia era muito longe. A primeira vez que fui aí foi por causa dos Novos Baianos, em 1973. E eu me lembro da sensação que tive. Foi minha primeira viagem longa, de carro. Levei dois dias; a gente parou para dormir e continuou.

Quando cheguei, foi maravilhoso. Aquele cheirinho de algas, as baianas ali com aquela tranquilidade, aqueles acarajés… Era uma calmaria única. Foi uma sensação incrível. Eu não esqueço até hoje o perfume que a Bahia tinha.

A partir dali veio o que foi a minha faculdade de música: os Novos Baianos. Nesse tempo em que estivemos juntos, gravamos cinco discos. Então, todo ano a gente ia para a Bahia. Era época do Carnaval e tinha aquela viagem que parecia uma mudança de casa: mesa de pingue-pongue, televisão etc. A gente fazia um show e ficava mais um mês por lá.

Depois teve aquele encontro com o Armandinho no trio elétrico, aparecendo lá na Praça Castro Alves. Aquele som de guitarra, aquela pegada tipo Jimi Hendrix tocando frevo, era uma coisa impressionante.

E eu mal sabia que, logo depois, a gente se encontraria para ter uma banda juntos: a Cor do Som. Até hoje estamos aí. Ficamos tão amigos que praticamente nos consideramos irmãos.

P: Vocês vão se apresentar agora no Festival de Jazz aqui de Salvador. E Festival de Jazz vocês conhecem bem. Um dos discos mais celebrados de vocês é justamente o Ao Vivo em Montreux. Inclusive, está perto de completar 50 anos. Quais são suas maiores lembranças de tocar por lá?

Dadi: Foi uma coisa incrível. Porque, quando comecei a sair dos Novos Baianos, passei a tocar com meu mestre, Jorge Ben Jor. E ele, para mim, é um cara muito importante. Desde os meus 12 anos, quando ouvi Samba Esquema Novo, pirei.

E a primeira vez que saí do Brasil foi com ele, em 1975. A gente foi fazer uma temporada no Olympia, em Paris. Foi incrível. Foi a minha primeira experiência viajando para fora do país.

Depois, de repente, veio a nossa banda. Em 1977, assinamos com a WEA, através de André Midani, que estava trazendo a gravadora para o Brasil. Gravamos nosso primeiro disco.

No começo de 1978, tocamos na festa da WEA, aqui no Rio. Claude Nobs, organizador do Festival de Montreux, na Suíça, viu a gente e convidou a banda para participar, em julho daquele ano. Foi uma sensação incrível, porque era o nosso primeiro show fora do Brasil.

Chegamos naquela cidade linda de Montreux, toda voltada para o festival, com aquelas montanhas e aquele lago incrível. E a gente entrava nas lojas e via a capa do nosso disco em tudo, lojas de chocolate, lojas de roupa.

Foi uma sensação incrível estar tocando no mesmo palco que Ray Charles, Billy Cobham e tantos mestres do jazz. E a gente ali, onde, naquela época, ainda funcionava o Cassino de Montreux — hoje já existe um teatro para isso.

O Ivinho abriu o show — um violonista pernambucano incrível. Depois veio a Cor do Som. Em seguida, Ayrton Moreira fez um show só de percussão, uma hora inteira. E Gilberto Gil fechava. Foi a primeira noite brasileira da história do festival.

A única coisa que teve um pequeno problema foi quando a gente tocou um frevo, com aquela levada reta de bateria. Era época da disco music, e os puristas do jazz odiavam. Então aquilo causou uma pequena estranheza. Mas o resto foi lindíssimo. Foi muito incrível.

P: Você esteve aqui com Armandinho recentemente, na Estação Rubi. Agora vocês vão reunir a banda inteira em um palco maior. Como é, para vocês, tocar em Salvador? A emoção é diferente?

Dadi: Com certeza, porque temos momentos incríveis da Cor do Som em Salvador, e a gente tem um carinho absurdo pela cidade.

Primeiro porque a banda é metade carioca e metade baiana. Tem Armandinho, os irmãos Macêdo… Então sempre existiu essa troca.

