Cidadania: uma tarefa que nunca termina
Decorridos mais de duzentos anos dos acontecimentos que mudaram a França no final do século XVIII, o conceito de cidadão ainda é mal definido

Não fosse o fato de a França estar em choque diante da barbárie de outro atentado terrorista, na última quinta–feira (14), a sua data nacional seria, mais uma vez, saudada como um dos mais importantes acontecimentos da história do Ocidente a ponto de, na sistematização quadripartite da sua evolução civilizatória, constituir o marco inicial da denominada Idade Contemporânea.
Embora associada pela memória coletiva, ao dia em que a população revoltada tomou a Bastilha, símbolo maior do absolutismo francês, na realidade, a data entraria para o calendário cívico daquele país em alusão à celebração de outro evento: a Festa da Federação, realizada em 14 de julho de 1790, simbolizando o momento em que, após os enfrentamentos do ano anterior, o povo francês se reconciliou.
Polêmicas à parte, o certo é que com a Revolução Francesa, advém o fim do arcaico sistema absolutista e os privilégios da nobreza, pois, o povo conseguiu conquistar seu espaço, ganhando mais autonomia e o respeito aos seus direitos sociais. Paralelamente, também, surgem as bases de uma sociedade burguesa e capitalista.
Assim, não se pode falar sobre cidadania, sem se falar na Revolução Francesa, pois, foi nesse período que se passou a usar a palavra cidadão como demonstração da igualdade de todos, pois, não havia mais nobreza e plebe, liberdade e escravidão; apenas cidadãos. Mas a burguesia, também, garantiu seu domínio social, não sendo sem sentido que muitos franceses usassem a palavra cidadão como sinônima de burguês.
Decorridos mais de duzentos anos dos acontecimentos que mudaram a França no final do século XVIII, o conceito de cidadão ainda é mal definido, ambíguo e utilizado com diferentes sentidos, pois, se, por um lado, significa a eliminação das diferenças entre os seres humanos, ou seja, como expressão de igualdade, pelo outro possui significação mais restrita, considerando-se cidadãos apenas aqueles que têm responsabilidades públicas, inclusive o direito de participar das decisões políticas.
Para ser aprendida, a cidadania precisa
ser vivenciada cotidianamente
Nesse sentido, Dalmo Dallari nos ensina que por cidadania deve-se compreender não só o conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu país, votar e ser votado, com seus respectivos deveres, como também o direito de ser respeitado, tratado com dignidade, como gente, como ser humano.
Assim como não nascemos homens, mas aprendemos a ser, através da apropriação da cultura criada pelas gerações que nos antecederam, também, ninguém nasce cidadão, aprende-se a ser, pois, cidadania necessita ser vivenciada cotidianamente, no convívio do espaço público, para ser aprendida.
Para ser cidadão, o ser humano necessita participar efetivamente da vida em sociedade, exercendo seus direitos e cumprindo suas obrigações, pois só se tornará efetivamente um cidadão a depender da forma como for tratado, como tratar aos outros cidadãos e como se relacionar com o Estado.
Sem negar o poder do voto como instrumento de transformação, não se pode esquecer de que votar é apenas a expressão mínima da cidadania e que a participação popular na gestão da coisa pública não se resume apenas a esse processo.
A cidadania somente pode ser feita cidadania através da empatia, do sentir o que o outro sente, do ter o outro presente, com os cidadãos exigindo que a “coisa pública” seja tratada como deve ser: respeitando o interesse de toda a sociedade. Afinal, a prática da cidadania, não se materializa apenas de quatro em quatro anos, em verdade, é uma tarefa que nunca termina.
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
Mais notícias
-
Artigos11h01 de 14/06/2026
OPINIÃO: Se não corrigir meio-campo, Brasil não irá longe na Copa
As soluções que Ancelotti pode e deve pensar para a Seleção Brasileira sonhar com o hexa
-
Artigos16h56 de 21/05/2026
Como avaliar a confiabilidade de um portal de imóveis
No mercado imobiliário digital, o volume de acessos de um site não é o único fator que importa
-
Artigos10h51 de 06/05/2026
Chorar já não basta: Shakira, TST e julgamento com perspectiva de gênero
Artigo de opinião do advogado trabalhista Carlos Tourinho
-
Artigos16h32 de 02/05/2026
Como os detentores de XRP podem ganhar mais de 10.000 dólares por mês em renda passiva através [...]
A mineração em nuvem da FTMining, um modelo de renda ‘não baseado em negociação’, tem atraído a atenção e o interesse de muitos investidores
-
Artigos13h03 de 29/04/2026
OPINIÃO: Eleição na Bahia será novamente polarizada entre petismo e carlismo
Terceira via não tem força suficiente para influenciar decisivamente no debate público
-
Artigos17h54 de 22/04/2026
Prerrogativas são inegociáveis: o Caso Áricka Cunha e a necessidade de resposta exemplar
Artigo de opinião do advogado criminalista Luiz Augusto Coutinho
-
Artigos11h05 de 21/04/2026
Como os próximos jogos podem recolocar o Bahia na briga de cima do Brasileirão
Com o calendário apertado, a disputa do Brasileirão ganha corpo
-
Artigos08h51 de 16/04/2026
OPINIÃO: Fim da escala 6×1: entre direitos trabalhistas e disputa política
O debate também passa pela pergunta que costuma surgir em medidas de grande impacto social: quem será o "pai da criança"?
-
Artigos09h19 de 14/04/2026
OPINIÃO: Fim da 6×1 preocupa entidades baianas
Artigo escrito pelo empresário Carlos Falcão, fundador do grupo Business Bahia, e publicado originalmente no jornal A Tarde
-
Artigos18h55 de 23/03/2026
O que separa o Bahia competitivo do Bahia realmente convincente
Capaz de reagir e decidir sob pressão, o Bahia campeão estadual também oscila e ainda deixa a impressão de que pode render mais.










