Publicado em 02/06/2026 às 11h30.

Nasi celebra 20 anos do ‘Acústico IRA!’ e conexão espiritual com a Bahia

Em entrevista ao bahia.ba, vocalista reflete sobre uso de IA na música e critica apropriação política do rock

João Lucas Dantas
Nasi ao centro; Foto: Ana Carina Zaratin/ Divulgação

 

Responsável por um dos maiores êxitos da série Acústico MTV, a banda IRA! marcou o início do século XXI com um álbum que se tornou referência no rock nacional. Lançado em 2004, o projeto reuniu grandes sucessos da carreira do grupo e integrou a coleção de DVDs musicais que dominou o mercado brasileiro entre as décadas de 1990 e 2000.

Para o grupo paulista, o projeto tornou-se o álbum mais vendido de sua carreira e um dos trabalhos mais emblemáticos do rock nacional. Em celebração aos 20 anos de seu lançamento, a banda realiza uma turnê especial que percorre diversas cidades do país.

Em Salvador, o show acontece no próximo dia 14 de junho, às 19h, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, dentro da programação do Concha Para Todos. Ingressos já estão à venda pela plataforma Sympla.

Com vendas próximas de 1 milhão de cópias somando CD e DVD, o Acústico MTV do IRA! tornou-se um dos cinco mais bem-sucedidos da história da franquia no Brasil.

Na turnê comemorativa, a banda revisita na íntegra os principais momentos daquele trabalho, interpretando sucessos como “O Girassol”, “Eu Quero Sempre Mais” e “Tarde Vazia”. As canções impulsionaram o enorme sucesso do projeto original, cuja turnê percorre todo o país há quase três anos.

O espetáculo também abre espaço para outros clássicos que marcaram a trajetória da banda ao longo de mais de quatro décadas de carreira. Estão no repertório “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta”, “Flores em Você”, “Núcleo Base” e “15 Anos”, além de faixas como “Flerte Fatal”, “Ciganos” e “Poço de Sensibilidade”.

Para celebrar a data comemorativa e a chegada do aguardado show à capital baiana, o bahia.ba pôde conversar com o cantor, compositor e cofundador Nasi, figura fundamental na história do rock e do rap nacional, que deu detalhes sobre o impacto do disco, os shows, sua relação com a cena do rock atual e a relação da política com a música no Brasil. O papo completo você pode conferir abaixo:

Foto: Ana Carina Zaratin/ Divulgação

 

P: Uma coisa que chamou a atenção ao pesquisar sobre você, foram as suas dicas de filmes nas redes sociais. Queria saber como o cinema, a literatura e outras formas de arte influenciam na sua forma de compor, no seu estilo ou até na sua presença de palco. Até já citando o Acústico, em Rubro Zorro você diz ser um “faroeste sobre o terceiro mundo”. 

Nasi: No caso específico que você citou, e especialmente daquele álbum do IRA!, “Psicoacústica”, houve uma influência muito forte do filme O Bandido da Luz Vermelha, do Rogério Sganzerla, principalmente na questão dos áudios e da construção de uma atmosfera que remetesse àquele universo. Aquela música foi criada já imaginando um cenário semelhante.

Mas, de maneira geral, não é como se eu ou o Edgard Scandurra (guitarrista) assistíssemos a um filme e ele se transformasse diretamente em uma música. Existe uma influência mais ampla.

Posso citar também o disco Meninos da Rua Paulo, que surgiu a partir da obra do escritor húngaro Ferenc Molnár. Antes mesmo de conhecermos o livro, tivemos contato com a história através do filme, que acabou servindo de inspiração para todo aquele álbum.

No fim das contas, nossas inspirações vêm muito do cotidiano, das nossas vivências e da forma como refletimos sobre o mundo.

P: Nós nos falamos uns anos atrás em uma entrevista para o jornal A TARDE e você comentou sobre sua forte ligação com a Bahia. Como é que essa relação começou e o que Salvador representa para você hoje?

Nasi: Isso vem desde a infância. Eu tenho uma tia, a tia Teresa, que era casada com um baiano. Eu adorava passar as férias na Bahia. Gostava de tudo, da comida, da convivência, da cultura. Era uma experiência que me marcava muito.

Depois, já adulto, em 1986, fui pré-iniciado em Salvador no culto dos orixás, no candomblé. Hoje sigo outro caminho dentro da tradição iorubá, que é a matriz também da umbanda, mas aquela experiência foi muito importante para mim.

Nessa época conheci Mãe Margarida, de Itapuã. Ela era uma simples vendedora de acarajé, não era uma das grandes lideranças religiosas, mas teve um papel muito importante na minha vida durante os anos em que convivi com ela.

