Publicado em 20/05/2026 às 15h31.

Abrasel aponta derretimento do apoio popular ao fim da escala 6×1

Na avaliação dos empresários, a sociedade está compreendendo melhor os impactos e os custos da proposta

Redação
Foto: Divulgação / Abrasel


Um artigo publicado pela Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) aponta que o apoio popular ao projeto que visa proibir a escala 6×1 está em queda. Dados do Datafolha, da AtlasIntel, da Genial/Quaest e da Escuta Social da Abrasel indicam que esse apoio vem diminuindo à medida que o debate amadurece e a população passa a conhecer melhor seus impactos econômicos, seus custos e o risco de piora dos serviços essenciais.

Em março de 2026, a Escuta Social da Abrasel registrava 73% de manifestações favoráveis ao fim da escala 6×1 nas redes sociais. No mesmo período, o Datafolha apontava 71% de apoio à proposta.

Já em 26 de abril, o indicador da Escuta Social caiu para 66%, sinalizando uma mudança relevante de percepção em poucas semanas. Em 30 de abril, levantamento da AtlasIntel mostrou um patamar ainda mais baixo, com 59,4% de favoráveis.

No início de maio, houve uma oscilação pontual. Em 1º de maio, a Escuta Social indicou 67% de apoio, mas a tendência de queda voltou a aparecer na sequência.

Em 8 de maio, o Datafolha registrou recuo para 64% As perguntas das duas pesquisas do Datafolha não eram exatamente iguais, pois em maio a pergunta sobre o apoio era precedida por uma pergunta sobre o nível de conhecimento do assunto, mas as duas avaliaram o suporte à proibição.

O percentual de 64% se repetiu no dia 9 de maio na Escuta Social da Abrasel. No levantamento da Genial/Quaest, o apoio, que era de 72% em dezembro, caiu para 68% em maio. O conjunto dos dados revela um desgaste gradual do apoio popular à proposta nos levantamentos mais recentes que permitem comparação temporal.

Foto: Divulgação / Abrasel

 

No caso específico do Datafolha, a Abrasel observa que as perguntas feitas em março e em maio tiveram formulações diferentes. Ainda assim, os resultados ajudam a mostrar uma mudança no ambiente de opinião: em março, quando a pergunta tratava da redução da jornada máxima de trabalho, o apoio foi de 71%; em maio, quando a pergunta passou a tratar diretamente da proposta de fim da escala 6×1, o apoio registrado foi de 64%.

O resultado ocorre logo após uma forte ofensiva de comunicação do governo em defesa da proposta, com veiculação em cinema, televisão, rádio, meios digitais e participação direta do presidente da República. Diversos partidos de esquerda embarcaram no movimento, inclusive organizando manifestações com suas militâncias em algumas capitais. Mesmo com esse esforço institucional de grande alcance, a Escuta Social da Abrasel já aponta que a tendência de recuo segue, de forma ainda mais acelerada, no ambiente digital.

Para a Abrasel, esse movimento mostra que a sociedade não está simplesmente rejeitando o debate sobre qualidade de vida, mas passando a fazer uma pergunta mais concreta: quem paga essa conta e como os serviços vão funcionar?

À medida que os custos, os impactos nos preços, o risco de redução de horários, a ameaça aos serviços essenciais e a ausência de paralelo internacional entram no debate, o apoio automático à proibição da escala 6×1 perde força.

A Escuta Social da Abrasel é um sistema de medição contínua que acompanha a evolução da opinião pública a partir da análise de publicações e comentários em mídias sociais, como YouTube, Facebook, Instagram, X e TikTok, além de conteúdos publicados em grandes veículos jornalísticos e sites de opinião. O indicador funciona como umtermômetro do debate público e permite identificar mudanças de percepção conforme novas informações passam a circular.

Mesmo diante dessa tendência, o Congresso Nacional tem acelerado a tramitação de projetos que tratam da proibição da escala 6×1. Para o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, há um claro descompasso entre o ritmo do Legislativo e o amadurecimento da discussão na sociedade.

“Mesmo depois de uma campanha oficial pesada, com televisão, cinema, rádio, internet e o próprio presidente da República defendendo a proposta, o apoio não voltou a crescer de forma consistente. Vários líderes e representantes do governo esperavam que com a campanha a aprovação ultrapassasse os 80%”, diz Solmucci.

E agora vemos o contrário. A escuta social já mostra que o recuo continua. Isso revela que, quando a população entende os custos, os impactos nos serviços e o fato de que nenhum país do mundo adotou esse tipo de proibição, o apoio emocional começa a derreter. A pressa pela eleição não pode ignorar os interesses e a vida do brasileiro”, complementa o presidente da Abrasel.

A associação também chama atenção para uma confusão recorrente no debate público entre escala de trabalho e jornada de trabalho. A escala diz respeito à forma de distribuição dos dias trabalhados e de descanso ao longo da semana, enquanto a jornada trata do número de horas trabalhadas. Para a entidade, discutir redução de jornada pode ser legítimo, desde que com base em produtividade, negociação e realidade setorial. O problema é proibir por lei uma escala específica de trabalho, criando uma regra rígida para setores, empresas e regiões com realidades muito diferentes.

Segundo a Abrasel, a proibição da escala 6×1 traria impactos profundos para os setores essenciais, especialmente na saúde, alimentação fora do lar, serviços públicos, atividades de manutenção urbana e transporte, o que impactaria a sociedade como um todo. A entidade argumenta que a medida aumenta significativamente os custos operacionais, pressiona preços, reduz a competitividade e ameaça empregos, sobretudo em pequenos e médios negócios.

Outro efeito apontado é o aumento do risco de informalidade. Com margens já apertadas, muitos pequenos e médios estabelecimentos poderiam ser forçados a reduzir equipes, cortar turnos, limitar horários de funcionamento ou recorrer a vínculos informais para manter as portas abertas. Além disso, a entidade destaca que uma regra única ignora a diversidade do mercado de trabalho brasileiro e enfraquece a negociação coletiva, que hoje permite soluções mais adequadas a cada setor e região.

Para a Abrasel, discutir qualidade de vida, descanso e produtividade é legítimo e necessário. O que não faz sentido, segundo a entidade, é impor uma solução única, sem avaliar consequências econômicas e sociais, em um momento em que os próprios indicadores de opinião mostram que o apoio popular à proibição da escala 6×1 está em queda.

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