Pedro Almodóvar reflete culpa sobre criação artística em ‘Natal Amargo’
Novo longa do diretor espanhol mistura realidade e ficção em uma autoficção melodramática

O cineasta espanhol Pedro Almodóvar, com aproximadamente 46 anos de carreira e mais de 20 longas-metragens na filmografia, já não precisa provar mais nada como artista, e parece compreender isso, já que faz o exato oposto ao se punir severamente na sua nova empreitada, Natal Amargo.
Com estreia marcada para os cinemas brasileiros no dia 28 de maio, o diretor borra as fronteiras entre realidade e ficção ao construir um autorretrato do que seria o seu processo de escrever uma nova obra.
As dores do processo criativo
Talvez as quase cinco décadas dedicadas integralmente ao cinema estejam começando a pesar na consciência do espanhol, que aqui faz uma grande autocrítica, extremamente sincera, sobre como o seu processo criativo se aproveita da inspiração das pessoas e situações que o orbitam.
É uma poderosa autorreflexão que aproveita o que há de melhor e o que há de mais escalafobético no seu modo de filmar, que sempre foi muito próprio e autoral. Isso significa que vai agradar os amantes de um bom melodrama e afastar os que não valorizam esse traço.
Natal Amargo acompanha Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, uma diretora de publicidade que tenta lidar com perdas e crises pessoais enquanto, anos depois, um cineasta transforma suas vivências em um roteiro inspirado na realidade.
Entre passado e presente, o longa de Pedro Almodóvar mistura drama, memória e os limites entre vida real e criação artística.

Foto: Warner Bros. Pictures
O autorretrato sincero
Os primeiros minutos do filme demoram para engatar, até que fica claro o que está realmente acontecendo. Talvez seja melhor aproveitado por quem tem um contexto prévio sobre quem é Almodóvar, já que o longa coestrelado por Leonardo Sbaraglia faz um personagem reflexo de quem é o diretor na vida real, inclusive fisicamente.
Ao estabelecer duas linhas do tempo de forma metalinguística, colocando um filme dentro do filme, há um tom mais novelesco que pode gerar certa estranheza, enquanto a linha da “vida real” nos coloca de volta no eixo. Ao mesmo tempo, não é nem de longe o mais radical dos filmes do cineasta.
O terceiro ato impulsiona o filme para algo além do mediano e tira os espectadores do eixo com toda a honestidade em que percebemos, cada vez mais, que o longa trata sobre a dor que o cineasta causa às pessoas ao seu redor ao utilizar aspectos muito pessoais das suas vidas como “inspiração”.
Mesmo assim, um filme do diretor espanhol em pleno 2026 ainda é uma explosão de cores muito bem-vinda em um cinema que parece tomado pelos tons de cinza minimalistas e sem personalidade.

Foto: Warner Bros. Pictures
Cores de Almodóvar
Em parceria com o diretor de fotografia Pau Esteve Birba, há uma intimidade com a câmera, que parece dançar ao redor dos personagens sem errar o ritmo ou os passos.
É uma sensação evocada por artistas que pertencem ao primeiro escalão do ofício que produzem, por mais dolorido que isso possa ser.
O que será que há de tão pessoal nos outros filmes de Almodóvar que o colocou em situações tão complicadas, abalando seus relacionamentos amorosos, amizades e relações de trabalho? Acho que não saberemos. Melhor assim.
A partir do momento em que nascem, as obras pertencem a quem vai consumi-las, e não mais aos realizadores, que já cumpriram seu papel.
Não é necessário para o espectador saber quais dores provocaram as loucuras vividas em clássicos como Tudo Sobre Minha Mãe, Volver ou o polêmico A Pele que Habito.
Como um grande cinéfilo, acima de tudo, o espanhol se junta a outros grandes nomes da história do cinema que também já olharam para dentro de si para questionar o papel da arte que eles próprios produzem.
Federico Fellini com 8½, Charlie Kaufman com Adaptação, e até mesmo o brasileiro Eduardo Coutinho, com Jogo de Cena, para citar alguns.

Foto: Warner Bros. Pictures
O retorno à Espanha
Após se aventurar com um filme todo falado em inglês, lançado em 2024, O Quarto ao Lado, Natal Amargo também representa um retorno do diretor à sua língua materna, aos seus deslumbrantes cenários na Espanha e à abertura sincera aos espectadores sobre como se dá o seu processo de pensar em um novo longa.
Não é exatamente um filme fácil de digerir, mesmo sem cenas de violência ou situações extremamente catárticas, porque é, acima de tudo, uma grande punição. Colocar-se de maneira tão cruelmente sincera, expondo todos os seus defeitos e sua falta de tato social para separar a vida da arte. Se é que há separação.
Mesmo sendo um dos filmes tonalmente mais díspares da sua carreira, o que é uma ousadia interessante de se observar para um artista na casa dos 76 anos, é também uma das suas apostas mais seguras.
Ao centralizar o alvo em si mesmo, o diretor evita tocar em temas mais atuais ou polêmicos, como sempre teve coragem de tratar com particularidade.
Apesar dos pesares, é sempre um deleite mergulhar no universo de tons avermelhados, grandes protagonistas femininas e melodrama intenso que Almodóvar faz tão bem.
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