Mais tarde, por volta de 2010, tive a oportunidade de ser recebido por Mãe Stella de Oxóssi. Eu estava aí para um show solo e consegui esse contato. Foi um momento especial porque ela já quase não recebia mais visitantes.

Hoje eu amo o estado de norte a sul. Costumo brincar que pago mais IPTU na Bahia do que em São Paulo. Tenho uma casa de praia há mais de 20 anos na região de Caraíva e, durante a pandemia, construí com meu irmão uma casa em Serra Grande, entre Ilhéus e Itacaré.

Desde que voltamos com essa turnê comemorativa do Acústico, as pessoas perguntam nas redes sociais quando voltaríamos à cidade. Salvador sempre foi uma das capitais do Nordeste onde mais tocamos. Durante muitos anos havia pelo menos um show por ano.

P: Vocês estão celebrando 20 anos do Acústico MTV, mas, no ano passado, vocês também completaram 40 anos do primeiro álbum, ‘Mudança de Comportamento’. Como é que você vê a importância de celebrar esses marcos que viraram tendência no mercado de shows no mundo todo?

Nasi: Nós mesmos já fizemos isso com Psicoacústica, realizando alguns shows comemorativos, embora não tenha sido uma turnê completa.

No caso do Acústico MTV, a situação é diferente. Trata-se de um trabalho muito especial na nossa carreira. Foi o disco mais vendido da história do IRA! e também um dos acústicos mais bem-sucedidos da MTV no Brasil.

Quando você soma as vendas do CD e do DVD, o projeto alcançou números impressionantes. E é importante lembrar que discos anteriores, como Mudança de Comportamento e Vivendo e Não Aprendendo, que eram os nossos maiores sucessos até então, surgiram em uma época em que ainda não existia o mercado audiovisual. Isso amplia ainda mais a dimensão que alcançou.

Por isso faz sentido celebrar esse trabalho. Ele marcou uma geração inteira e continua despertando uma identificação muito forte do público até hoje.

É importante porque poucas bandas podem se dar ao luxo de celebrar uma trajetória tão longa. Já estamos completando 45 anos de história. Temos um público que sente saudade desses discos e gostaria de reviver esses álbuns completos. Quem é fã da banda não gosta apenas dos sucessos; gosta também das faixas que não tocaram nas rádios, mas que são fundamentais dentro da obra.

Estamos vivendo esse fenômeno atualmente. Em São Paulo, por exemplo, haverá o festival C6, onde artistas brasileiros vão apresentar discos emblemáticos de suas carreiras. Os Paralamas vão tocar O Selvagem, os Titãs, Cabeça Dinossauro, e o IRA! vai apresentar o repertório de Mudança de Comportamento e Vivendo e Não Aprendendo.

Eu acho isso muito bacana porque também nos estimula artisticamente. Normalmente viajamos com um show que percorre toda a discografia, mas quando focamos em um trabalho específico podemos revisitar seu conceito, lembrar daquele momento da banda e permitir que o público também reviva as características musicais daquela época.

P: Duas décadas do Acústico que continua mobilizando públicos de diferentes gerações. O projeto foi responsável por apresentar diversas bandas e artistas à juventude dos anos 1990 e 2000. Por que você considera que esse foi uma série tão marcante?

Nasi: Os acústicos da MTV foram um fenômeno nacional. Na MTV americana ou anglo-saxônica eles não tiveram o mesmo impacto. Lá, os artistas faziam versões acústicas de suas músicas quase como uma curiosidade, algo voltado para os fãs mais dedicados.

No Brasil, virou um fenômeno de mercado. Muitos dos grandes sucessos dos anos 1990 e do início dos anos 2000 foram justamente os acústicos da MTV.

A música popular brasileira é muito baseada no violão. Está presente no samba, no choro, na bossa nova, na música sertaneja. Então, quando uma banda de rock apresenta suas músicas nesse formato, cria uma ponte com pessoas que normalmente não escutariam.

De um lado, os fãs de rock queriam ouvir aquelas músicas em uma nova roupagem. De outro, pessoas que não eram roqueiras passaram a se identificar com aquele formato mais próximo da tradição da música brasileira.

O IRA! levou esse projeto muito a sério. Algumas bandas fizeram o acústico apenas por fazer. Havia até um certo preconceito na época, como se fosse uma forma fácil de alcançar sucesso comercial. Nós mesmos relutamos durante um tempo antes de aceitar.