A gente é meio baiano também. É muito especial estar na Bahia. O carinho que os fãs têm — e sempre tiveram — pela gente é algo muito bonito.

A Bahia é muito especial para nós.

Foto: Leo Aversa/ Divulgação

 

P: E falando sobre as influências de vocês, claro que havia essa busca pela brasilidade, mas o rock internacional também é muito presente nas músicas da banda. 

A versão de Eleanor Rigby, dos Beatles, que vocês tocam, é histórica. Como acontece esse casamento entre a sonoridade brasileira e aquilo que vocês cresceram escutando de fora?

Dadi: Eu e Armando temos praticamente a mesma idade. Sou alguns meses mais velho que ele — ele gosta de falar isso (risos).

Eu, ele, Pepeu Gomes… Nossa influência musical veio dessa geração dos Beatles, Jimi Hendrix, Eric Clapton, The Who.

Então toda essa mistura está na nossa pegada, no nosso jeito de tocar. No meu jeito de tocar baixo, no jeito do Armando tocar guitarra baiana. Esses eram nossos professores à distância.

Acho que foi isso que trouxe essa característica. Apesar de fazermos chorinho e outras coisas, o Mú que também é um compositor maravilhoso junto com Armando.

Mas o jeito de tocar sai naturalmente. Sempre vai existir uma pegada de rock and roll ali, porque foi isso que a gente cresceu ouvindo, além da música brasileira, claro.

Dadi em shows dos Novos Baianos
Foto: Arquivo Pessoal

 

P: Queria relembrar também a história da origem do nome da banda. Você falou dos Novos Baianos. Foi ali, quando você tocava com eles, que ouviu pela primeira vez o nome Cor do Som?

Dadi: Quando entrei para os Novos Baianos, comecei a tocar com Pepeu e Moraes Moreira. E a gente se identificou logo, exatamente por causa dessas influências que eu falei.

Eu e Pepeu também nos aproximamos muito porque tínhamos praticamente a mesma idade. Ele falava: “Vamos dobrar uma frase assim”, e eu dobrava com ele. A conexão foi imediata.

Eles gostaram de mim, se empolgaram, e estava tudo certo.

O Galvão, que era meio o diretor da banda, além de poeta, tinha uma música com Moraes chamada Cor do Som. É uma música linda. E aí ele falou: “Pronto, já temos o nome da banda”.

Essa banda era formada por mim, Pepeu, Jorginho Gomes — irmão do Pepeu, que ainda chegaria ao Rio para tocar bateria — e Baixinho, que era um percussionista de São Paulo e também tocava bateria.

Nós quatro formamos essa banda, A Cor do Som. Tanto que no disco Acabou Chorare aparece nos créditos: “Novos Baianos e A Cor do Som”. Está lá, Pepeu na guitarra, Dadi no baixo… Esse nome já existia.

No segundo disco, Novos Baianos F.C., foi a mesma coisa. Os Novos Baianos eram os quatro: Baby, Moraes, Galvão e Paulinho Boca. E A Cor do Som era eu, Pepeu, Jorginho e Baixinho.

Anos depois, quando formamos a nossa banda — eu, Armandinho, Mú, Ary e Gustavo — precisávamos de um nome.

Aí pensamos: “Pô, esse nome é tão bonito, Cor do Som”.

Fui falar com Pepeu: “Montamos uma banda e queríamos usar esse nome”.

E ele respondeu: “Lógico, pode usar”.

Também falei com Galvão, porque a letra era dele, e ele disse a mesma coisa: “Pode usar”.

E a gente acabou adotando esse nome. Então A Cor do Som é uma homenagem àquela banda que tivemos dentro dos Novos Baianos.

P: Antes mesmo de vocês formarem a banda, você já tinha gravado alguns álbuns antológicos em outros projetos. Na época, sentiu a necessidade de criar um projeto próprio? E como foi o encontro com Armandinho, Ary e os outros?

Dadi: Tocar com Jorge, para mim, foi uma coisa maravilhosa. Ele é meu mestre desde que eu tinha 12 anos. E ele tinha uma ligação com a minha família, porque o Paulinho Tapajós era casado com a minha irmã e foi ele quem produziu discos como Tábua de Esmeralda e Solta o Pavão.

