Suruba no alto escalão
A julgar pelas palavras do senador Romero Jucá (PMDB-RR), a busca da governabilidade há muito foi transformada em uma espécie de prostituição, sem peias éticas ou morais, em que vale tudo

Basta aproximar-se o mês de fevereiro para que o Brasil se transforme, pois, como nos alerta Jorge Bem Jor: “em feverê (em feverê) tem carná (tem carná)”! Todo mundo festeja, pula, canta e dança, esquecendo-se da violência, da corrupção, das doenças, do desemprego e da desesperança.
E se já somos o país do carnaval, é natural que, em tempos de Operação Lava Jato, em meio a investigações e delações premiadas, mais do que nunca, o Brasil seja tratado como um “cabaré político”, com direito a “surubas” e tudo o mais, tamanha a falta de vergonha e de decoro das nossas autoridades que, aproveitando o clima carnavalesco, tiram as máscaras e fantasias que usaram o ano inteiro.
Nesse sentido, numa cena digna de um filme de humor corrosivo e sarcástico do tipo “Luar Sobre Parador”, na última segunda-feira (20), conforme amplamente noticiado pela mídia, o líder do governo no Congresso, senador Romero Jucá (PMDB-RR), reagindo à proposta em debate no Supremo Tribunal Federal (STF) que restringe a prerrogativa de foro especial dos políticos apenas ao mandato em exercício, deixou claro que ele e seus colegas não vão ficar de fora, pois, “suruba é suruba” e ou todos seriam partícipes ou ninguém estaria incluído na orgia, pois não aceitarão uma bacanal selecionada.
Não tenho dúvidas de que a chula referência do senador peemedebista tenha mais a ver com os namoros, acertos e conchavos entre partidos e os políticos, nos quais, em meio ao tradicional troca-troca e tantos outros relacionamentos íntimos dos bastidores do poder, todos conversam com todos, independentemente das preferências partidárias ou ideológicas, do que com o sexo grupal propriamente dito.
Nessa lógica, há quem diga que o parlamentar errou por excesso de sinceridade, movido não pelo exclusivo propósito de desnudar a verdade, mas sim pela consciência de que, no jogo político a que estão acostumados a jogar no Brasil, a busca da governabilidade há muito foi transformada em uma espécie de prostituição, sem peias éticas ou morais, pois, na bufa novela política nacional, tal como entre as quatro paredes de um bordel, vale tudo.
O português do ‘Mamonas’, aquele em
quem passaram a mão na bunda, somos nós
São por essas e outras que, sinceramente, por mais que eu tente, não consigo ter expectativas positivas de mudanças no cenário político brasileiro, pois, não é necessário ser um cientista político para se ter consciência do antro de corrupção, imoralidade, permissividade, conchavos e rapinagem que estão no cerne das indecentes e promíscuas relações que sempre adornaram os poderes da República, variando apenas de intensidade a depender da partitura e do maestro. Afinal, podemos depreender das palavras do nobre senador que a “suruba” que ocorre no Poder Judiciário e no Legislativo é reflexo direto da “suruba” que se dá no Poder Executivo.
Freud, mais que Marx, com certeza pode ajudar a entender a concupiscente corrupção que vem à tona no Brasil. Assim, não foi sem sentido que o parlamentar, ao se desculpar pelo uso do termo “suruba” para se referir à necessidade de uma ampla, geral e irrestrita restrição do foro privilegiado que valesse para todas as autoridades que possuem, hoje, a prerrogativa e não apenas para os membros do Poder Legislativo, mesmo diante das evidencias em contrário, ter insistido em alegar haver feito apenas uma analogia com a letra da música do grupo Mamonas Assassinas, “Vira-vira”.
Desculpas à parte, o certo é que um senador da República, o líder do governo no Congresso, ato falho ou não, deu a entender que entre Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público existe uma grande “suruba” que homens e mulheres armaram para se proteger. Entretanto, ao contrário do que cantou a saudosa banda Mamonas Assassinas, jamais o senador roraimense poderá dizer que ele ou qualquer um dos seus colegas, nunca participou desse raio de “suruba selecionada” e não comeu ninguém, pois o português daquela história, aquele em quem sempre passaram a mão na bunda, com certeza, somos nós.
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