Mas percebemos que fazia sentido para a nossa trajetória. Primeiro porque já tínhamos uma discografia extensa, com muitos discos para escolher repertório. E também porque, apesar da imagem de banda com influências punk e pós-punk, o IRA! sempre teve muito lirismo. Desde meados dos anos 1980, carregamos fortes influências do rock dos anos 1960 e da cena mod inglesa.

Sabíamos que muitas das nossas músicas funcionariam muito bem nesse formato. Principalmente as mais melódicas, mais próximas da linguagem do violão e voz.

Foi um projeto divisor de águas, não apenas para nós, mas também para artistas como Titãs, Capital Inicial e Kid Abelha. Todos eles conseguiram apresentar suas músicas não apenas para o público fiel dos anos 1980, mas também para uma nova geração que acompanhava a MTV.

Foto: Ana Carina Zaratin/ Divulgação

Contribuição ao rap nacional

Aqui, cabe um breve contexto histórico: Nasi teve um papel pioneiro na aproximação entre o rock e o hip hop no Brasil durante os anos 1980, quando o rap ainda era visto com desconfiança pela indústria musical.

Sua contribuição mais marcante foi como produtor de faixas de Taíde & DJ Hum, considerados pioneiros do rap nacional. Entre elas está Corpo Fechado, apontada como um dos primeiros sucessos radiofônicos do gênero no país.

Ao defender e incentivar o rap desde seus primórdios, Nasi contribuiu para ampliar sua visibilidade e aproximá-lo de novos públicos, ajudando a consolidar um movimento que se tornaria uma das principais forças da música brasileira.

P: Apesar de você vir de outro cenário musical, você foi peça fundamental para o cenário do rap nacional. Como foi que nasceu essa ponte entre o rock e o hip-hop?
Nasi: Eu conheci o hip hop muito cedo, por volta de 1984. Naquela época, além do IRA!, eu trabalhava como DJ em algumas casas para complementar a renda. Sempre fui colecionador de discos e isso me dava acesso a muita música que chegava do exterior.

Foi assim que conheci artistas como Run-D.M.C., Beastie Boys, Grandmaster Flash, Kurtis Blow, Public Enemy e Fat Boys. Eu gostava muito do rap raiz, mas fiquei fascinado quando começaram a surgir as conexões entre rap e rock.

O Run-D.M.C., por exemplo, fez aquela histórica parceria com o Aerosmith em “Walk This Way“. Isso aproximou muitos roqueiros do rap.

No Brasil, eu já tinha contato com Taíde & DJ Hum antes mesmo dos discos. Produzia algumas bases para eles utilizarem nos bailes. Depois, quando a gravadora Eldorado reuniu grupos de rap para um projeto, eles me escolheram como produtor.

Desse trabalho surgiu “Corpo Fechado“, que acabou se tornando um dos primeiros sucessos radiofônicos do rap nacional. Na época, meus colegas estranhavam um pouco porque eu só ouvia rap. Nas viagens de ônibus da banda eu andava com aqueles radiões enormes ouvindo hip hop o tempo todo. Muita gente até imaginava que eu faria carreira solo como rapper.

Mas o que me fascinava era a produção. A ideia de pegar alguns compassos de um disco antigo, criar loops e construir uma música nova a partir disso. Aquilo parecia mágico para mim.

Com o tempo, a entrada das guitarras e das levadas de bateria aproximou ainda mais os universos do rap e do rock. Essa troca foi fundamental. O rock ganhou sangue novo e artistas como Charlie Brown Jr. ajudaram a consolidar essa conexão. Foi um casamento muito saudável para os dois gêneros.

P: E sobre sua relação com as ferramentas de inteligência artificial? Vi que você tem feito experimentações musicais utilizando IA. O que mais te interessa nessa tecnologia e como você enxerga o futuro da indústria musical a partir dela?

Nasi: Precisamos avançar rapidamente em uma regulamentação. Já existem artistas criados integralmente por inteligência artificial, e o resultado é impressionante. Outro dia me mostraram uma cantora de blues gerada por IA e, sinceramente, fiquei assustado com o nível de qualidade.

Eu não sou um especialista em tecnologia. Nesse projeto, trabalhei ao lado do Augusto Júnior, que é quem domina essas ferramentas. Entrei principalmente com a parte criativa.

Vejo que existe muito tabu e muito debate em torno da inteligência artificial, mas a música sempre passou por transformações tecnológicas. Desde a época dos discos gravados em mono até os formatos digitais atuais.

Enxergo a IA como mais uma ferramenta à disposição dos artistas. Não acredito em substituição, mas em um caminho híbrido.

