Salvador recebe Ópera de Pequim em apresentação inédita na Concha Acústica
Espetáculo “A Lenda da Serpente Branca” integra programação do Ano Cultural Brasil-China 2026

Salvador está entre as cidades brasileiras que irão receber, em maio, uma das mais tradicionais expressões artísticas da cultura chinesa. Neste sábado (23), às 19h, a Concha Acústica do TCA será palco da peça “A Lenda da Serpente Branca”, uma das mais celebradas do repertório da Companhia Nacional da Ópera de Pequim.
A passagem do grupo pela capital baiana reforça a relevância da cidade no circuito internacional das artes e oferece ao público a oportunidade rara de vivenciar, ao vivo, uma linguagem cênica centenária que retrata uma cultura milenar, reconhecida mundialmente por sua riqueza estética e técnica.
Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, a apresentação integra a programação do Ano Cultural Brasil-China 2026, iniciativa conjunta dos dois países que promove uma ampla agenda de intercâmbio artístico ao longo do ano. A proposta é fortalecer as relações bilaterais por meio da cultura, incentivando a circulação de produções, o encontro entre artistas e o acesso do público a diferentes linguagens culturais. Nesse sentido, a plateia poderá acompanhar o espetáculo traduzido por meio de telões com legendas.
A turnê da Companhia Nacional da Ópera de Pequim é apresentada pelo Ministério da Cultura e pela CTG Brasil, com apoio da Lei Rouanet, e realização da Dellarte, Ministério da Cultura e Governo do Brasil – Do lado do povo brasileiro. A produção local é da Caderno 2 Produções. Além de Salvador, a companhia fará apresentações em São Paulo (12 e 13/05), Belo Horizonte (16/05) e Brasília (19/05). Os ingressos já estão à venda no Sympla.
Nesta sexta-feira (22), a companhia realizou uma coletiva de imprensa em Salvador, que contou com a presença de representantes do bloco afro Ilê Aiyê, além do diretor executivo da Dellarte.
Para Edmilson Filho, a linguagem da percussão ultrapassa as fronteiras da fala. “Nós já tivemos uma experiência na China, em Pequim, com essa parte percussiva do nosso trabalho. E isso é uma continuidade desse caminho. Quando você fala dos extremos, eu penso muito nisso também. Acho que vivi exatamente essa sensação agora, enquanto estava ali. E essa extremidade acaba sendo inclusiva”, afirmou ao bahia.ba.
“Se você me perguntasse, em uma frase, como resumir tudo isso, eu diria que a percussão é a linguagem universal do mundo. Pessoas com a maior distância linguística conseguem se integrar, conseguem criar juntas através da cultura e da arte. E é exatamente isso que a gente está vendo acontecer”, acrescentou.
Pilar da tradição teatral chinesa
A Ópera de Pequim é considerada um dos pilares da tradição teatral chinesa. O gênero combina música, canto, dança, interpretação dramática, acrobacias e artes marciais em uma linguagem cênica altamente estilizada, construída ao longo de séculos.
“A valorização da diversidade cultural e o fortalecimento das relações entre Brasil e China são pilares da nossa estratégia de investimento social e parte do nosso compromisso de longo prazo com o país. Apoiar a turnê brasileira da Ópera de Pequim, durante o Ano Cultural Brasil-China, é uma forma de reforçar o intercâmbio cultural e aproximar ainda mais os dois países”, afirma Luís Fernando Lisboa Humphreys, gerente sênior de Estratégia e Sustentabilidade da CTG Brasil.
A origem da Ópera de Pequim remonta às tradições teatrais desenvolvidas na China imperial e consolidadas entre os séculos XVIII e XIX. Ao longo do tempo, o gênero tornou-se uma das formas artísticas mais representativas da cultura chinesa, preservando narrativas históricas, lendas populares e histórias clássicas da literatura do país.
Já o diretor executivo da Dellarte, Steffen Dauelsberg, destacou que a ação faz parte de um conjunto oficial do governo chinês dentro do Ano Cultural China-Brasil.
“Nós já trabalhamos com a cultura chinesa há mais de 25 anos e, naturalmente, queremos sempre ampliar a base de atuação deles no país. Salvador foi uma escolha natural por conta dessa abertura, dessa escuta que o povo baiano tem para culturas diversas. E, nesse sentido, acertamos em cheio, porque o que aconteceu hoje aqui foi mágico. Está acontecendo uma integração incrível entre as culturas, porque a música, a percussão e os sentimentos são universais”, disse ao bahia.ba.

Acrobacia e artes marciais
Nas apresentações, os intérpretes utilizam diferentes técnicas vocais, que incluem canto, fala e recitação para narrar histórias e expressar emoções. A música é executada por uma orquestra tradicional chinesa, composta por instrumentos característicos como o erhu, instrumento de cordas, e o suona, instrumento de sopro.
Os movimentos coreográficos e os gestos simbólicos fazem parte da dramaturgia, enquanto sequências de acrobacia e combate, inspiradas nas artes marciais, acrescentam dinamismo às cenas.
A estética da Ópera de Pequim destaca-se pelo uso de figurinos suntuosos e imponentes, maquiagem marcante e estilizada e adereços simbólicos e exuberantes que ajudam a definir a identidade dos personagens. Confeccionados manualmente por artesãos especializados, os figurinos apresentam cores intensas e detalhes intrincados, enquanto adereços como espadas, leques e lenços reforçam gestos e movimentos durante as cenas.
“A Lenda da Serpente Branca” apresenta uma das histórias mais conhecidas do folclore chinês. A trama acompanha o amor entre a Dama Branca, espírito de uma serpente que assume forma humana, e o jovem Xu Xian, com quem se casa após um encontro às margens do Lago Ocidental.
O relacionamento desperta a oposição do monge Fahai, que considera a união entre um humano e um espírito uma violação das leis naturais. A narrativa mistura romance, elementos sobrenaturais e cenas de forte expressividade cênica.
História
Fundada em 1955 e vinculada ao Ministério da Cultura e Turismo da República Popular da China, a Companhia Nacional da Ópera de Pequim reúne alguns dos principais intérpretes e criadores dedicados à preservação e ao desenvolvimento da Ópera de Pequim. Seu primeiro presidente foi Mei Lanfang, um dos maiores mestres da história desse gênero e figura central na difusão internacional da arte chinesa.
Ao longo de sua trajetória, a companhia construiu um repertório com mais de 500 obras, entre peças tradicionais, narrativas históricas e criações contemporâneas. Suas produções são apresentadas regularmente em turnês internacionais, levando a tradição da Ópera de Pequim a palcos de diversos países e contribuindo para o intercâmbio cultural entre a China e o restante do mundo.
Com o reconhecimento da Ópera de Pequim como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a companhia passou a ser considerada internacionalmente como um importante baluarte na preservação e divulgação dessa forma de arte, com um vasto repertório inspirado na história, no folclore e na cultura chinesas.
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