Publicado em 09/06/2026 às 16h00.

O extraordinário reencontro de Spielberg com o desconhecido em ‘Dia D’

O cineasta retorna à ficção científica para refletir sobre fé e o lugar da humanidade no universo

João Lucas Dantas
Pôster do filme

 

Como em um sonho, começamos Dia D (Disclosure Day) no meio da ação, ainda sem conhecer os personagens nem saber exatamente o que está acontecendo. Mas, de forma alguma, é uma sensação estranha. Afinal de contas, estamos falando de Steven Spielberg. Há 60 anos, o cineasta faz o mundo inteiro sonhar acordado no cinema.

Spielberg praticamente dispensa apresentações. Aqui, vemos sua nova empreitada ao explorar o tema da vida fora da Terra. E quem melhor para tratar disso do que o responsável por clássicos como E.T. – O Extraterrestre e Contatos Imediatos do Terceiro Grau?

Como se esses dois títulos já não bastassem para eternizar seu nome na história do cinema, no campo da ficção científica ele ainda nos entregou Jurassic Park, A.I. – Inteligência Artificial e Guerra dos Mundos, para citar apenas alguns exemplos.

Dia D estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (11). E está aqui um longa que merece ser visto nas telonas, em 2h25 de duração muito bem preenchidas.

O retorno à ficção científica

Dia D é um feito verdadeiramente impressionante. Com roteiro de seu parceiro de longa data, David Koepp, responsável pela adaptação de Jurassic Park, o novo longa parece condensar não apenas os melhores momentos do início da carreira de Spielberg, mas também promover um debate afinado com as discussões que permeiam a ficção científica das últimas duas décadas.

Diversos dos temas caros ao diretor estão presentes aqui, como família, amizade, vida extraterrestre, o fascínio pelo desconhecido, o impacto de grandes eventos sobre pessoas comuns, a experiência coletiva diante do extraordinário e muito mais.

Em sua mais nova aventura extraterrestre, o cineasta aponta para a plateia e pergunta: se você descobrisse que não estamos sozinhos, se alguém lhe mostrasse, lhe provasse isso, você sentiria medo?

Embora o mundo retratado aqui seja uma leve extrapolação do que vivemos hoje, especialmente em relação ao domínio das big techs, aos conflitos geopolíticos e ao papel da mídia no imaginário popular, vemos um universo fantástico se abrindo diante dos nossos olhos.

Emily Blunt e Josh O’Connor; Foto: Universal Pictures/ Divulgação

A comunicação como chave

Comunicação é o ponto de partida. Sempre foi para Spielberg quando retrata esse tema. Seja por meio da música em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, seja pela amizade entre Elliott e E.T., o diretor sempre se interessou por formas de aproximação entre mundos distintos.

Se Denis Villeneuve trabalhou a linguagem como elemento central em A Chegada, Spielberg apresenta aqui sua própria visão sobre como a comunicação entre espécies diferentes pode se tornar a chave para compreender o outro e, talvez, resolver muitos dos nossos problemas.

Acompanhamos aqui a jornada de Emily Blunt (O Diabo Veste Prada) e Josh O’Connor (Rivais) como Margaret Fairchild e Daniel Kellner, duas pessoas que, de repente, se veem responsáveis por mediar uma situação sem precedentes.

A entrega dramática da dupla e a eletricidade que compartilham em cena ancoram a urgência da narrativa. Blunt parece dar o que talvez seja a melhor performance da sua carreira, acompanhado de um O’Connor sempre muito competente.

Colin Firth
Foto: Divulgação/ Universal Pictures

A força do elenco

O elenco de ponta ainda conta com os reforços poderosos de Colin Firth (Kingsman), como o líder de uma organização interessada em controlar a tecnologia extraterrestre e ocultar evidências do restante do mundo, e Colman Domingo (Euphoria), como sua contraparte, empenhada em revelar a verdade ao público, além de Eve Hewson (Ponte dos Espiões) como Jane Blankenship, talvez a personagem mais fraca.

Os atores, por si só, já são excelentes, mas aqui encontram material à altura de seus talentos. Spielberg extrai performances marcadas pela humanidade dos personagens, mesmo quando eles se veem diante de acontecimentos capazes de redefinir a história da espécie.

Dia D também marca o retorno do cineasta ao cinema de aventura pela primeira vez desde Jogador Nº 1, em 2018. Nos últimos anos, ele havia se dedicado ao musical Amor, Sublime Amor (2021) e ao autobiográfico Os Fabelmans (2022).

Steven Spielberg no set de Dia D
Foto: Divulgação/ Universal Pictures

A jovialidade no cinema de Spielberg

Mesmo próximo dos 80 anos, Spielberg parece dirigir com a mesma energia de um garoto fascinado pelo cinema. Há grandes cenas de ação, perseguições e um constante clima de mistério que atravessa toda a narrativa.

Ainda assim, diante de todo esse aparato frenético, o diretor parece mais interessado na magia do cinema como forma de encantamento. Aqui, a empatia e o amor pela humanidade ocupam tanto espaço quanto os questionamentos sobre fé.

Fé, aliás, é um elemento fundamental em Dia D. O embate entre ciência, crença, linguagem e tudo aquilo que não conseguimos explicar racionalmente se transforma em um debate sobre os elementos que compõem a essência humana e sustentam a organização da sociedade.

A provocação parece envolver especialmente a tradição cristã e a forma como diferentes religiões reagiriam à chegada de seres extraterrestres que não se encaixam em suas concepções tradicionais sobre a criação e o divino.

E, mesmo em um filme sobre vida fora do planeta, os personagens permanecem profundamente humanos. Todos carregam dramas pessoais que acabam atravessados por mudanças drásticas e inesperadas.

Emily Blunt
Foto: Divulgação/ Universal Pictures

O time de elite

Tudo isso vem embalado pela fotografia do também parceiro de longa data Janusz Kaminski, colaborador de Spielberg em filmes como A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan e Minority Report. Em alguns momentos, Dia D inclusive remete visualmente a este último.

É um filme colorido, luminoso e que abraça a capacidade de Spielberg de construir enquadramentos memoráveis. O diretor oferece aqui mais uma aula sobre como pensar o cinema visualmente.

Mas uma das contribuições mais impressionantes continua sendo a trilha sonora do maestro John Williams. Autor dos temas de Tubarão, Indiana Jones e de mais de 30 filmes dirigidos por Spielberg, o compositor completa mais uma vez um verdadeiro time dos sonhos.

Aos 94 anos, Williams retorna para colaborar com o cineasta e demonstra que seu talento permanece intacto. A trilha incidental do longa encontra o tom exato para cada momento da narrativa.

Foto: Divulgação/ Universal Pictures

O fascínio pelo desconhecido

O filme pode perder ritmo para espectadores que procuram uma aventura mais carregada de adrenalina. Em vez disso, Spielberg parece mais interessado em explorar as complexidades desse encontro e responder a uma pergunta universal: você acredita?

A capacidade que o diretor tem de emocionar a plateia permanece evidente. Tal como em um sonho, também parecemos acordar na melhor parte. Mas tudo bem. Cumprimos nossa jornada dentro do filme.

Resta seguir em frente com a certeza de que Steven Spielberg continua sendo um cineasta capaz de marcar gerações e lembrar por que o cinema ainda é um dos lugares mais fascinantes para se sonhar acordado.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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