Publicado em 27/05/2026 às 11h47.

Ivete 5.4: Por que o lugar dela ainda é no meio do povão?

Cantora mantém vínculo raro com a rua mesmo após três décadas de carreira

Marcos Flávio Nascimento

Raffa Mattei / iESSi

Em um tempo onde celebridades parecem cada vez mais distantes, blindadas por assessorias, filtros e redes sociais estrategicamente calculadas, Ivete Sangalo continua sustentando um fenômeno raro no entretenimento brasileiro: a sensação de proximidade real com o povo. Tem artista que arrasta multidão; Ivete te puxa para a intimidade. Aos 54 anos, completados nesta quarta-feira (27), a cantora baiana comemora mais do que uma data. Ela provoca uma discussão sobre o que ainda significa ser um ídolo popular no Brasil.

Poucas artistas conseguiram atravessar três décadas de carreira sem perder a identificação com a rua. Em Salvador, especialmente, Ivete segue ocupando um espaço quase impossível de replicar: o de celebridade milionária que ainda parece acessível para quem está “fora da corda”.

Enquanto boa parte da indústria do entretenimento passou a fabricar personalidades cada vez mais controladas, Ivete permaneceu imprevisível. E talvez seja justamente aí que mora a força dela.

Existe uma percepção coletiva de que a cantora nunca “desaprendeu Salvador”. O sotaque continua intacto, as expressões populares seguem naturais e o jeito expansivo parece o mesmo de quem conversa numa mesa de bar no Rio Vermelho.

A artista que nunca suavizou a própria identidade

É comum que artistas brasileiros neutralizem sotaques e regionalismos para alcançar projeção nacional. Com Ivete aconteceu justamente o contrário. Ela basicamente nacionalizou o “baianês”, o famoso “Quem é essa aí, papai?” e aquele jeito acelerado e bem-humorado típico do baiano.

O diferencial é que isso nunca soou artificial. Em Ivete, o “gente como a gente” não parece estratégia de marketing. Funciona porque parece continuidade da vida real.

Administrador da página “IS A Mais Amada”, Paulo Victor Lima, de 30 anos, avalia que a cantora conseguiu construir algo raro entre grandes estrelas da música brasileira. “A Ivete sempre tentou, nunca permitiu que a imagem dela se transformasse em um mito distante. Isso faz com que o povo tenha essa visão dela como uma pessoa do bem, uma pessoa legal”, afirma.

Para ele, até quem hoje critica a artista em algum momento já consumiu ou se identificou com ela. “Mesmo as pessoas que tentam ‘tacar hate’ na Ivete já se pegaram ouvindo ou gostando dela como pessoa. Ela consegue se destacar principalmente pelo lado humano”, pontua.

Essa percepção também aparece longe dos palcos. Rafael Alves, de 26 anos, acompanha a cantora em aeroportos, Carnaval e viagens há anos, e diz que a diferença entre a artista pública e a pessoa Ivete praticamente não existe. “Ivete com as câmeras desligadas é a mesma coisa com elas ligadas. A gente dá muita risada e ela sabe da vida de todo mundo”, conta.

Acervo Pessoal / Rafael Alves

Segundo Rafael, o que mais impressiona é a maneira como a cantora cria conexão verdadeira com quem acompanha sua trajetória. “Ela prefere que você pergunte como ela está, que conte da sua vida. E ela rende assunto mesmo. Você percebe que ela presta atenção”, relata.

O jornalista de entretenimento Rafa Godinho, com quase 20 anos de carreira e passagem pela Revista Quem, acredita que a autenticidade da artista seja justamente o ponto central dessa relação popular construída ao longo das décadas.

“Todo mundo tem a sensação, quando acompanha uma entrevista ou está num show da Ivete, de que ela é uma amiga, uma prima, uma tia querida muito próxima. Ela cria essa intimidade com o público, e são poucas pessoas que conseguem isso”, analisa.

O carisma que atravessa gerações

No palco, em entrevistas ou nos bastidores, Ivete passa a impressão de improvisar a própria vida. O público percebe quando espontaneidade é treinada, e talvez por isso a verdade dela atravesse tantas gerações.

A cantora também nunca adotou o distanciamento clássico das grandes celebridades. Continua reagindo no impulso, dando bronca ao vivo, fazendo piada de si mesma e transformando momentos comuns em cenas virais com naturalidade.

