Publicado em 21/05/2026 às 06h00.

Festival Salvador Jazz reúne grandes nomes da música no Rio Vermelho

Em entrevista ao bahia.ba, Amaro Freitas e A Cor do Som destacam força da música negra e instrumental

João Lucas Dantas
Foto: Caio Lírio/ Divulgação

 

A sétima edição do Festival Salvador Jazz acontece entre os dias 27 e 31 de maio, retornando ao Rio Vermelho com uma extensa programação gratuita.

No sábado (30) e domingo (31), o tradicional Largo da Mariquita irá receber um line-up de peso para o público soteropolitano. Sandra Sá, Amaro Freitas, A Cor do Som, Camila Rocha, Aguidavi do Jêje, Skanibais e Grupo Garagem irão movimentar a capital baiana.

Além da programação musical, também acontecerão oficinas criativas com grandes nomes da música, sob a assinatura do bluesman Eric Assmar, do baterista Tedy Santana e da professora Marília Sodré (SAMBAIANA).

Para celebrar a realização desta vasta experiência musical que acontecerá na próxima semana, o bahia.ba bateu um papo com alguns dos responsáveis por fazer a festa acontecer.

O baixista carioca Dadi Carvalho falou sobre as emoções de reunir A Cor do Som, o pianista pernambucano Amaro Freitas comentou a importância do encontro entre Recife e Salvador, e o curador do festival, Fabrício Mota, explicou um pouco mais sobre os bastidores do evento.

Foto: Divulgação

A ousadia do solo de Amaro Freitas

Uma das grandes atrações, que irá se apresentar no sábado (30), às 19h30, Amaro Freitas é um dos nomes mais importantes da nova geração da música instrumental brasileira.

Nascido no Recife, o pianista ganhou destaque internacional ao desenvolver uma sonoridade que mistura jazz com ritmos afro-brasileiros e nordestinos, como maracatu, frevo, baião e coco. Sua música também dialoga com improvisação, espiritualidade e referências da cultura negra brasileira.

Com álbuns como Sangue Negro, Rasif, Sankofa e Y’Y, o artista passou a circular por alguns dos principais festivais de jazz do mundo, sendo frequentemente apontado pela crítica internacional como um dos músicos mais inovadores da cena contemporânea.

“O Brasil sempre esteve muito bem representado no mundo, e a gente tem que agradecer imensamente a mestres como Naná Vasconcelos, Pixinguinha, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Tania Maria, Dom Salvador e Letieres Leite, algumas das pessoas que desbravaram a música brasileira ao redor do mundo e criaram uma identidade para a música instrumental, improvisada e criativa. Então, é um grande orgulho para mim seguir esse caminho”, celebrou Amaro.

“Chegar para tocar em um teatro em Oslo, na Noruega, e ver uma foto do Hermeto Pascoal. Chegar para tocar em uma cidade da Itália e ver uma foto do Naná Vasconcelos, escutando pessoas dizerem: ‘Ah, eu me lembro de ter visto um show de Naná há 30 anos aqui’. Isso é muito importante para mim”, acrescentou.

Segundo o músico, o show em Salvador será “muito maluco” e representa uma conexão direta com esses grandes nomes que abriram caminhos para a música brasileira no exterior.

“Para a gente chegar onde estamos hoje, muito sangue foi derramado, muitas pessoas sofreram, mas resistimos. E aqui estamos, prosperando e falando sobre uma música brasileira conectada à subjetividade e às nossas raízes mais profundas”, pontuou o pianista.

Prometendo um grande encontro da música brasileira, Amaro destaca Salvador como um território de manifestação de uma identidade brasileira “mais negra, potente e resistente”.

“Isso combina muito, diz muito sobre o Brasil negro. Esse encontro de Pernambuco com Salvador, essa riqueza ancestral afro-brasileira. Mal posso esperar para viver esse momento na cidade e celebrar, com minhas irmãs e meus irmãos, a música que eu faço”, destacou o pianista.

