Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 10/03/2022 às 18h32.
A mulher não dorme, cochila
Estatísticas, fatos, registros sobre desrespeito, violência, exploração, negação de direitos à mulher são diários, constantes e históricos
Liliana Peixinho
Firme, forte, sem desistir do seu papel agregador, a mulher segue na luta, em atuação permanente em todas as áreas da vida: na Academia, na Ciência, na Política, no Esporte, nas Artes, na Pesquisa avançada, no intercambio entre países, nas residências, na agricultura, no Artesanato, na Moda, na culinária, nos cuidados e afetos.
Seja no céu, no mar ou na terra, a mulher, historicamente, mostra sua coragem e força em compromisso coletivo para o Bem- viver.
São diversas as lutas históricas em desafios constantes.
Mães sem renda, com renca de filhos, pais desempregados, sem moradias decentes, amontoados uns sobre outros, exploração no trabalho, violências diversas, Brasil e mundo afora, nos chamam a atenção, diária e historicamente.
Que futuro pode ter a humanidade em cenários tão perversos?
Mães que se veem sem alternativa e saem ao raiar do sol de suas moradias, madrugadas insones, em via crucis de baldeação de transportes coletivos, para chegar até outro bairro, em residência alheia, para cuidar dos filhos de outras mães em troca de salário mínimo – remuneração insuficiente até para a mínima dignidade, como a garantia de uma alimentação saudável.
É foco das minhas pautas, como jornalista independente no Movimento AMA- Amigos do Meio Ambiente e outros coletivos em que atuo, há mais de 20 anos, observar, retratar e compartilhar histórias de vida de mulheres/mães em seus entornos sociais.
Entraves sociais
Ao longo da pandemia da Covid-19, até mesmo para receber o “Auxílio Emergencial” do governo, é luta árdua. A burocracia, o descaso, o faz de conta dificultam o acesso aos sistemas de benefícios sociais lentos, ineficientes, perversos. Nesse cenário, as crianças ficam desprotegidas desde o início da vida: no aleitamento materno, na vacinação, nos afetos, na alfabetização, nas relações familiares e outras garantias educativas que sustentam histórias de vida.
Nos anos 1990, acompanhei os trabalhos de coletivos sociais Brasil afora na mudança do obsoleto Código de Menores para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A lei trazia como proposta o compromisso de garantir e avançar em direitos que sacudiriam o tripé: Família/Sociedade/Estado em suas responsabilidades conjuntas no cumprimento do dever de educar em ambientes integrados.
Os esforços foram diversos e continuam. Se olharmos com cuidado ao nosso redor, veremos o quanto estamos distantes da mínima garantia para a dignidade da vida.
Múltiplas labutas
Dessa interação com diversas mulheres, na labuta diária, entre os seus múltiplos papéis – afazeres domésticos, cuidado com a família, trabalho fora de casa, em plantões solidários de vidas – retratei em várias matérias a rotina de mulheres que não dormem, apenas cochilam no seu cotidiano de dias curtos e noites longas.
A mídia, movimentos sociais, coletivos diversos, reforçam o proativismo feminino em seus múltiplos papéis. O reconhecimento desse perfil da mulher, apesar de visível, não tem correspondência aos esforços históricos de lutas nas diversas frentes. A mulher não precisa mais dar provas de sua capacidade para encarar desafios. A proporção entre o tempo de corrida para fortalecer e elevar esse perfil, e a garantia de estruturas sociais dignas do esforço, são injustas, não suprem as reais necessidades cotidianas. Chega a ser abusiva, exploradora.
Tempo para si
Mas, a mulher, depois de tanta luta, estaria a pedir um tempo para si mesma?
O protagonismo feminino precisa ser traduzido em direitos, que continuam sendo negados. A desvalorização da mão de obra, do suor, da entrega ao trabalho, em todas suas múltiplas jornadas, tem elevado os níveis de dores ao insuportável.
O que ainda se vê é a submissão de mulheres, que se veem acuadas diante de provedores materiais. É uma escravidão, em agenda pesada na qual ela até tenta amenizar, mas, sem opções para priorizar-se, colocar-se no topo, antes de qualquer outra atividade. Antes dela, existem outros: a família, o patrão, os colegas de trabalho, a mãe, o pai, o neto, o sobrinho, a amiga, num ritmo de atenção e cuidados sem fim. A 25a hora é acionada, com frequência, em dias onde 24 horas não têm sido suficientes para tanta sobrecarga de atividades.
Ouço e leio por aí que a mulher moderna é aquela que se permite ser um pouco relapsa. Relapsa? Que luxo poderia ser! Mas não pode, ou ela não se permite. Precisa estar bela, e até escrava de alguns comportamentos, para atender padrões estéticos externos. O consolo é ver movimentos libertários dos padrões do culto à beleza, por meio da valorização do todo, onde a estética é apenas um detalhe dentre muitos outros aspectos importantes no cuidado integral à vida.
Em trabalho de Imersões Jornalísticas Comunitárias, Sertão adentro Brasil afora, observo por que mulheres não se permitem ser relapsas. Como se permitir, fazer de conta que não vê, sente, ouve, o que estão a necessitar filhos e filhos à sua frente?
Como deixar de lado famílias inteiras, numerosas, para educar, dar de comer, vestir, cuidar, promover a saúde, em ambientes de muita carência?