Paulo acredita que essa conexão vem desde os tempos da Banda Eva e acabou influenciando artistas que vieram depois. “Até então os artistas eram muito distantes do público. Depois da Ivete, muitos começaram a entender outra forma de se comunicar”, diz.

Ele também destaca que a artista soube dialogar com diferentes gerações sem parecer forçada. “Mesmo entrando em tendências ou ondas da internet, ela faz isso de maneira espontânea. A Ivete sempre cantou de tudo, gravou com artistas de todos os estilos possíveis”, avalia.

Rafael reforça que, mesmo após décadas de fama, ainda se surpreende com pequenas atitudes da cantora. “Todos os encontros com ela são deliciosos. Mas uma coisa que sempre me pega é quando ela fica conversando, conversando, e depois solta um ‘eu tenho que ir’ rindo”, brinca.

Para Rafa Godinho, a permanência de Ivete no topo também passa pela capacidade de acompanhar mudanças culturais sem perder a própria essência. “Ela é uma artista que não parou no tempo. Está sempre antenada nas tendências musicais, culturais e até nas discussões comportamentais. Isso faz muita diferença”, afirma.

Acervo pessoal / Rafa Godinho

O jornalista também destaca a habilidade da cantora de circular entre diferentes públicos sem parecer artificial. “Ela consegue ir do luxo ao lixo com muita facilidade, sem forçar nada. Conversa tanto com quem está na pipoca quanto com grandes empresários e contratantes. E tudo isso sendo ela mesma”, pontua.

A rainha da pipoca segue legitimada pela rua

No Carnaval de Salvador, essa relação fica ainda mais evidente. Ivete é um fenômeno comercial gigantesco, dona de blocos lotados, contratos publicitários milionários e uma das marcas mais fortes da música brasileira. Ainda assim, sua legitimidade continua vindo da pipoca.

Em resumo, ela conseguiu algo raro: ser respeitada tanto pela elite que paga abadá quanto pelo público que acompanha o trio fora das cordas.

Ao longo da carreira, acumulou episódios que reforçaram essa identificação popular. Já interrompeu trio para defender ambulante, acolheu foliões em meio à multidão e transformou interações espontâneas da rua em momentos históricos do Carnaval baiano.

“Ela tem um apoio muito forte do povão, mas também um apelo gigantesco nos camarotes. Poucos artistas conseguem ocupar esses dois espaços ao mesmo tempo”, analisa Paulo.

Na visão de Rafael, essa proximidade nunca foi abalada pela fama. “Ivete é povo. Então não tem como o povo ficar longe dela. Isso tudo é respeito que ela tem não só com os fãs, mas com as pessoas em geral”, afirma.

Ivete ficou maior que o próprio axé?

Outro ponto importante é que Ivete Sangalo ultrapassou as fronteiras do gênero musical que a revelou. O axé music enfrentou crises de mercado, perdeu espaço nacional e viu muitos nomes da geração de ouro se tornarem artistas de nicho ou de memória afetiva.

Ivete foi de contra a isso.

Ela atravessou mudanças da indústria, dominou a televisão, virou meme, apresentadora, personalidade digital e patrimônio afetivo da cultura pop brasileira. Hoje, existe uma geração inteira que consome seus vídeos diariamente sem sequer ter vivido a era da Banda Eva.

Paulo acredita que a cantora alcançou uma dimensão maior que o próprio movimento musical. “A Ivete hoje tem mais relevância do que o próprio axé. Se você juntar algumas bandas do gênero, talvez não alcancem o tamanho da carreira dela em números, prêmios e impacto cultural”, afirma.

No fim das contas, talvez o maior segredo dela nunca tenha sido apenas a voz potente ou a quantidade de hits acumulados. O diferencial está na capacidade rara de continuar parecendo próxima mesmo depois de se transformar em uma das mulheres mais famosas do país.

Em um cenário onde celebridades parecem cada vez mais distantes da realidade do público, Ivete segue sendo algo simples, mas poderoso: o povo ainda sente que ela é uma deles.

Marcos Flávio Nascimento
Jornalista com experiência em cidades, política, entretenimento e comunicação digital. Atuou no iG, além de passagem pela Approach Comunicação, com foco em conteúdo de negócios, tecnologia e investimentos. Foi coordenador de comunicação na SECIS/Prefeitura de Salvador e assessor parlamentar, liderando equipes e estratégias de conteúdo. Atualmente, é repórter no portal Bahia.ba e Portal Esfera.

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