Foto: Daryan Dornelles/ Divulgação

A potência da Cor do Som

Encerrando o sábado (30), às 21h50, A Cor do Som, um dos mais tradicionais expoentes da música instrumental no Brasil, sobe ao palco com sua formação composta por Dadi Carvalho, no baixo, violão e vocais; Armandinho Macêdo, na guitarra baiana, guitarra, bandolim e vocais; Mú Carvalho, nos teclados, piano, vocais e composições; Ary Dias, na percussão; e Gustavo Schroeter, na bateria.

Para Dadi, a conexão com a Bahia vem desde o início da década de 1970, quando foi baixista do histórico grupo Novos Baianos.

“A primeira vez que fui aí foi por causa dos Novos Baianos, em 1973. E eu me lembro da sensação que tive. Foi minha primeira viagem longa, de carro. Levei dois dias; a gente parou para dormir e continuou”, relembrou.

“Quando cheguei, foi maravilhoso. Aquele cheirinho de algas, as baianas ali com aquela calmaria, aqueles acarajés… Era uma tranquilidade única. Foi uma sensação incrível. Eu não esqueço até hoje o perfume que a Bahia tinha”, disse Dadi com carinho.

A Cor do Som surgiu justamente do encontro do baixista com a potência da guitarra baiana, depois de ver Armandinho tocar em um trio elétrico durante o Carnaval.

“Aquele som de guitarra, aquela pegada tipo Jimi Hendrix tocando frevo, era uma coisa impressionante. E eu mal sabia que, logo depois, a gente se encontraria para ter uma banda juntos. Até hoje estamos aí. Ficamos tão amigos que praticamente nos consideramos irmãos”, expressou.

O baixista, que fez história em gravações de álbuns antológicos como Acabou Chorare, dos Novos Baianos, e África Brasil, de Jorge Ben Jor, revelou ter um carinho especial por Salvador.

“A gente é meio baiano também. É muito especial estar na Bahia. O carinho que os fãs têm, e sempre tiveram, pela gente é algo muito bonito. É muito especial para nós”, revelou.

Segundo o músico, que também empresta a voz para clássicos da banda, como “Abri a Porta”, de Gilberto Gil e Dominguinhos, o público soteropolitano pode esperar uma grande apresentação.

“Quando a gente se junta para tocar é sempre um revival na nossa cabeça, ali em cima do palco. Então, com certeza, a galera pode esperar uma vibe muito legal. Vai rolar bonito. Vai ser bem especial”, afirmou.

“Estamos loucos para chegar a esse palco. Vai ser maravilhoso tocar nesse festival, na Bahia. É tudo o que a gente quer. Pode esperar que a gente está firme e forte”, concluiu Dadi.

Para além do Jazz como gênero

Com uma programação diversa, a festa reúne músicos e movimentos que vão além do gênero musical, como explicou Fabrício Mota.

“Eu avalio que o Festival Salvador Jazz respeita o princípio do que é a música jazz, que é uma música não tradicional. O jazz nasce para transgredir os limites da música europeia, usando ferramentas técnicas para criar um grito de liberdade que se revela por meio de uma expressão livre da música, sobretudo da música instrumental”, afirmou.

Para um dos responsáveis pela realização do evento, a Bahia tem representado bem o gênero, que ganhou uma nova casa e uma nova forma de ser feito, dialogando diretamente com suas raízes afrodescendentes.

“O tempo todo, grupos instrumentistas, coletivos e artistas individuais promovem essas interseções com outros gêneros da música negra que também foram influenciados pelo jazz, como o afrobeat, o reggae, a soul music e o samba. Então, a gente entende isso como uma missão”, completou.

Line-up do evento:

Dias 27, 28 e 29 de maio (oficinas):

Eric Assmar (27/05);

Tedy Santana (28/05);

Marília Sodré (29/05);

Dia 30 de maio (shows):

Camila Rocha (a partir das 18h);

Amaro Freitas (a partir das 19h30);

Skanibais (a partir das 20h30);

A Cor do Som (a partir das 21h50);

Dia 31 de maio (shows):

Aguidavi do Jêje (a partir das 17h);

Grupo Garagem (a partir das 18h30);

Sandra Sá (a partir das 19h50)

 

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

Mais notícias

Este site armazena cookies para coletar informações e melhorar sua experiência de navegação. Settings ou consulte nossa política.

Mood Club