Como ser “relapsa” com determinadas demandas para pensar em si, vendo o companheiro desempregado, a despensa vazia, os filhos puxando a barra da saia, chorando de dor, de fome?
Drible no tempo
A mulher, com essa natureza de resistir, alimenta forças invisíveis para se levantar e seguir nos desafios.
O que vejo são mulheres mãe solo, ou ao lado de maridos, filhos e parentes, lutando pela vida, aparentemente incansáveis.
Vejo mulheres que são mães, avós, filhas, netas, sobrinhas, esposas, em filas gigantes, em via crucis diárias para garantir direitos; vejo mulheres com pesos sobre a cabeça, andando quilômetros, em suor e cansaço; vejo mulheres com bacias cheias de roupas para lavar, esfregar, estender, pegar do varal, dobrar, guardar organizar; vejo mulheres sempre carregadas de peso nos ombros, nos quadris; vejo mulheres driblando a vida para amortecer dores. Mulheres, novas e idosas, sob o sol a pino à procura de feijão, farinha, frutas. Mulheres das roças, das cidades, das metrópoles.
Mulheres que criam, transformam, improvisam, inventam, tentam, conseguem e resistem às dores de perdas. Mulheres que tentam sair de perversos ciclos de negação de direitos.
E, nesse cenário, a realidade de trabalho da mulher nordestina, brasileira, africana, asiática e mundo afora, está a nos indignar em tanta desumanidade.
Depois de tanto correr, lutar, desafiar, se entregar inteira, na criação, cuidados com filhos e filhos, sobrinhos, netos, vizinhos, a guerreira, a que não pára, ainda não se permite dizer não.
Voos altos, pé no chão
Aquelas que conseguiram ter acesso à informação de qualidade, que galgaram espaços de decisão em empresas, em instituições, na Ciência, na Política, no Esporte, na Cultura, não o fazem com exclusividade. Estão, como outras, a desempenhar múltiplas funções, em sobrecargas de trabalho que estressam, adoecem, pela constante abnegação do seu tempo, a outrem. Mulheres que carregam o peso de encontrar tempo para promover o cuidado com a família e a carreira; em entrega ao acompanhamento da educação e afetos, mulheres que tentam driblar o tempo para a fundamental formação de valores que a família requer.
Parceria, harmonia
E quando observamos o comportamento de homens comprometidos, parceiros, lado a lado, desses desafios nas atividades domésticas, no trabalho externo, nas ruas, é tempo de alimentamos a esperança de que a distribuição dos trabalhos, independe de gênero, competência, tradição, e sim do compromisso e consciência coletiva das responsabilidades.
1 – Lúcia Marisy Souza Ribeiro de Oliveira – professora, pro-reitora de extensão da Univasf; desenvolve diversos projetos ligados à extensão comunitária de valorização de ecossistemas como Ccatinga e bacias do Rio São Francisco – Pernambuco e Bahia
2 – Luciana Chinaglia Quintão – 23 anos na luta contra a fome e o desperdício. Presidente da Ong Banco de Alimentos – SP
3 – Alda Miller – Socióloga (pós graduada em economia e desenvolvimento sustentável), permacultora, especialista em questões de gênero, ex-candidata à prefeita de Porto Alegre, mãe, avó-cuidadora do neto, cidadã ativa, Ambientalista
4 – Karen Calvo Díaz – filóloga, pesquisadora mundo afora, professora, comunicadora, filha cuidadora da mãe – Costa Rica
5 – Iza Calbo – Jornalista, poeta, mãe, avó, amiga, cidadã, cuidadora do pai, equilibrista na vida
6 – Dona Isaura – Anfitriã da histórica greve de fome do bispo Dom Cappio, pela Revitalização do Rio São Francisco – Cabrobó/Pernambuco
7 – Edna Matos – jornalista e analista de sistemas. Pesquisadora em Tradução Literária, cultura escrita e humanidades digitais na Universidade de Salamanca- Espanha
8 – Marilene Brito – Professora comunitária, artesã, criadora de bonecas terapêuticas ecológicas. Zona Rural de Feira de Santana/Bahia
9 – Dona Iracema – 88 anos, artesã, cultivadora de plantas, mãe, viúva, bisavó, amiga, cidadã que não para de trabalhar
10 – Neide P. Soares – Artesã, filha, mãe, viúva, avó, cuidadora da mãe, netos, missionária
11 – Francineide Marques – advogada, Doutoranda em Difusão do Conhecimento, pesquisa em Filosofia África, mãe, avó, cidadã de luta por garantia de direitos
12 – Elizabeth Oliveira – Jornalista especializada em pautas socioambientais, mãe, cuidadora da mãe, cidadã de luta – Rio de Janeiro
13 – Gladys Barbosa – Assistente administrativa, mãe, amiga, dona de casa, educadora, chefe de família. Cidadã lutadora desde a adolescência
14 – Cylene Dantas da Gama – Boston University, Latin American History and Politics. Idealizadora do “Dia da Mulher do Campo”. Eleita “A Mulher do Ano” por defesa de direitos – São Paulo
15 – Dona Zefa – Artesã, agricultora, esposa, cozinheira, lavadeira, mãe, amiga. Lutadora incansável. Barreira do Tubarão – Heliópolis/Bahia
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