A praia vazia e a orla do tempo
Nada mais sintetiza o presente momento que o quadro da sociedade em transformação

Nada mais sintetiza o presente momento que o quadro da sociedade em transformação. Vivemos uma transição a ser considerada entre algo que necessita chegar ao fim e uma nova realidade que precisa se iniciar como consequência das exigências da sociedade. Esse desassossego no ar, como registrou o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, traz a cada um de nós “a sensação de estar na orla do tempo, entre um presente quase a terminar e um futuro que ainda não nasceu”.
Essa transição é desconfortante. Como se fosse possível congelar o curso da vida social e adiar a busca de solução para os graves problemas da sociedade brasileira para outro momento, aguardamos um porvir desejado por todos, embora não se saiba qual deva ser, quando virá, nem quem o liderará. A agenda política deve virar a página porque o Brasil não pode parar.
Apesar das profundas divergências ideológicas e políticas entre os manifestantes vermelhos ou verde-amarelos que ocuparam as ruas nos últimos meses, algo em comum os unia. Qualquer pesquisa indicaria que quase todos, apesar de opositores por vezes raivosos, não estão satisfeitos com o Brasil atual, onde a dura realidade do alarmante desemprego e da saúde pública zikada que se soma ao drama da educação (com fronteiras e sem Fies), da insegurança pública, da previdência ou de tantos outros problemas sociais.
Há um Brasil que insiste em não acabar, que teima em manter-se com suas práticas impuras
Não há desencontro de ideias, nem de ideais, ao identificar a corrupção como uma chaga indesejada que vem há muitos anos corroendo os sonhos, a esperança e o desejo uniforme de um país melhor para todos.
Há um Brasil atual que insiste em não acabar, que teima em manter-se com suas práticas impuras, injustas, inconvenientes e já reprovadas por todos, mas que definitivamente está quase a terminar, confrontado com um novo país que ainda não nasceu.
Nessa busca por um novo crepúsculo matutino, parece certo que o impeachment da presidente Dilma não representará o fim da noite escura, assim como o possível início do governo do vice-presidente Temer também não revelará, necessariamente, um novo amanhecer. Não é a solução dos problemas, mas uma nova tentativa de busca da recuperação de um Brasil melhor estruturado a resolver nossos graves e históricos problemas.
Pode representar, sem dúvida, um novo passo numa caminhada que necessita ser imediatamente iniciada. Há muito a fazer e o futuro está bem mais à frente. Por isso é preciso avançar, sem pressa e sem descanso.
Talvez a angústia dos Raimundos (Sol e Lua, com letra de Digão e Denis Porto) nunca tenha sido tão atual:
“Será que amanheceu o dia
arrepia sem nenhum esforço
(…)
Ai meus Deus, clareia luz do dia… na praia vazia…
Como se fosse possível juntar o nascer e o pôr do sol
Como se fosse possível isso tudo ficar melhor?”
Marcos Sampaio é advogado, procurador do Estado da Bahia, professor da Faculdade Bahiana de Direito e da Faculdade de Direito da Unifacs.
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