No projeto Nasi Artificial Intelligence, selecionei seis músicas da minha carreira solo e as transformei utilizando ritmos latino-americanos, caribenhos e brasileiros. Eu já fazia experiências parecidas de forma bem-humorada em uma página chamada Fake Music, transformando músicas do IRA! em tarantelas e outros estilos.

Mas a tecnologia evoluiu muito. Antes, a IA trabalhava basicamente a partir da letra e do gênero musical escolhido. Agora ela consegue preservar elementos da harmonia e da melodia original.

O resultado foi muito interessante porque me permitiu cantar estilos que sempre admirei, mas que nunca havia explorado diretamente. Gravei influências afro-cubanas, samba de partido-alto e outros gêneros que sempre fizeram parte do meu universo como ouvinte.

Então vejo a inteligência artificial como uma ferramenta criativa. O importante é que exista regulamentação e que ela seja usada para ampliar possibilidades artísticas, e não para substituir a criação humana.

Foto: Ana Carina Zaratin/ Divulgação

 

P: Você mencionou a situação política atual. No Brasil, vemos setores da direita se apropriando de clássicos do rock nacional, como “Que País É Este”. Como você enxerga esse movimento?

Nasi: Vejo isso com tristeza e também com indignação. Independentemente de ser um candidato de esquerda ou de direita, acredito que qualquer uso político de uma música deveria ter a autorização do autor.

Já vimos músicas sendo utilizadas em campanhas ou manifestações com sentidos completamente diferentes daqueles imaginados pelos compositores. No nosso caso, por exemplo, “Dias de Luta” já apareceu associada a imagens de violência e confrontos políticos.

Isso me incomoda porque a música tem um significado completamente diferente. Ela fala sobre amadurecimento, reflexão e superação.

Acho curioso que, ao mesmo tempo em que as plataformas derrubam rapidamente conteúdos por questões de direitos autorais, muitas vezes esse tipo de uso político permanece circulando por muito tempo.

Isso é algo muito delicado. O artista é dono da sua obra e deve ter o direito de decidir como ela será utilizada. Quando uma música é associada a ideias totalmente contrárias às convicções do autor, isso também afeta sua imagem.

Por isso acredito que deveria haver mecanismos mais eficientes e punições mais severas para quem utiliza músicas sem autorização em contextos políticos. Uma música não pode ser usada para transmitir ou associar a um artista uma ideia completamente contrária àquilo que ele defende.

P: Você citou o declínio da presença do rock na mídia. Ao mesmo tempo, vemos novas bandas surgindo e artistas como o IRA! lotando shows. Qual sua projeção sobre a cena do rock em 2026?

Nasi: Antes de tudo, é importante reconhecer o trabalho da cena independente. Existem muitas bandas criativas produzindo coisas interessantes.

Quando falo em declínio do rock, estou me referindo ao espaço que ele ocupa na mídia popular. Nos anos 1980, o rock estava em todos os lugares. Era uma música consumida por pessoas de diferentes idades e perfis.

Hoje ele voltou a ocupar um espaço mais próximo de nicho, como acontecia quando comecei minha carreira.

Mas isso não significa que o rock tenha morrido. Pelo contrário. Basta observar os shows. Bandas da minha geração continuam lotando apresentações. Grandes artistas internacionais seguem esgotando ingressos em poucas horas.

O rock continua sendo uma linguagem importante porque dá vazão à rebeldia natural da juventude. Historicamente, ele sempre cumpriu esse papel, desde o impacto que Elvis Presley causava nos anos 1950 até o punk rock e suas críticas sociais.

O rock precisa continuar sendo um espaço de contestação, de questionamento e de inquietação. Essa é uma das suas funções mais importantes.

P: Para encerrar, o que o público de Salvador pode esperar desse show comemorativo dos 20 anos do Acústico MTV?

Nasi: Primeiro, pode esperar a nossa alegria de voltar à cidade depois de tanto tempo. Nós adoramos tocar em Salvador.

E existe um componente especial pelo fato de o show acontecer na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, um lugar onde o IRA! já viveu momentos inesquecíveis ao longo da carreira.

É um espaço com ótima acústica, ingresso acessível e uma atmosfera muito especial.

Montamos uma banda à altura daquela que gravou o Acústico MTV. Além de mim e do Edgard, apenas o violoncelista Jonas Moncaio participou da gravação original, mas os demais músicos mantêm o mesmo nível de excelência.

Vamos tocar todas as 19 músicas do repertório do acústico. Os shows têm sido maravilhosos pelo Brasil, e tenho certeza de que a energia do público baiano vai transformar essa apresentação em uma noite memorável.

 

 

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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