Quando Moraes saiu dos Novos Baianos, eu ainda fiquei mais um ano. Gravamos mais um disco sem ele, que foi Vamos Pro Mundo.

Mas eu sentia muita falta daquela formação original. Moraes e Galvão tinham uma química muito especial nas composições.

Aquilo me deixou um vazio, e acabei saindo também, talvez um ano depois. Fiquei meio perdido, na verdade. Mas foi maravilhoso porque fui tocar com Jorge Ben Jor. Ele me chamou logo depois que saí. Falou para o meu pai: “Eu vou salvar o Dadi.” E me salvou mesmo.

Depois disso, a gente passou a se encontrar muito. Moraes morava no Leblon, chamou Armando, e eles passavam horas fazendo música, tocando.

Eu também ia para lá. Depois Moraes foi gravar o primeiro disco solo dele e chamou Armando, eu e Gustavo. E nisso a gente já tinha feito algumas coisas juntos. Gravamos o disco inteiro do Moraes. O Mú também gravou uma música. Ele é mais novo que eu, era praticamente um garoto, tinha 16 anos.

Depois começamos a pensar: “Pô, vamos montar uma banda”. A gente se empolgou muito com a ideia de desenvolver um trabalho nosso. E foi o que aconteceu.

Levamos esse disco para a PolyGram, mas eles disseram: “É instrumental. Instrumental não vende.” Só que André Midani estava chegando com a WEA no Brasil e montando o casting da gravadora.

Ele já me conhecia dos Novos Baianos e sempre teve uma ligação forte comigo. E falou: “Vamos contratar”. Nem quis ouvir o material. Disse: “Contrata A Cor do Som.” Aí assinamos para três discos.

Gravamos o primeiro, que era praticamente instrumental, com apenas uma música cantada, porque era meio uma brincadeira com o nome da banda.

Depois gravamos o segundo, Ao Vivo em Montreux, em cima desse repertório. Até que André falou: “Vocês precisam colocar músicas cantadas no disco porque ele não está se pagando.”

Ele dizia que música instrumental não tocava no rádio. Foi aí que surgiu a ideia de fazer um disco misturando instrumental com algumas músicas cantadas — umas três faixas.

E eu me lembro que pensei como a questão da letra é fundamental. Todo mundo elogia a gente como músico, mas a gente precisava ter uma poesia forte também.

Aí pensei: “Vamos pedir uma música para Caetano, que é o nosso poeta maior, e para o Gil.”

O Vinícius Cantuária, que é meu amigo, tocava com o Caetano. A gente foi à casa dele, explicou a ideia, e ele mostrou Beleza Pura. Eu falei: “Pô, maravilhoso”.

Depois ele foi ao estúdio onde a gente ensaiava. Tocava, mostrava a música para todo mundo.

E a mesma coisa fizemos com Gil. Fomos à casa dele e ele mostrou Abri a Porta, que havia feito com Dominguinhos.

Foi aí que o Mú acabou fazendo uma música com Moraes, Swing Menina. Foi assim que o disco Frutificar se formou, com essa mistura de instrumental e músicas cantadas.

Muito inspirado também no Santana, porque os discos dele eram assim, tinham músicas instrumentais e músicas cantadas.

P: Na época, você sentia a necessidade de criar um projeto próprio?

Dadi: Era o nosso sonho fazer um projeto próprio. É maravilhoso ter um trabalho que é seu, que você decide, escolhe e constrói. Apesar de ser uma banda, cada um pensa diferente do outro.

Mas eu tenho meus discos solo também. Já gravei quatro, que estão no Spotify. Só que é aquela coisa, eu não trabalho muito em cima da divulgação, então acaba ficando meio perdido.

P: O que o público pode esperar desse show aqui em Salvador no dia 30?

Dadi: Olha, quando a gente se junta para tocar é sempre um revival na nossa cabeça, ali em cima do palco. Então, com certeza, a galera pode esperar uma vibe muito legal. Vai rolar bonito. Vai ser bem especial.

Estamos loucos para chegar a esse palco. Vai ser maravilhoso tocar nesse festival, na Bahia. É tudo o que a gente quer. Pode esperar que a gente está firme e forte.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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